Folha de S. Paulo
Smartphones facilitaram bastante a atividade
de investigação policial
As próprias vítimas produzem e juntam as
provas que poderão condená-las
Se os avanços tecnológicos ameaçam vários empregos, eles foram uma bênção para a atividade policial. Um investigador do início do século 20 gastava sola de sapato para entrevistar as sempre pouco confiáveis testemunhas e dispunha de poucas ferramentas científicas para ajudá-lo. Não havia muito mais que datiloscopia, rudimentos da balística e da toxicologia. A partir da segunda metade do século 20, vieram pequenas revoluções na forma de análise de DNA e outras técnicas forenses sofisticadas, além da proliferação de câmeras de vigilância, que fizeram com que as evidências físicas também contassem a sua história.
Não há nada, porém, que supere o advento
dos smartphones.
Eles são uma combinação de repositório de evidências com armadilha psicológica,
nos quais os próprios criminosos vão produzindo e juntando as provas que irão
condená-los e a seus comparsas. Certos delitos se tornaram muito fáceis de
investigar.
Um caso emblemático é o da invasão à praça
dos Três Poderes no 8 de
Janeiro. Os delinquentes filmaram a si mesmos cometendo as delinquências.
Aí foi só condenar e correr para o abraço.
Temos agora o celular do Daniel
Vorcaro, que já derrubou Dias Toffoli da
relatoria do caso Master e
promete fazer ainda mais estragos. Aqui é preciso distinguir duas ordens
distintas. Temos a ordem jurídica, que em tese lida com fatos objetivos, e
exige que a culpa de suspeitos seja demonstrada para que eles sofram
condenação. É um processo trabalhoso e relativamente lento. Por ora, nem o
próprio Vorcaro pode ser ainda considerado culpado.
Temos também a ordem política, que vive de
aparências, e nas quais os juízos são instantâneos. Nela, ao menos dois
ministros do STF já
foram tragados pelo caso Master, causando enorme prejuízo reputacional à corte.
O celular de Vorcaro dirá se alguma das já
irrevogáveis condenações políticas se tornará também ação penal. O escândalo do
Master é tão ecumênico e envolve tanta gente poderosa que favorece um acordão.
Mas nem sempre as operações-abafa saem como o planejado.
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