Folha de S. Paulo
O desfile da Acadêmicos de Niterói pode não
influir no resultado da eleição, mas exibe a desigualdade de armas na campanha
O presidente atropela regras sem ser impedido, mas isso não evita que seja um infrator do código de ética da vida real
Não serão os 80 minutos de desfile
da Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí, no domingo de Carnaval,
que garantirão a Luiz Lula Inácio
da Silva (PT)
um quarto mandato de presidente. O filme "Lula, o Filho do Brasil",
de 2009, tampouco foi o responsável pela vitória com Dilma
Rousseff no ano seguinte.
Os dois episódios, no entanto, escancaram o uso de manifestações culturais na construção de mitologias políticas com fins eleitorais. É velha conhecida a ideia do PT de obter hegemonia em todas as áreas da vida nacional.
Quem falou pela primeira vez sobre o plano de
dominação foi José Genoino —prócer
petista da época— no início de 2003. Ao longo daquele ano outras pessoas diriam
o mesmo, com a impertinência dos vencedores.
De lá para cá, o Brasil passou por escândalos
que resultaram no aperfeiçoamento dos instrumentos de controle de abusos de
poder, mas o país segue desatento e algo leniente diante de desacatos quando
cometidos no mais alto escalão.
Jair
Bolsonaro (PL) precisou extrapolar e reincidir até perder o
poder e a liberdade. Ainda assim, quase ganhou a reeleição e talvez não
estivesse preso se tivesse enfrentado policiais, procuradores e juízes
condescendentes.
Há no Brasil um sentimento difuso de que
certas regalias são permitidas a presidentes, e há um certo pudor em apontá-las
até que ultrapassem os limites devidos à reverência ao posto. Isso em nome do
respeito à legitimidade conferida pelas urnas.
Prerrogativa que não fornece salvo-conduto a
infrações ilimitadas. Nem a mentiras, como a que contou Lula na quinta-feira
(5) em entrevista ao UOL.
Disse que só assumiria candidatura nos 45
dias regulamentares de campanha.
"Até lá, serei apenas presidente",
afirmou em desinibida agressão às evidências do uso cotidiano do cargo na
difusão da própria candidatura.
Lula afronta regras e consegue não ser
admoestado devido à complacência que protege o mito. Mas não pode esconder o
fato de que isso faz dele um transgressor do código de ética da vida real.

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