Correio Braziliense
No culto à personalidade de
Lula, a Acadêmicos de Niterói associa o presidente da Repúbçica candidato à
releição à resiliência e identidade do povo brasileiro, mas preocupa o Palácio
do Planalto
A grande expectativa deste domingo é o
desfile da Acadêmicos de Niterói, que abre a apresentação das grandes escolas
de samba na Avenida Sapucaí. Na contramão da espontaneidade do carnaval de rua,
a agremiação aposta no apelo popular do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E
corre o duplo risco de um desfile chapa branca e da campanha eleitoral
antecipada com recursos públicos.
Um dos segredos dos grandes carnavalescos, como Rosa Magalhães, Fernando Pamplona e Joãozinho Trinta, era o mistério sobre seus desfiles. No caso da Acadêmicos de Niterói, quase tudo é previsível: através da metáfora da árvore símbolo da resistência na cultura afro-brasileira, a escola pretende contar a vida do operário metalúrgico que se tornou presidente da República. O enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil” pode não dar mais nenhum voto à reeleição do presidente da República, mas já deu muita projeção à escola.
No culto à personalidade de Lula, a
Acadêmicos de Niterói associa o presidente da República candodato à reeleição à
resiliência e identidade do povo brasileiro. Para isso, o carnavalesco Tiago
Martins mobiliza não apenas a comunidade da zona central de Niterói, da Ilha da
Conceição ao morro do Estado, mas também artistas e personalidades ligadas ao
PT, entre as quais anistiados e filhos de desaparecidos. Não há mistério, há é
suspense sobre a qualidade do desfile: alô, alô bateria!
“Olê, olê, olê, olá/Vai passar nessa avenida
mais um samba popular/ Olê, olê, olê, olá/ Lula, Lula” é o refrão do samba
composto por Arlindinho Cruz, Teresa Cristina, André Diniz, Paulo Cesar Feital,
Fred Camacho, Júnior Fionda e Lequinho. Consagrado nas campanhas do petista,
virou a grande preocupação do ministro de Comunicação Social, Sidônio Palmeira,
o marqueteiro de Lula, e do Palácio do Planalto.
Criada em 2018, pelo vereador Anderson Pipico
(PT), seu presidente de honra, com apoio da deputada estadual Verônica Lima
(PT), a escola foi catapultada para o primeiro time da Sapucaí pelo prefeito de
Niterói, Rodrigo Neves (PDT). Seu maior problema é a concorrência pesada. Logo
depois desfilar, quem entra na pista é a Imperatriz Leopoldinense, com o enredo
“Camaleônico”, que homenageia Nei Matogrosso, com seu visual andrógeno e
performance libertária, a estética revolucionária dos Secos & Molhados e
sua coragem em romper barreiras de gênero.
A seguir vem a Portela, que mergulha na
religiosidade popular do Brasil Meridional, com o enredo “O mistério do
príncipe do Bará – a oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu
aberto do Rio Grande”. Encerrando os desfiles de hoje, a Estação Primeira de Mangueira
transportará os cariocas para o Extremo Norte do país, resgatando a memória
mameluca da Amazônia Setentrional, com o enredo “Mestre Sacaca do Encanto
Tucuju”, um líder popular do Amapá. Mais próximo do Chuí (RS) e do Oiapoque
(AP) é impossível.
A alma imoral
Politização do desfile sempre houve, desde
sua criação por Getúlio Vargas, em pleno Estado Novo. Aliás, ninguém foi mais
homenageado no carnaval do que ele. A marchinha “Retrato do Velho”, de Haroldo
Lobo e Marino Pinto, após sua volta ao poder, empolgou os foliões de rua em
1951: “Bota o retrato do velho outra vez/ Bota no mesmo lugar/O sorriso do
velhinho/Faz a gente trabalhar.” Em 1956, dois anos depois de seu suicídio, a
Mangueira trouxe o enredo “Exaltação a Getúlio Vargas: emancipação nacional do
Brasil”. Em 2000, nos 500 anos do Descobrimento, a Portela veio de Getúlio
novamente.
A crítica social, a defesa das liberdades e o
resgate de heróis anônimos pautam os desfiles, como fez a Império Serrano, com
Heróis da Liberdade, em 1969, durante a ditadura, e a Vila Izabel, com Kizomba,
festa da raça, em 1988. A Beija Flor é um caso à parte. Comemorou os dez anos
de ditadura com o “Grande decênio”, em 1974; mostrou os invisíveis com “Ratos e
urubus, larguem minha fantasia” (1989); em 2003, encheu a bola de Lula com “O
povo conta sua história, saco vazio não para em pé (a mão que faz a guerra faz
a paz).
Entretanto, o problema são as eleições deste
ano. Carnaval não combina com propaganda eleitoral. Há mais quatro décadas, em
“Carnavais, malandros e heróis” (Rocco), o antropólogo Roberto DaMatta
demonstrou que é um rito de passagem, que vira pelo avesso as tradições de
nossa sociedade: o povo organiza a festa, os pobres se vestem de nobres, as
mulheres aparecem irreverentes e desnudas, troca-se o dia pela noite, a relação
com o sobrenatural e o imaginário se materializa nas ruas por meio das pessoas
comuns.
No livro “A alma imoral” (Rocco), que serviu
de roteiro para o monólogo de Clarice Niskier, o rabino Nilton Bonder destaca
que a cultura bíblica afirmou ser o corpo a fonte do imoral e a alma, do moral.
No entanto, é justamente o contrário. A alma é imoral e não o corpo. O carnaval
talvez seja um momento em que o corpo e a alma se encontram na transgressão das
tradições, ultrapassando-as, geração após geração. É um rito civilizatório, uma
progressão disruptiva em busca da felicidade.
Sua energia vem dessa alma imoral. E das contradições entre a revolução nos costumes, que a liberdade proporciona, e os preconceitos arraigados e discriminações cotidianas. Por isso, a festa sempre acontece, apesar das tragédias sociais, da violência e da indigência nas ruas. E das afrontas aos cidadãos. Nada mais formal e elitista do que uma toga. Com o incêndio no parquinho do Supremo Tribunal Federal (STF), não será surpresa o surgimento de foliões togados, ao lado de pierrôs e colombinas, porta-bandeiras e mestres-salas, monstros e palhaços, marinheiros e melindrosas, batmans, super-homens e mulheres-maravilha.

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