A novidade, porém, não está apenas no
patamar: está na velocidade. Flávio salta de 29,3% em dezembro para 37,9% em
fevereiro no mesmo cenário de primeiro turno — alta de 8,6 pontos em janela
curta, grande demais para caber no mero ruído. E, quando se observa a rejeição
(“não votaria de jeito nenhum”), o dado consolida a viabilidade: Lula registra
48,2% e Flávio 46,4%. São taxas elevadas para ambos, mas há um ponto crucial:
Flávio não carrega um teto de rejeição superior ao do presidente, um marcador
clássico de competitividade em segundo turno.
O paradoxo se torna ainda mais nítido quando
se olha a avaliação do governo por renda. Entre os que vivem com até R$ 2.000,
a percepção é majoritariamente negativa: 51,7% avaliam a gestão como ruim ou
péssima, contra 31,5% que a consideram ótima ou boa. Já entre os que ganham
acima de R$ 10.000, a fotografia se inverte: 54,3% classificam como ótimo/bom, enquanto
38,2% dizem ruim/péssimo. Em termos eleitorais, a implicação é severa: Lula,
que sempre construiu vitórias com ampla vantagem na base de renda mais baixa,
hoje enfrenta ali um terreno áspero — e encontra seu melhor desempenho
justamente no segmento mais abastado.
Esse deslocamento ajuda a entender por que o
governo passou a concentrar energia em medidas de recomposição de vínculo
popular e juvenil. O Pé-de-Meia, a promessa de isenção de IR para quem ganha
até R$ 5 mil e a retórica anti-ricos — acompanhada de iniciativas de aumento de
carga tributária — soam menos como agenda espontânea e mais como reação a uma
perda de aderência no cotidiano, sobretudo onde preço, segurança e serviços
pesam mais do que discurso. E, no recorte etário, o sinal é igualmente
incômodo: entre 16 e 24 anos, no mesmo cenário de primeiro turno, Flávio
aparece à frente (29,4% contra 24,2%).
Nesse ponto entram os temas que costumam
decidir eleições quando o humor social endurece. No bloco comparativo de
confiança para “administrar” problemas do país, Flávio aparece à frente
exatamente em agendas que hoje dominam a conversação pública: criminalidade e
tráfico (49% a 47%), equilíbrio fiscal e controle de gastos (47% a 45%) e
combate à corrupção (46% a 45%). Lula lidera em geração de empregos e promoção
da democracia (49% a 45% em ambos), mas, na prática eleitoral, segurança,
corrupção e disciplina fiscal funcionam como gatilhos: comprimem o tempo do
eleitor e amplificam a percepção de competência.
A ascensão de Flávio chama atenção por outro
motivo: ela ocorreu sem a movimentação típica de pré-campanha capaz de
“fabricar” curva. Não houve, até aqui, o roteiro usual de grandes viagens,
anúncios e alianças exibidas em vitrine. A alta tem cara de migração espontânea
— um eleitorado que procura alternativa e encontra, por ora, um nome que ocupa
espaço sem se expor demais. Mário Covas resumiu isso com precisão: às vezes, na
política, é melhor jogar parado. O contraste com Lula é desconfortável. Seus
movimentos recentes renderam mais custo do que dividendos: discurso áspero na
Bahia e uma passagem infeliz pelo desfile das escolas de samba no Rio — com o
símbolo ingrato do rebaixamento da escola — reforçaram a impressão de
descompasso. Em disputa nivelada, pequenos erros custam caro; a ausência deles,
por si só, vira vantagem.
Há ainda um ativo silencioso no campo
adversário: a decisão de Tarcísio de Freitas de não entrar na disputa nacional,
diante da perspectiva de uma reeleição acachapante em São Paulo, organiza o
tabuleiro para Flávio. Reduz dispersão, evita fraturas e oferece um polo
estadual poderoso sem competição doméstica pelo mesmo espaço. Para uma
candidatura que precisa parecer viável e governável, isso vale muito.
Se Flávio resistir à tentação de aparecer
demais e seguir “jogando parado”, a tendência é de ganhos adicionais. Os
desdobramentos do escândalo do INSS e a crise do Banco Master — que, em maior
ou menor grau, vêm tensionando a imagem do Supremo — tendem a comprimir a
margem de manobra de Lula: cada gesto vira risco, cada exposição vira convite a
novas narrativas adversas. E a crise reputacional do STF tem um efeito
colateral previsível: amplia, em parcelas do público, a percepção de que o
julgamento de Jair Bolsonaro não foi justo — reabrindo o argumento de
perseguição e convertendo indignação em voto potencial para Flávio.
O risco maior para Lula, portanto, pode não
estar apenas na pesquisa, mas na política real. Presidentes não perdem só
votos; perdem gravidade. Quando a expectativa de vitória se dissolve, o centrão
— movido por cálculo e sobrevivência — tende a se afastar, encurtando
governabilidade e acelerando o ciclo de fraqueza. Se a fotografia de fevereiro
for o começo de uma tendência, o rebaixamento não será apenas da Escola
Acadêmicos de Niterói: será de toda a esquerda brasileira, que poderá suportar
o naufrágio sem preparar o futuro — e, pior, sem a Presidência e com bancadas
menores no Congresso Nacional.
André Régis, Cientista Político, UFPE.

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