Valor Econômico
CPI reage ao avanço das investigações franqueado pela troca de relator do caso no STF
Foi uma aprovação de baciada a da CPI do
crime organizado: 21 convocações, sete convites, sete quebras de sigilo e
quatro pedidos de informação. O resultado foi um Fla x Flu entre governistas e
bolsonaristas com um Centrão ausente.
A cereja foi o convite a dois ministros do
Supremo Tribunal Federal, Dias
Toffoli e Alexandre
de Moraes, e à esposa deste, Viviane Barci de Moraes, todas
da lavra do senador Eduardo Girão (Novo-CE), mas é nas convocações e quebras de
sigilo, que são mandatórias, que está o recheio do bolo.
Lá estão todas as estrelas do Master: Vorcaro, Augusto Lima, Luiz Antonio Bull, Angelo Silva, João Carlos Mansur e Fabiano Zettel. Mas também Paulo Henrique Costa (BRB), os irmãos Toffoli, o advogado da JBS que comprou o Tayayá, os alvos da Carbono Oculto e até os operadores das compras fraudulentas de vacinas da covid-19, que voltaram a dar as caras no escândalo da hora.
A maioria governista convocou o ex-presidente
do BC Roberto Campos Neto e o ex-ministro da Economia, Paulo Guedes. O ministro
Rui Costa (Casa Civil) e Gabriel Galípolo, atual presidente do BC, foram apenas
convidados. O presidente e o relator da CPI, Fabiano Contarato (PT-ES) e
Alessandro Vieira (MDB-SE), foram os autores de
todas as quebras de sigilo (Master, Reag, Fictor, BK e Maridt) e pedidos de
informação (acesso aos gabinetes do Senado e ao embarque no aeroporto de
Brasília, além do registro de transferência de aviões).
As candidaturas majoritárias dos capitães da
CPI não são suficientes para explicar tamanha diligência. Esta foi a primeira
votação de requerimentos da CPI depois da troca do relator do caso Master no Supremo
Tribunal Federal. Enquanto o ministro Dias Toffoli esteve à frente do inquérito,
as provas da investigação ficaram custodiadas no seu gabinete.
Ao assumir o caso, o ministro André Mendonça as devolveu
para a Polícia Federal e proibiu que fossem compartilhadas hierarquia acima,
leia-se Andrei Rodrigues,
diretor-geral da PF. A ordem abriu as comportas da
operação ditada, até então, pelo rabo preso. E o governo, que nunca teve
controle sobre a investigação, acabou perdendo também acesso às informações
sobre seu andamento.
Tudo isso acontece num momento em que as
pesquisas de opinião e intenção de voto mostram que a preocupação do eleitor
com a corrupção acabou caindo no colo de um governo que, até aqui, vinha
investindo no discurso de caça aos “magnatas da corrupção” e mantendo a postura
“toma que o escândalo é teu”.
Daí deriva um quadro eleitoral mais difícil
para o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva do que imaginavam os artífices das populares entregas de seu governo e do
que sugerem as dificuldades políticas da oposição. A pré-candidatura do
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ)
se engalfinha em intermináveis dramas familiares e os bolsonaristas da terceira
via de Gilberto Kassab são
enredados na sua queda de braço com o governador Tarcísio de Freitas pelo
quinhão paulista, mas nada disso afeta o voo oposicionista.
Lula, em parte, paga o preço de ter tomado o
Supremo Tribunal Federal como sua verdadeira base política. As consequências da
desmesura dos poderes da Corte atravessam a Praça dos Três Poderes e estilhaçam
o gabinete presidencial. O clima no Supremo é de
cobrança a Lula, mas foi também a inação dos ministros contra a falta de
limites de Toffoli que colocou na relatoria do caso mais disruptivo deste
mandato o togado menos alcançável pelo Palácio do Planalto. O
ministro do Executivo de quem André Mendonça é mais próximo, Jorge Messias (AGU),
depende mais dele - para chegar ao Supremo - do que o inverso.
O presidente tem a seu favor a composição de
palanques em regiões em que o lulismo é forte para negociar com
personagens-chave do Congresso, como o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB),
e seu antecessor, o deputado Arthur
Lira (PP-AL), mas também precisa do apoio deles para
aprovar a bandeira da reeleição, a escala
6x1. É beneficiário, ainda, de operações da Polícia Federal,
como esta autorizada pelo ministro Flávio
Dino, que alvejou o ex-senador Fernando Bezerra Coelho e seus
filhos por suposto desvio de emendas
parlamentares. O PSB ameaçava abandonar o PT da Bahia e se
bandear para o palanque do União Brasil, no Estado, em troca do apoio do
partido em Pernambuco.
A expectativa, no
Congresso, é que operações do gênero se sucedam ao longo do ano eleitoral. Nem o Master nem o receio de que
a campanha seja marcada pelas vísceras do orçamento secreto inibem a turma.
Tome-se, por exemplo, a retirada da taxação extra sobre as “bets” para
financiar a segurança pública na aprovação do PL antifacção. O Centrão
liderou o descumprimento do acordo para manter a maior parte dos avanços
obtidos no Senado e derrubou a taxação que vai tirar R$ 30 bilhões da segurança
pública certo de que é sobre o governo que sempre recaem as cobranças no tema.
Agiu para atender à mesma fração do setor de apostas do país que se beneficiou da trama de lavagem de dinheiro identificada pela Operação Carbono Oculto e operada pelos fundos do Master. A segurança com a qual quebrou o acordo e derrubou a taxação se guia pela aposta de que, aconteça o que acontecer no eixo Supremo-Senado Federal no caso Master, o crime há de compensar.

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