quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O beijo da Natália, por Alfredo Maciel da Silveira

Muitos brasileiros e brasileiras, por terem “comido o pão que o diabo amassou” nos anos da ditadura, conseguiram sair vivos daqui. Num planeta dividido em dois pela “guerra-não-tão-fria”, passaram pela saga pessoal de terem sido catapultados para o “outro mundo”, aquele do Bloco Socialista. Alguns poucos, pela sua notoriedade, seja como expoentes da cultura, jornalistas de renome, etc, revelaram algo daquela “abdução”, levados por imensas e modernas naves comerciais “Ilyushin” e “Tupolev”  da “AEROFLOT” por exemplo, que ainda hoje, acho, nem pousam em vôos regulares aqui em Pindorama.

Naqueles tempos, vôos com escalas ali e acolá, troca de aparelhos, até chegarem por exemplo a “Maskva” (Moscou). Ao descerem as escadas do avião, pisaram pela primeira vez naquele solo carregado de história, e avistaram a tremular na cúpula do aeroporto uma imensa bandeira vermelha.

Imaginem serem ejetados de um mundo repressivo, mortífero, como talvez hoje caminhe para serem os EUA de Trump. Ao aportarem no novo “planeta” bem poderiam pensar: “... não é “Meu Lugar” - como no imortal samba de Arlindo Cruz – mas aqui estou seguro, e faço parte desta história secular de muito sangue derramado que sustenta ali no alto aquela bandeira!”

Quanto a mim, só lhes digo que escapei dos horrores da repressão. Dentre as empresas estatais em que, não só trabalhei, mas das quais “visto a camisa” pelo bem do Brasil, havia aquela sala com a plaqueta na porta: “ASSI – Assessoria de Segurança e Informações”,... se é que me entendem...

Sim, fui capaz ou tive a sorte de conjugar carreira profissional com militância política legal, mas organizada, pela democracia no Brasil. Mas não por acaso, lá no início dos anos 80, em pleno horário de trabalho, recebi um telefonema de alguém:

__  “Alô. Alfredo?”

__ “Sim, olá!”

__ “Pode fazer a mala”

Apenas devo ter respondido: “Sim, sim, entendo”...Abraço!

__ “Abraço”.

O interlocutor mais não disse nem foi perguntado.

De quem era aquela voz?

Granja. Antônio Ribeiro Granja. Então membro do Comitê Central do PCB, militante histórico, um dos dois únicos dirigentes superiores do Partido que haviam permanecido clandestinos no Brasil após a deliberação da retirada para o exterior de toda a Direção, no auge da repressão que se agravara sobre o Partido no início dos anos 70.

Presidente emérito do PPS, Granja viveu, se não me engano, até os 106 anos de idade, deixando gravada e documentada sua trajetória de vida militante.

Por circunstâncias singulares daqueles tempos tenebrosos, conheci e mantive contatos clandestinos com aquele sábio e sagaz camarada, em sua resistente e camponesa nordestinidade.

Obtive licença sem vencimentos para tratar de uma “oportunidade de consultoria negócios” na Europa e,... literalmente, “sumi”...

Fui para um estagio de seis meses no “Instituto de Ciências Sociais” em Moscou, escola de quadros do “demonizado” “Movimento Comunista Internacional”. Tudo pago diga-se, casa, comida, roupa lavada, pelos membros camaradas do PCUS. O principal era um curso intensivo, de tempo integral, em ciências sociais e políticas. Mas havia uma serie de atividades integradoras do “mundo” ali reunido de que adiante apenas farei destaques.

Emocionante para mim foi pisar naquele solo, e ver passar em minha cabeça como um filme a herança de sangue do Sec XX, simbolizada como já disse naquela bandeira vermelha, altaneira, e poder pensar: “Sou parte disso, dessa corrente da história”! Orgulho e compromisso!

Fui recebido por um jovem soviético, tradutor de russo-português, que me orientou a passar pelo guichê diplomático da alfândega. Em seguida, conduzido de caminhonete a uma “Dasha” nas cercanias da cidade, para uma “quarentena” de 15 a 30 dias, seja por motivos de controle sanitário – pois recebiam gente do mundo todo - seja principalmente por motivos de segurança, dado o risco de “infiltração”, ... para bom entendedor...

