Folha de S. Paulo
A quase-tragédia na rua da Consolação não foi
surpresa
Prefeito aposta em um modelo fracassado de
privatização da cidade
O prefeito de São Paulo e
a Ambev são
corresponsáveis pela quase-tragédia no Carnaval paulistano,
cada um dentro de suas atribuições.
A única coisa que separou a situação de
empurra-empurra no domingo (8) de um cenário de
pisoteamento foi a desobediência dos foliões, que derrubaram as
grades de aço, postas ali para segregar o espaço público de quem tem o direito
de ocupá-lo.
O que ocorreu na rua da Consolação não foi o resultado natural e inevitável da superlotação de dois megablocos, mas, sim, a consequência previsível do planejamento inepto da Prefeitura de São Paulo e da marca patrocinadora.
A quase-tragédia estava prevista. O conselho
comunitário de segurança dos bairros da região havia antecipado o risco de dois
megablocos no mesmo local; até o vice-prefeito, Mello Araújo (PL), alertou seu
chefe sobre esses riscos. A marca deveria ter tido mais respeito à história de
um dos blocos mais tradicionais da cidade e seu trajeto consolidado.
A quase-tragédia na rua da Consolação
extrapola os limites do debate carnavalesco ao
expor as fraturas de um modelo fracassado de cidade privatizada. Para a gestão
Nunes, gerir a cidade significa subjugar espaços públicos ao interesse privado.
Os exemplos são diversos: a proposta de flexibilização da lei de silêncio na
cidade; o fechamento por mais de cem dias do vale do Anhangabaú com grades
desde a sua concessão; o aumento dos preços nos parques da cidade cedidos à
iniciativa privada.
Carnaval de rua é tecnologia social do
furdunço, como lindamente lembra Gregorio Duvivier na peça "O Céu da
Língua". Somos, enquanto país, especialistas em bochicho,
rebuliço, baderna, sarapatel, sururu, arruaça, zona, pardieiro de um jeito que
nem a inteligência artificial pode conceber. Pode-se locar o espaço público,
mas isso não é o Carnaval.
"Ninguém segura o Brasil no dia em que
nossas instituições estiverem à altura do nosso Carnaval", escreve Greg.
O Carnaval, como a vida e a cidade, não está à venda; quem faz o Carnaval não é o cercadinho, é quem pula fora dele.

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