Correio Braziliense
A liderança moral do Supremo Tribunal Federal
está em xeque, devido ao envolvimento de parentes de ministros com os
escritórios que advogam na Corte
Desfila hoje, com concentração em frente ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, na Avenida Antônio Carlos 1.500, no Centro (antiga a Esplanada do Castelo, que ainda hoje abriga os antigos ministérios da Era Vargas), o mais novo protagonista do Carnaval de rua carioca: o Bloco Corta-Penduricalho. Os foliões vão desfilar pelo Aterro do Flamengo até o Bar Belmonte. Dispensável dizer que a motivação para criação do bloco foi a aprovação do extra-teto dos salários dos funcionários da Câmara e do Senado e outros penduricalhos que afrontam o bom-senso e a Constituição.
Empoderados pelas emendas ao Orçamento, fundo
partidário e fundo eleitoral, deputados e senadores aprovaram os aumentos a
toque de caixa, na terça-feira, pegando a imprensa e a opinião pública de
surpresa. Na quarta-feira, para esvaziar a reação da sociedade, não houve
sessão na Câmara nem no Senado — estão suspensas até depois do carnaval. Como
podem legislar de costas para a sociedade, porque estão tão endinheirados que
praticamente compraram a reeleição nos seus redutos de origem, a maioria
mergulhou. Somente ficaram em Brasília os presidentes da Câmara e do Senado,
Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP), respectivamente, e
os líderes de bancada, para um jantar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na Granja do Torto.
Motta disse ontem que espera que Lula
sancione o reajuste. Segundo o parlamentar, após a sanção, pretende publicar um
ato da Mesa Diretora que eleva a verba de gabinete dos deputados. Esse ato,
inclusive, está pronto. O aumento deve ser de cerca de R$ 30 mil. Atualmente, o
valor é de R$ 133,2 mil por mês. Com o aumento, passará para cerca de R$ 165
mil mensais.
Lula ainda avalia se vetará ou não os
penduricalhos, com um olho nos eleitores e outro nos políticos do Centrão.
Entretanto, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, saiu na
frente e determinou que os Três Poderes revisem e suspendam
"penduricalhos" ilegais do serviço público. O ministro deu prazo de
60 dias para que Executivo, Legislativo e Judiciário tomem providências sobre
essas verbas, que são valores que ultrapassam o teto do funcionalismo,
equivalente ao salário de ministros do STF, que é de R$ 46.366,19.
A decisão vale também para estados e
municípios. Aquelas verbas que não foram expressamente previstas em lei,
"devem ser imediatamente suspensas após o prazo fixado", determinou
Dino, a partir de uma ação apresentada ao Supremo pela Associação dos
Procuradores Municipais do Litoral Centro-Sul do Estado de São Paulo.
Executivo, Legislativo e Judiciário terão de publicar um ato discriminando o
valor e fundamento de cada verba remuneratória, indenizatória ou auxílio.
Privilégios
No momento, a liderança moral do STF na
sociedade está em xeque, devido ao comportamento, decisões e envolvimento de
parentes de vários ministros com os escritórios que advogam na Corte. Dino faz
um dueto com o presidente Edson Fachin, que pretende aprovar um Código de Ética
para o Supremo e toda a magistratura, diante do desgaste da instituição,
principalmente em relação ao caso Master. Dino vem resgatando a bandeira da
ética em várias de suas decisões. Em contrapartida, está sendo ameaçado de
impeachment nos meios políticos, principalmente por causa de sua atuação contra
desvios de verbas de emendas ao Orçamento.
O ministro critica a ausência de uma lei que
regulamente as indenizações e determina ao Congresso a elaboração de uma
legislação para regulamentar quais verbas indenizatórias são, efetivamente,
admissíveis como exceção ao teto. Na decisão, afirma que verbas indenizatórias
foram usadas para maquiar o pagamento turbinado de salários, ultrapassando o
limite previsto pela Constituição. "Essa situação fática implica o
descumprimento generalizado da jurisprudência vinculante do STF acerca do teto,
impondo o ônus de que cada caso concreto seja arbitrado pelo Tribunal". As
verbas indenizatórias são destinadas a recompor gastos efetivados pelo
desempenho do serviço.
A "multiplicação anômala" de verbas
indenizatórias é impressionante: licença compensatória de um dia por cada três
dias normais de trabalho, que pode ser "vendida" e se acumula com o
descanso em sábados, domingos e feriados; gratificações de acervo processual, a
premiar quem acumula muitos processos; gratificações por acúmulo de funções, na
mesma jornada de trabalho, em dias úteis e no período diurno;
auxílio-locomoção, pago, inclusive, a quem não comprova que se locomove para
trabalhar; auxilio-combustível; auxílio-educação (por vezes, sem que haja serviço
educacional); auxilio-saúde (independentemente da existência ou não de planos
de saúde); licença-prêmio (também com conversão em pecúnia); acúmulos de
férias, por vontade própria e unilateral do servidor, também a serem
convertidos em parcelas indenizatórias.
Enquanto Fachin foca na discussão de um Código de Ética, Dino focou sua atuação nos privilégios.

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