Ali recolheram meus documentos, que só me foram devolvidos na volta ao Brasil. Perguntaram-me que nome gostaria de ter. Assim, por um período de minha vida, é como se o Alfredo tivesse deixado de existir! Aliás, nem por isso deixei de receber duas cartas enviadas do Brasil, de pessoas próximas, através de canais acredito bem seguros e controlados.

Tudo isso era “normal” e corriqueiro. Brasileiros ilustres da cultura, do jornalismo, como já aludi, tornaram públicas suas semelhantes sagas, relatando em minúcias o seu quotidiano no Instituto, e até o codinome de como foram “batizados”.

Naquela “Dasha” já começamos bons momentos de convivência com camaradas de outras partes do mundo, sua cultura, música, alimentação, etc. Argentinos por exemplo faziam ótimas pizzas e lasanhas. Uma cantora indiana entoava lindíssimas músicas à capela, enquanto indianos saboreavam pão com pimenta do reino...

Avalio ter aproveitado bem o curso. O ambiente favorecia o estudo intensivo, com dedicação em tempo integral e ótimo suporte de biblioteca. Particularmente às segundas feiras havia uma grande Conferência em auditório, para todos os alunos. Conferencistas, ou eram especialistas em teoria política, geopolítica, estratégia internacional, ou dirigentes visitantes de partidos irmãos, trazendo atualizações das conjunturas locais e de suas formas de luta. Notícias desde as FARC da Colômbia, até as contradições vividas pelos camaradas italianos, ao disputarem governo em país membro da OTAN...

Destaco apenas alguns tópicos. Latino-americanos e portugueses nos adoravam. Membros do partido “Congresso Nacional Africano”, com Mandela acho ainda preso, tinham uma “ginga” que eu pensava ser “nossa”, especialmente no samba. As refeições eram sempre um momento de conversa entre grupos, de canadenses a afegãos...

Nas comemorações do “sete de novembro”, data da Revolução Russa no atual calendário gregoriano, assistimos ao desfile militar na Praça Vermelha, sob um frio de congelar barba e bigode. Mas relevante mesmo foi a cerimônia oficial no grande auditório do Kremlin, marcada por grande tensão, pois corriam os dias da crise polonesa. O General comunista polonês Wojciech Jaruzelski havia sido nomeado primeiro ministro pelo parlamento. Então declarara ser aquele ato “a última linha de recuo(...).” Não por acaso, o dirigente soviético membro do Politburo escalado para o pronunciamento oficial na cerimônia do Kremlin fora justamente o General Dmitri Ustinov, comandante das forças armadas soviéticas. Lembro-me d e suas palavras: “(...) Não abandonaremos a Polônia irmã!” Experientes camaradas chilenos, escaldados pela tragédia chilena, não tinham papas na língua: “(...) O Pacto de Varsóvia tem que intervir na Polônia”. Era o início dos anos 80. Sabemos o que veio lá pelo final da década...

Sobre a herança stalinista, guardo o comentário de um dos jovens da equipe soviética de tradutores:

__ “Em 1917, nossa população era 90% camponesa. E tudo o que os camponeses queriam era “um bom Tzar”...

Outra experiência a destacar eram os encontros de conversação dos Coletivos de alunos de diferentes países. Os suecos por exemplo, acho que todos operários e operárias, pediram um encontro conosco. Éramos os brasileiros cinco homens e uma mulher, de diferentes Estados. Na reunião, disseram-nos que São Paulo era a segunda cidade industrial da Suécia “(!)”. E que tal fato interferia na luta de classes deles, porquanto os capitais suecos tinham no Brasil uma “válvula de escape”, dadas as diferenças nas relações trabalhistas e de lucro, lá e cá. Daí, não só um dos motivos da atratividade da economia brasileira para aqueles capitais, mas a lição sempre atual do imperativo da coordenação internacional da luta de classes. À época estavam em pleno andamento as crises do Fordismo e do “Welfare State”, a revolução microeletrônica e a “globalização”.

Durante o período do curso, dirigentes brasileiros de passagem por Moscou nos visitavam. Assim pudemos conversar e interagir com Salomão Malina e Luiz Tenório de Lima.

O beijo da Natália.

