Folha de S. Paulo
Ex-presidente repete o sucessor ao buscar se
manter relevante no processo eleitoral mesmo de dentro da prisão
O presidente também imita o antecessor ao
levantar a bandeira antissistema com sinal trocado
Quando Jair
Bolsonaro (PL) pede à Justiça autorização para receber
políticos de destaque em sua morada prisional está na clara intenção de se
manter influente no processo eleitoral.
Nisso imita o oponente Luiz Inácio da Silva (PT), que em 2018 foi o artífice da candidatura do correligionário Fernando Haddad de dentro da prisão, assim como agora o ex-presidente impõe apoios à empreitada do filho Flávio. Há, contudo, diferenças nesse jogo da imitação. Lula manteve acesa até setembro daquele ano a falsa chama de que poderia se candidatar. Quanto a Bolsonaro, as circunstâncias o obrigaram a não insistir na mística da candidatura impossível.
Além disso, Haddad não se compara a Flávio.
Um foi prefeito de São Paulo, postulante ao governo do estado, concorrente à
Presidência da República e ministro da Fazenda.
O outro, senador, foi acusado da
prática de desvio dos salários dos funcionários no gabinete de
deputado estadual no Rio de Janeiro. Quanto à experiência administrativa, ao
que se sabe resume-se à sociedade
numa loja de chocolates.
Vivemos tempos em que esse tipo de cotejo não
conta. O controle de qualidade dos aspirantes ao comando do país tem sido o de
menos. A julgar pelos movimentos dos polos dominantes na política, assim será
nesta eleição.
Os dois pretendem levantar a bandeira de
combate ao que chamam de "sistema". Nenhum deles diz
exatamente o que isso significa, embora se depreenda que, a grosso modo, a
esquerda queira se contrapor à elite econômica, e a direita à elite cultural.
Nada disso responde a demandas objetivas da
sociedade por economia estável, estímulo à produtividade, condições razoáveis
de segurança no ir e vir do cotidiano, serviços públicos de qualidade,
incremento da confiabilidade nas instituições e reformas em áreas ainda presas
a conceitos do passado.
O embate entre "fascistas" e
"comunistas" atende a fantasias ideológicas, mas mantém o debate
político longe das questões substantivas indispensáveis ao desenvolvimento do
país.

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