Valor Econômico
Entre nós, o Carnaval foi destituído das
referências mediadoras da Quaresma, do tempo da espera. Virou coisa em si mesma
Mesmo não o sendo, de fato, o Carnaval se
tornou uma espécie de referência identitária do imaginário do que o brasileiro
julga que é. Na verdade, a imensíssima maioria do povo sempre esteve e está
cada vez mais distante dessa festividade, que, aliás, não é apenas uma, mas
várias escondidas sob um único nome.
O declínio do Carnaval brasileiro pode ser analisado como documento e indício sociológico de mudanças profundas no que reiteradamente tem-nos sido dito que somos. O Carnaval é o outro lado, é o nosso nunca fomos.
O crescimento estatístico do número de
evangélicos poderia ser tomado como fator de comprometimento da adesão ao que
muitos, evangélicos ou não, consideram uma festa de Satanás. Tampouco o é. É
notório que Satanás está muito atarefado com outras solicitações, sobretudo com
a maligna tarefa de monitorar seus auxiliares em estado de rebeldia nos
poderes, na economia e mesmo nas religiões.
Os indícios do último meio século são de que
o Carnaval está no fim. Monitoro essa decadência desde quando começou
claramente a deixar de ser uma festa popular de rua, o tríduo da licença
pecaminosa, do cotidiano invertido, para deixarmos de ser o oculto que somos.
Desde que foi aqui difundido nos finais do
século XIX, o Carnaval não tem sido e nunca foi expressão da nossa suposta
alegria. Alegria de quê? Qual a proporção de brasileiros que tem tido algum
motivo de alegria para celebrar?
Eu sempre soube que o Carnaval era um momento
de fuga, de fingimento, de nele estar para não estar de fato. Mas isso também
tem um pouco de simplificação. Talvez o Carnaval melhor diga que não somos um
povo alegre, mas reclamamos o direito de ter alguns momentos de alegria, nem
que seja fingida.
O extraordinário Paulo da Silva Prado, de uma
das famílias mais ricas do Brasil, patrono da Semana de Arte Moderna de 1922,
publicou, em 1928, “Retrato do Brasil: Ensaio sobre a tristeza brasileira”, um
livro referencial. Do modernista Mário de Andrade, também de 1928, é Macunaíma,
o herói sem nenhum caráter.
O da identidade inconcreta dos desencontros
do modo de ser, o diverso e múltiplo que não é nenhum.
O Carnaval está no fim por ter perdido as
referências sociais de sua gênese, daquilo que socialmente é, por ter perdido a
possibilidade de ser socialmente compreendido e decifrado.
O Carnaval é popularmente interpretado como
festa mundana, suspeitamente, porém, impregnada de atributos e concepções que
remetem a um sistema de significados que é o da religião. Sua cultura de
inversões, simulações e fingimentos narra a representação social do
anticotidiano, do que somos não querendo ser, ou querendo mas não podendo.
Em tempos idos, nos começos, Carnaval era
homem se fingir de mulher, mulher, de homem, usar máscara do que não se era
para interagir como avesso. Sentir-se liberado para agredir o outro, o
desconhecido, o diferente, o socialmente distante, com laranjinhas de cera
cheias de água perfumada ou mais tarde o lança-perfume.
O momento significativo do nascimento do
Carnaval entre nós foi aquele em que se sobrepôs ao Entrudo e o modificou e
substituiu, no século XIX. O Entrudo era o marco divisório entre o sagrado e o
profano, situado no próprio calendário religioso.
Do latim “introitus”, dizem, inaugurava a
Quaresma, o período de restrições religiosas que penalizam o corpo. O Entrudo,
e o Carnaval o imitou, representava uma burla dessas restrições, viabilizada
pela inversão da realidade ao contrário do que cotidianamente é. A realidade
como representação e teatro do avesso.
A máscara e o mascarado como figurações do
não ser dos dias da incerteza da aproximação da crucificação e morte de Cristo.
O tempo do vazio da espera e do perigo do advento do Anticristo.
Mas algo aconteceu. Entre nós, o Carnaval se
tornou o espetáculo desse vazio, foi destituído das referências mediadoras da
Quaresma, do tempo da espera. Virou coisa em si mesma. Mero produto para
consumo do imaginário. A rua tornou-se residual.
O Carnaval virou imóvel nos monumentos de
concreto que são os sambódromos, em que se paga para participar, tornou-se
seletivo, instrumento de exibição da classe média e de consumo do espetáculo.
Como todo produto que é mercadoria, disseminou-se. A antiquaresma antecipou-se
e estendeu-se pelo próprio tempo sagrado da espera sacrificial.
A Quarta-Feira de Cinzas foi violada. Todos os dias se tornaram dias de Carnaval. Já não é preciso fingir. A vida perdeu a autenticidade porque já não existe o íntimo nem o segredo. Íntimo e segredo agora são espetáculo. A banalidade do cotidiano transformou-se em espetáculo. O Carnaval, por sê-lo, já não o é. O Carnaval tornou-se desnecessário e inútil.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.