Valor Econômico
O desafio é adivinhar para onde uma nova
ordem emergente levará o mundo
Com razão, no último ano se deu muita atenção à forma algo caótica, autocentrada e lastreada em instrumentos incomuns com que a diplomacia trumpiana vem reconfigurando a ordem geoeconômica global, enfraquecendo as instituições multilaterais e até certo ponto alienando seus parceiros tradicionais. Bem menos atenção tem sido dada, porém, a um dos principais motivadores dessa radical mudança na postura americana: a rápida ascensão econômica da Ásia Emergente.
Sobre isso, vejam-se, por exemplo, as mais
recentes projeções do FMI. Elas apontam que, no quinquênio 2026-30, a Ásia
Emergente e em Desenvolvimento (AED) responderá por 54,4% do crescimento do PIB
mundial, contra pouco mais de um terço disso (19,6%) das Economias Avançadas
(EA). Com isso, a participação da AED no PIB mundial, medida em paridade de
poder de compra (PPP), irá a 37,9% em 2030, superando a das EA (36,3%).
Participações essas que, em 2005, eram de 18,8% e 54,1%, respectivamente.
As projeções da OCDE no seu “Long-Run Economic
Scenarios” sugerem que esse processo se aprofundará nas décadas seguintes.
Assim, considerando o cenário de “Business-as-usual energy transition, median
climate damage curve, no carbon mitigation costs”, a OCDE projeta que o PIB
conjunto de China e Índia sairá do equivalente a 99% para 142% do PIB agregado
dos países do G7, de 2025 para 2050. Neste cenário, tanto China como Índia
teriam, em menos de vinte anos, um PIB maior do que o dos EUA (em PPP). Ou
seja, a economia mundial seguirá retornando para a Ásia, onde se concentrava
até dois séculos atrás, antes que a Revolução Industrial e todo o progresso
observado na Europa e nos EUA a trouxesse para o Ocidente.
Acontece que o tamanho da economia influi
muito no poderio econômico, político e militar dos países e, portanto, em como
se organizam as relações internacionais. Em essas projeções se confirmando, a
forma como o mundo se organiza e tenta resolver seus problemas comuns vai mudar
bastante.
Encontrei uma excelente análise sobre esses
temas no livro de Vince Cable, “Eclipsing the West: China, India and the
forging of a new world” (Manchester University Press, 2025). Além de bem
escrito e atual, o livro me agradou por três aspectos principais. Primeiro, ele
faz uma análise relativamente profunda do que se passa com a economia e a
política da China e da Índia. Sobre aquela sabemos um pouco mais, mas sobre
esta é notável o quão pouco acompanhamos, apesar de a Índia ter crescido 6,3%
ao ano na média dos últimos 30 anos, devendo em breve se tornar a quarta maior
economia do mundo e, daqui a não muito tempo, a terceira. Talvez isso se deva à
Índia ser uma economia muito mais fechada que a China, focada mais na
exportação de serviços do que de bens.
O livro também é interessante por ser
relativamente neutro quanto ao debate ideológico atual, evitando tomar lado nas
disputas. É interessante, por exemplo, o paralelo que traça entre Donald Trump,
Xi Jinping e Narendra Modi, com suas tendências autoritárias e de culto à
personalidade, assim como as semelhanças entre o capitalismo estatal de China e
Índia, de um lado, e, cada vez mais, os EUA, ainda que, claro, em bem menor
escala, em que a segurança nacional se sobrepõe à busca da eficiência.
De 2026 a 2030, Ásia Emergente responderá por
54,5% do avanço do PIB global, ante 19,6% de economias avançadas
Essa abordagem ajuda a enriquecer a análise
de um dos pontos focais do livro: como a nova ordem global, com uma super
potência em declínio relativo, e outras duas em ascensão, vai limitar, ou não,
nossa capacidade de lidar com desafios coletivos, como ter regras econômicas
que promovam a eficiência, lidar com o problema do aquecimento global e evitar
conflitos militares que desemboquem no uso de armas nucleares, o que o livro
chama de Armadilha de Kindleberger.
Por fim, ajuda que o livro olha bastante à
frente, em especial se perguntando se China e Índia vão conseguir superar os
atuais desafios econômicos e seguir crescendo em ritmo acelerado. O autor, nos
dois casos, acredita que sim: que a China superará a atual crise imobiliária e
a “armadilha da renda média” e que a Índia seguirá melhorando o ambiente de
negócios e investindo bastante em infraestrutura e novas plantas industriais.
Ele é especialmente otimista quanto à Índia, por sua dinâmica demográfica mais
favorável e o potencial de aproveitar a mão de obra hoje subutilizada.
O último capítulo é o mais interessante. Nele
o autor traça três cenários futuros. No primeiro, que chama de “Ocidente
Global”, as políticas hoje defendidas pelos EUA funcionam, levando o mundo a
uma nova Guerra Fria, que fragmenta a economia mundial e consegue travar o
crescimento chinês. Nele, a Índia se alinha ao Ocidente e segue crescendo
rápido, enquanto os EUA mantêm sua posição hegemônica e a União Europeia perde
relevância. No segundo, do “Mundo Multipolar”, China, Índia e EUA se tornam
superpoderes que dominam suas áreas de influência, mas sem haver um poder
hegemônico. Segundo Cable, esse seria o cenário de sonho do Brics. Para ele,
porém, nenhum desses dois cenários é provável, além de terem o problema de não
dar resposta à Armadilha de Kindleberger. Assim, ele defende antes o terceiro
cenário, de um “Mundo Multilateral”, onde o poder também se distribui entre as
três superpotências, mas há mais cooperação mundial.
São apenas cenários, claro, mas não há dúvida que uma nova ordem mundial está em formação. O desafio é adivinhar para onde ela nos levará.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.