A jovem Natália era a notória líder da equipe de tradutores soviéticos que atuavam junto a nós brasileiros. Dois rapazes e três moças. Natália, tão bem educada, simpática e atenciosa como os demais, era mais reservada. Eles tinham importante função de nos conduzir e ciceronear nas saídas coletivas que fazíamos, para atividades culturais, que requeriam a disciplina normal de grupo.

Nessas horas Natália às vezes foi obrigada a ser “mandona”, se algum brasileiro recalcitrante quisesse por exemplo ocupar assento não reservado ao nosso grupo. Sim, havia probleminhas isolados de conduta, atribuíveis talvez  quem sabe à tensão própria de estarmos longe de casa por tanto tempo, num mundo de tantos riscos e incertezas. Tínhamos nossas reuniões de Coletivo, onde tais situações eram conversadas. Nessas horas, convenci-me posteriormente de ter exercido um papel produtivo.

Aqui chego ao fato. No dia da minha despedida para a viagem de volta, o grupo de tradutores bate à porta de meu quarto no alojamento. Traziam-me flores, como é da tradição russa. Em troca, deixei-lhes toda a minha coleção de fitas cassete de música brasileira, que eles adoravam.

Natália deu um passo à frente, olhou-me nos olhos, e suavemente beijou-me, em nome de todos dizendo:

__ “Sem você nós não conseguiríamos fazer nosso trabalho”!

Senti um carinho de onde menos esperava! E a mensagem me caiu como uma “bomba”. Assenti com um olhar, dei-lhe um abraço, despedi-me de cada um, sem dizer nada!... Chocante e inesquecível!

Eles sabiam o tempo todo que, pelo nosso lado, tinham uma retaguarda de moderação para sustentar o trabalho deles!

E para terminar. Anos e anos depois, já extinta a União Soviética, recebi um “folder” com a programação de um “Encontro de Economistas de Língua Portuguesa”. Seria realizado aqui no Hotel Gloria, Rio de Janeiro.

Não tenho certeza, mas possivelmente sob a liderança do economista Aloisio Teixeira, então Reitor da UFRJ. Tal encontro reunia acadêmicos e pesquisadores de Portugal, Brasil e demais ex-colônias, oportunidade ímpar de uma visão panorâmica da própria economia mundial sob a ótica daqueles especialistas.

Mas dentre os participantes programados deparei-me com o nome de um economista brasilianista russo, que me era muito familiar. Oleg Petróvitch Tsukanov. Fluente em português, fora meu professor de Economia Política no curso em Moscou. Lógico que fui ao encontro dele. E passamos uma bela tarde de conversa lá no Hotel Glória, aos goles da melhor “piva” (cerveja) brasileira da qual Tsukanov era “bem chegado”.

Fiquei sabendo que ele havia emigrado para o Brasil, não sei se temporariamente, com o fim da União Soviética. Atuava como Professor Visitante numa Universidade Federal, no Estado de origem daquela minha colega de turma de Moscou. O curioso e engraçado é que tanto eu como ela tínhamos para o Oleg respectivamente nossos codinomes de lá do curso...

A conversa girou sobre o fim da União Soviética, particularmente sobre a dificuldade de adaptação de alguns daqueles professores a um novo mundo para o qual não foram preparados. Claro que também falamos sobre a economia brasileira, e das enormes potencialidades que ele enxergava no Brasil, sem que os próprios brasileiros parecessem ter consciência.

Infelizmente notei que meu estimado professor não parecia estar bem de saúde. Pouco tempo depois soube que ele se foi deste mundo, aqui mesmo em solo brasileiro.

Eu teria assunto para um outro artigo, refletindo sobre as lições daqueles tempos, em conexão com o Brasil e o mundo atual. Com as novas tecnologias de informação e redes de comunicação, vejo uma Diáspora mundial dos sujeitos portadores das antigas tradições das Segunda e Terceira Internacionais que a vida as fez se reaproximarem. E vejo também novos pensadores e intelectuais, formados já no novo mundo, longe daquelas tradições, como o “best seller” Thomas Piketty por exemplo, que estão a pregar o socialismo. Vejo a Internacional Progressista, com Yanis Varoufakis dentre as suas referências.

É de um grande quadro brasileiro, Sergio Augusto de Moraes, ex-membro do Comitê Central do PCB, frase que sempre repito, e com a qual aqui encerro:

__ “Que falta faz o Partidão!”


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