Folha de S. Paulo
Nas entrelinhas da objetividade econométrica,
encontra-se escondido o reavivamento acrítico do mito colonial da preguiça
Quando deixamos os números falarem sem
contexto, o que nos resta é o mito e não a verdade
Eu li a matéria nesta Folha intitulada "Brasileiro trabalha menos que a média mundial" na voz manhosa de Macunaíma lamentando "Ai! Que preguiça!". Para o estudo que fundamenta a reportagem, o que explicaria o "desvio brasileiro" por menos trabalho seria, nota-se, uma "questão cultural", isto é, "uma preferência por mais quantidade de lazer". Imaginei Macunaíma, o preguiçoso herói sem nenhum caráter de Mario de Andrade, lendo isso sentado numa rede entre dois cajueiros onde dorme por dias a fio. Ai! Que preguiça!
Da literatura à
colonização, o mito da preguiça do brasileiro foi historicamente cunhado pelas
elites locais para justificar a exploração do trabalho alheio ou dela zombar.
Massacrados, povos indígenas foram
gradualmente substituídos no Brasil por africanos e seus descendentes não por
uma inaptidão daqueles ao trabalho escravo, mas por ser mais conveniente
controlar africanos traficados ao Brasil do que povos originários. Em
"Coisa de Rico", Alcoforado
mostra como ricos hoje dizem-se ocupados todo o tempo, e como tal mito
meritocrático é central para diferenciação social.
O Brasil é o país que depois de mais de três
séculos de açoite contra negros deu-lhes de presente um Código Penal de 1890
que previa punição de prisão a vadios, capoeiristas, mendigos e ébrios. Mais
escala 6x1, menos "exercícios de agilidade e despreza corporal" nas
"ruas e praças públicas". Mais trabalho, menos Carnaval. A ditadura
de Vargas reproduziu o despautério como contravenção penal em 1941,
criminalizando o ócio, e punindo-o com internação em colônia agrícola ou
instituto de trabalho.
Interessa-me que, nas entrelinhas da
objetividade econométrica, encontra-se escondido o reavivamento acrítico do
mito colonial da preguiça em pleno século 21. Deixo aos economistas e técnicos
a crítica aos números: brasileiro trabalha mais do que países desenvolvidos europeus,
mais do que o esperado contando determinantes institucionais e a pesquisa
ignora tempo de deslocamento que, em SP, chega a mais de 2h.
Quando deixamos os números falarem sem
contexto, o que nos resta é o mito e não a verdade.

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