Folha de S. Paulo
Desumanidade seria apodo controverso: não se
trata de algo desumano, mas do humano confortável na lógica fascista
Guardada a distância literária, morte do cão
Orelha é tão impactante quanto a morte da cadela Baleia em 'Vidas Secas'
A morte barbárica do cão Orelha chocou o país. Guardada a distância literária, é tão impactante quanto a morte ficcional da cadela Baleia em "Vidas Secas". Animal é pensamento. Quer dizer, campo de conhecimento onde cada dia se experimenta a afirmação contrastiva da identidade humana. Talvez por isso a tendência ascendente de cuidar de um "pet" (cachorro, gato), hoje em dia, seja o modo mais simples de confirmar para si mesmo a humanidade que se esvai na vida social regida pelas máquinas.
É clichê conhecido: o ser humano aprende a
amar ao longo de sua existência, o cachorro já nasce como amor em quatro patas. Orelha
amava a comunidade, animal comunitário, diz-se, dócil e receptivo a
carinho. Mas jovens cavaleiros do apocalipse entregaram-se a agressões ainda
pouco claras, que oscilam nos relatos entre empalar, bater pregos na cabeça,
tentar afogar e finalizar com pauladas. No mesmo dia, matou-se atrozmente outro
cão, Caramelo. Isso acontece regularmente, há sites de adolescentes
especializados em atrocidades com animais.
"Schadenfreude" é o nome alemão para o prazer de ver sofrer.
"Desumanidade" seria um apodo controverso: não se trata do desumano,
mas do humano confortável na lógica do fascismo.
Relatos dessa natureza frequentaram as
denúncias de torturas
durante o regime militar. Jamais causaram algazarra pública, seja
por medo, por conveniência ou porque as vítimas eram comprometidas com uma
causa política da qual se quisesse distância. Mas a torpe flagelação de um pet
provoca choque imediato por dificultar a distinção, no amplo escopo do conceito
de animal, entre o humano e a besta. E faz aflorar a evidência de que homem é o
único animal capaz de assassinar, matar por matar. Os outros matam por fome ou
por território.
Há uma larga dose de ignorância ou de
hipocrisia nesse choque moral quando se deixa de perceber "tudo que a
natureza faz em nós, sem nós" (H. Amiel em "Diário Íntimo"). Ou
tudo que o meio-ambiente faz despercebido. A morte ficcional de Baleia tem a
ver com a secura das vidas sertanejas, na escrita de Graciliano. A morte real
de Orelha tem a ver com a aridez de um contexto existencial doentio, imunitário
à solidariedade de ações afirmativas, por se vangloriarem elites e dirigentes
políticos de que seus habitantes de pele branca são numericamente superiores a
qualquer outro estado do país. Também sabem, embora não alardeiem, que é o
estado com maior número de células neonazistas.
Para inglês ver, governador e autoridades
vociferaram toda a indignação desse mundo, cuidando ao mesmo tempo de proteger
as identidades dos perpetradores, filhos de famílias abastadas. Insinuou-se
timidamente falha educacional. Mas o catecismo da santimônia não consegue
ocultar que todos compartilham a perversa pedagogia pública de ódio (racial e
outros) institucionalizado. Não são apenas "menores" que, não
conseguindo amar a inocência de um cão, dificilmente amarão a complexidade de
um ser humano próximo, mas também seus "maiores", que odeiam a visão
de qualquer diversidade no espelho. Toda essa gente matou Orelha.

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