quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Nunes, Ambev e o Carnaval do cercadinho, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

A quase-tragédia na rua da Consolação não foi surpresa

Prefeito aposta em um modelo fracassado de privatização da cidade

O prefeito de São Paulo e a Ambev são corresponsáveis pela quase-tragédia no Carnaval paulistano, cada um dentro de suas atribuições.

A única coisa que separou a situação de empurra-empurra no domingo (8) de um cenário de pisoteamento foi a desobediência dos foliões, que derrubaram as grades de aço, postas ali para segregar o espaço público de quem tem o direito de ocupá-lo.

O que ocorreu na rua da Consolação não foi o resultado natural e inevitável da superlotação de dois megablocos, mas, sim, a consequência previsível do planejamento inepto da Prefeitura de São Paulo e da marca patrocinadora.

A quase-tragédia estava prevista. O conselho comunitário de segurança dos bairros da região havia antecipado o risco de dois megablocos no mesmo local; até o vice-prefeito, Mello Araújo (PL), alertou seu chefe sobre esses riscos. A marca deveria ter tido mais respeito à história de um dos blocos mais tradicionais da cidade e seu trajeto consolidado.

A quase-tragédia na rua da Consolação extrapola os limites do debate carnavalesco ao expor as fraturas de um modelo fracassado de cidade privatizada. Para a gestão Nunes, gerir a cidade significa subjugar espaços públicos ao interesse privado. Os exemplos são diversos: a proposta de flexibilização da lei de silêncio na cidade; o fechamento por mais de cem dias do vale do Anhangabaú com grades desde a sua concessão; o aumento dos preços nos parques da cidade cedidos à iniciativa privada.

Carnaval de rua é tecnologia social do furdunço, como lindamente lembra Gregorio Duvivier na peça "O Céu da Língua". Somos, enquanto país, especialistas em bochicho, rebuliço, baderna, sarapatel, sururu, arruaça, zona, pardieiro de um jeito que nem a inteligência artificial pode conceber. Pode-se locar o espaço público, mas isso não é o Carnaval.

"Ninguém segura o Brasil no dia em que nossas instituições estiverem à altura do nosso Carnaval", escreve Greg.

O Carnaval, como a vida e a cidade, não está à venda; quem faz o Carnaval não é o cercadinho, é quem pula fora dele.

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