sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Novos rumos da ordem global. Por Armando Castelar Pinheiro

Valor Econômico

O desafio é adivinhar para onde uma nova ordem emergente levará o mundo

Com razão, no último ano se deu muita atenção à forma algo caótica, autocentrada e lastreada em instrumentos incomuns com que a diplomacia trumpiana vem reconfigurando a ordem geoeconômica global, enfraquecendo as instituições multilaterais e até certo ponto alienando seus parceiros tradicionais. Bem menos atenção tem sido dada, porém, a um dos principais motivadores dessa radical mudança na postura americana: a rápida ascensão econômica da Ásia Emergente.

Sobre isso, vejam-se, por exemplo, as mais recentes projeções do FMI. Elas apontam que, no quinquênio 2026-30, a Ásia Emergente e em Desenvolvimento (AED) responderá por 54,4% do crescimento do PIB mundial, contra pouco mais de um terço disso (19,6%) das Economias Avançadas (EA). Com isso, a participação da AED no PIB mundial, medida em paridade de poder de compra (PPP), irá a 37,9% em 2030, superando a das EA (36,3%). Participações essas que, em 2005, eram de 18,8% e 54,1%, respectivamente.

As projeções da OCDE no seu “Long-Run Economic Scenarios” sugerem que esse processo se aprofundará nas décadas seguintes. Assim, considerando o cenário de “Business-as-usual energy transition, median climate damage curve, no carbon mitigation costs”, a OCDE projeta que o PIB conjunto de China e Índia sairá do equivalente a 99% para 142% do PIB agregado dos países do G7, de 2025 para 2050. Neste cenário, tanto China como Índia teriam, em menos de vinte anos, um PIB maior do que o dos EUA (em PPP). Ou seja, a economia mundial seguirá retornando para a Ásia, onde se concentrava até dois séculos atrás, antes que a Revolução Industrial e todo o progresso observado na Europa e nos EUA a trouxesse para o Ocidente.

Acontece que o tamanho da economia influi muito no poderio econômico, político e militar dos países e, portanto, em como se organizam as relações internacionais. Em essas projeções se confirmando, a forma como o mundo se organiza e tenta resolver seus problemas comuns vai mudar bastante.

Encontrei uma excelente análise sobre esses temas no livro de Vince Cable, “Eclipsing the West: China, India and the forging of a new world” (Manchester University Press, 2025). Além de bem escrito e atual, o livro me agradou por três aspectos principais. Primeiro, ele faz uma análise relativamente profunda do que se passa com a economia e a política da China e da Índia. Sobre aquela sabemos um pouco mais, mas sobre esta é notável o quão pouco acompanhamos, apesar de a Índia ter crescido 6,3% ao ano na média dos últimos 30 anos, devendo em breve se tornar a quarta maior economia do mundo e, daqui a não muito tempo, a terceira. Talvez isso se deva à Índia ser uma economia muito mais fechada que a China, focada mais na exportação de serviços do que de bens.

O livro também é interessante por ser relativamente neutro quanto ao debate ideológico atual, evitando tomar lado nas disputas. É interessante, por exemplo, o paralelo que traça entre Donald Trump, Xi Jinping e Narendra Modi, com suas tendências autoritárias e de culto à personalidade, assim como as semelhanças entre o capitalismo estatal de China e Índia, de um lado, e, cada vez mais, os EUA, ainda que, claro, em bem menor escala, em que a segurança nacional se sobrepõe à busca da eficiência.

De 2026 a 2030, Ásia Emergente responderá por 54,5% do avanço do PIB global, ante 19,6% de economias avançadas

Essa abordagem ajuda a enriquecer a análise de um dos pontos focais do livro: como a nova ordem global, com uma super potência em declínio relativo, e outras duas em ascensão, vai limitar, ou não, nossa capacidade de lidar com desafios coletivos, como ter regras econômicas que promovam a eficiência, lidar com o problema do aquecimento global e evitar conflitos militares que desemboquem no uso de armas nucleares, o que o livro chama de Armadilha de Kindleberger.

Por fim, ajuda que o livro olha bastante à frente, em especial se perguntando se China e Índia vão conseguir superar os atuais desafios econômicos e seguir crescendo em ritmo acelerado. O autor, nos dois casos, acredita que sim: que a China superará a atual crise imobiliária e a “armadilha da renda média” e que a Índia seguirá melhorando o ambiente de negócios e investindo bastante em infraestrutura e novas plantas industriais. Ele é especialmente otimista quanto à Índia, por sua dinâmica demográfica mais favorável e o potencial de aproveitar a mão de obra hoje subutilizada.

O último capítulo é o mais interessante. Nele o autor traça três cenários futuros. No primeiro, que chama de “Ocidente Global”, as políticas hoje defendidas pelos EUA funcionam, levando o mundo a uma nova Guerra Fria, que fragmenta a economia mundial e consegue travar o crescimento chinês. Nele, a Índia se alinha ao Ocidente e segue crescendo rápido, enquanto os EUA mantêm sua posição hegemônica e a União Europeia perde relevância. No segundo, do “Mundo Multipolar”, China, Índia e EUA se tornam superpoderes que dominam suas áreas de influência, mas sem haver um poder hegemônico. Segundo Cable, esse seria o cenário de sonho do Brics. Para ele, porém, nenhum desses dois cenários é provável, além de terem o problema de não dar resposta à Armadilha de Kindleberger. Assim, ele defende antes o terceiro cenário, de um “Mundo Multilateral”, onde o poder também se distribui entre as três superpotências, mas há mais cooperação mundial.

São apenas cenários, claro, mas não há dúvida que uma nova ordem mundial está em formação. O desafio é adivinhar para onde ela nos levará.

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