sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Na política e no carnaval, tristeza não tem fim, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Um fato é público: uma fantasia que não fará sucesso neste carnaval é a de banqueiro Daniel Vorcaro

Há menos mistérios entre o céu e a terra do que há segredos em Brasília e neblina no sorteio de relatores no Supremo Tribunal Federal (STF). Mas um fato é público: uma fantasia que não fará sucesso neste carnaval é a de banqueiro - nem se vier com dinheiro nos bolsos do terno italiano.

De “outsider” da Faria Lima a “hit pop” na capital federal, anfitrião de festas e jantares concorridos em Brasília e São Paulo, o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do banco Master e alvo da Polícia Federal (PF) metamorfoseou-se em “persona non grata” entre políticos e autoridades que já o frequentaram: ninguém conhece, ninguém viu. Até que a perícia da Polícia Federal nos celulares e laptops apreendidos derrube as máscaras. O nome do ministro Dias Toffoli surgiu em conversas, e a consequência imediata foi seu afastamento da relatoria do caso Master no STF - gesto pelo qual era cobrado, mas ao qual resistiu com resiliência.

A festa deste ano chegou tão inovadora que no lugar de confetes os foliões jogaram dinheiro pela janela. Na investigação da Rioprevidência, que aplicou R$ 970 milhões em títulos do Master, um dos alvos atirou do 30º andar de um prédio em Balneário Camboriú (SC) uma mala com R$ 429 mil, e as notas se espalharam como serpentina.

O que atordoa a cúpula do poder em Brasília, em relação à crise do Master, é a mudança de regras no meio do jogo, que pegou veteranos de calças curtas. Desde a comissão parlamentar de inquérito (CPI) mista que investiga o bilionário desvio em pensões e aposentadorias no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), os donos da bola perderam o controle da partida.

Entrou para a história a reviravolta na eleição para o comando da CPI do INSS em agosto. Parecia tudo alinhado para que os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), em articulação conjunta com o governo, emplacassem os nomes da direção do colegiado. Mas o arranjo fez água.

A derrota foi ainda mais constrangedora porque os apadrinhamentos eram públicos. Alcolumbre confirmara aos jornalistas que atuava para eleger o senador Omar Aziz (PSD-AM) presidente da CPI: “É o meu candidato”, disse no dia 17 de junho. Depois, às vésperas do início dos trabalhos, Hugo Motta “anunciou” em seu perfil na rede X os nomes do presidente e do relator da comissão: "Anuncio que o relator da CPMI do INSS será o deputado Ricardo Ayres (Republicanos-TO). Desejo a ele, ao presidente Omar Aziz (PSD-AM) e a todos os integrantes um excelente trabalho nessa pauta tão relevante para o país", escreveu no dia 15 de agosto.

A CPI do INSS se reuniria pela primeira vez no dia 20 de agosto. Horas antes, a oposição se reuniu para lançar uma candidatura alternativa e derrubar as indicações de Alcolumbre e Motta. A estratégia vingou, e por 17 votos a 14, o senador Carlos Viana (Podemos-MG), ligado ao bolsonarismo, foi escolhido presidente da comissão, e indicou outro relator.

O episódio revelou que os chefes do Legislativo não detêm mais controle sobre tudo e estão vulneráveis. O Valor mostrou que Alcolumbre e aliados tentam barrar a leitura do requerimento de criação da CPI do Banco Master protocolado no início do mês. Diante do precedente da CPI do INSS, é incerto se o grupo de Alcolumbre exercerá algum controle sobre a escolha dos integrantes da comissão, tampouco do presidente e do relator. O tema que já é sensível para o mundo político, respingou em Alcolumbre quando a Amapá Previdência (Amprev) tornou-se investigada da PF pelos aportes de R$ 400 milhões em títulos do Master. O presidente da Amprev Jocildo Lemos afastou-se do cargo - ele já foi tesoureiro de campanhas de Alcolumbre. O presidente do Senado não é alvo das investigações.

Mas a ninguém interessa um Alcolumbre fragilizado. Depois do carnaval, o Palácio do Planalto encaminhará ao Senado as mensagens com nomeações de Lula para cargos estratégicos, como a do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, para o STF, e a do secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Guilherme Mello, para uma diretoria do Banco Central. Ao mesmo tempo, há apreensão quanto à indicação de Otto Lobo para a presidência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que já está no Senado, mas desencadeou uma crise no mercado, e com o próprio Alcolumbre, que rechaçou que seria o padrinho da escolha.

Paralelamente, há temor generalizado quanto à divulgação de outros nomes que em conversas no celular de Vorcaro e adjacências, como se deu com Toffoli. Como nos versos do poeta, é assim no carnaval como na vida: tristeza não tem fim, felicidade sim. Nem a política escapa da sina.

Exemplo do STM
Para definir o novo relator do caso Master, faltou o STF seguir a iniciativa da presidente do Superior Tribunal Militar (STM), Maria Elizabeth Rocha, que no dia 3, instalou um telão e convidou a imprensa para acompanhar o sorteio eletrônico, ao vivo, dos relatores e revisores dos processos de perda de patente do ex-presidente Jair Bolsonaro, de três generais e um almirante condenados pela tentativa de golpe de Estado em 2022. Um gesto inédito de transparência que deveria inspirar outros tribunais onde técnica e detalhes dos sorteios de relatores são nebulosos.

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