quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A frente democrática não é uma exceção histórica, por Ricardo Marinho

Nos idos de 2018, final da segunda década do século 21, parecia inimaginável que um representante da extrema-direita se tornasse Presidente da República, mas isso aconteceu.

A ideia de uma alternância civilizada entre uma centro-esquerda democrática, com muitas conquistas a seu favor, e uma centro-direita com predominância liberal e adaptada à democracia – que ainda não encontrou sua personificação – parece fazer parte de um panorama político imaginativo que paira na atenção dos eleitores de 2026.

Mas aquele momento foi só o sinal de que havia ocorrido, nos últimos anos, mudanças muito grandes no país — e não necessariamente para melhor —, sem que as forças políticas democráticas compreendessem a profundidade dessas mudanças e como a complexa e difícil situação econômica seguiu seu curso, sem falar na débil circunstância da segurança cidadã e no funcionamento das instituições, que chegou a ocasionar o inesquecível junho de 2013.

Nossa jornada lado a lado com uma fase histórica da situação mundial, que se deteriorou, fez surgir um mal-estar com a globalização e os rápidos avanços científicos e tecnológicos, que foram se tornando cada vez menos compatíveis com os termos progresso social, respeito pelas regras de convivência e o avanço da democracia como um projeto civilizatório aperfeiçoável.

Quando isso aconteceu, sabíamos que as vozes se tornariam ásperas, as desigualdades se aprofundariam, as dificuldades da democracia se tornariam evidentes, e as ideias autoritárias emergiriam como algo possível e aceitável.

No voto, a era dos impérios predadores havia começado, com o poder desenfreado e a dominação como primeiro objetivo declarado, sem qualquer pudor, e a ameaça aos mais fracos como algo legítimo.

Eles se expressam no mundo através do surgimento de chefes de Estado, eleitos, com ideologias, por vezes opostas, que reavivam os nacionalismos e aspirações territoriais, que praticam o autoritarismo e a contrademocracia iliberal, onde a linguagem diplomática é substituída por uma linguagem vulgar e ameaçadora, e invasões, guerras locais e genocídios são considerados comportamentos aceitáveis diante de um protesto silencioso do restante dos países.

O Ocidente e seus valores lutam para sobreviver, o que reflete o seu enfraquecimento.

Parecia que a parte justa da história havia morrido. Pensávamos que a realidade histórica não nos afetaria, mas isso é apenas mais uma ilusão.

No Brasil, tudo começou com o abandono da política vitoriosa da frente democrática de 2022 (que nada tem de excepcional e circunstancial) pela esquerda e suas críticas ferozes à centro-esquerda. A reforma ministerial, em curso por conta do calendário eleitoral, indica que teremos um governo minoritário com um candidato respeitável para sua reeleição, porém fadado a maiores dificuldades.

O governo tem razão ao dizer que o Brasil não está se desintegrando e que algumas das coisas feitas são positivas, mas isso é apenas metade da verdade, porque algumas das coisas mais importantes são aquelas que prometeram e não fizeram.

Assim, a pergunta que não quer calar é: como não entender que é necessário reconstruir a centro-esquerda que tão bem compreendeu o Brasil em 2022 e que possibilitou recuperar uma visão de futuro com propostas de crescimento e maior igualdade que respondam aos interesses das brasileiras e brasileiros hoje em um mundo tão hostil?

Ninguém fala disso. Na verdade, imaginam ser possível seguir com essa coalizão artificial com posições muito diversas.

Abandonar essas visões distantes da realidade e priorizar o Brasil real será a única maneira de reconquistar a confiança das pessoas na centro-esquerda; para isso, é necessário abandonar a confusão e a ignorância.

Somente essa prática poderá gerar o reconhecimento necessário para que o governo volte a ser uma opção viável

É bom que o governo e a sua oposição tenham em mente que, numa democracia, não existe “é tudo nosso e nada deles”, o vencedor não ganha tudo e o perdedor não perde para sempre.

*Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE e da Teia de Saberes.


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