O Estado de S. Paulo
Só o Estado pode estabelecer limites quando interesses privados ameaçam a democracia
O avanço coordenado entre governos europeus indica que a lógica de autorregulação das big techs está se enfraquecendo. Na semana passada, a Espanha deu mais um passo nessa direção ao anunciar planos para proibir o acesso de menores de 16 anos às redes sociais – o que reforça a tendência regulatória no continente. O premiê Pedro Sánchez disse que a iniciativa é para proteger crianças e adolescentes de um “ambiente digital sem lei”, marcado por abuso, vício, pornografia, discurso de ódio e manipulação algorítmica.
Em dezembro, a Austrália se tornou o primeiro
país do mundo a banir redes sociais para menores de 16 anos, obrigando empresas
como TikTok, Instagram e Snapchat a remover milhões de contas e a implementar
mecanismos mais rígidos de controle. França, Reino Unido, Dinamarca, Grécia e
Irlanda avaliam medidas parecidas.
Trata-se de uma reafirmação do Estado diante
de empresas privadas que, ao longo de anos, acumularam escala, recursos e
influência política em grau incompatível com qualquer noção tradicional de
soberania democrática. À medida que as plataformas se tornaram infraestruturas
centrais de comunicação, informação e mobilização, a retomada do poder público
na definição de regras é um desfecho inevitável – sobretudo considerando que os
próprios donos dessas plataformas, como Elon Musk, passaram a intervir de forma
agressiva na política europeia.
A proposta espanhola ainda tem de ser
aprovada pelo Parlamento, mas integra um pacote mais amplo de medidas. Entre
elas, estão a exigência de sistemas de verificação de idade, a
responsabilização de executivos por conteúdos ilegais e a criminalização de
práticas deliberadas de amplificação algorítmica de material ilícito.
A reação das big techs e de seus líderes tem
sido previsível. Musk chamou Sánchez de “tirano” e “fascista”, enquanto Pavel
Durov, fundador do Telegram, enviou mensagens em massa a usuários espanhóis
acusando o governo de promover censura e vigilância.
Por trás da resistência das big techs está um
modelo de negócio: quanto mais tempo o usuário permanecer conectado, maior a
coleta de dados e mais lucrativa a venda de publicidade. Moderação robusta e
checagem sistemática de fatos são caras, complexas e reduzem o alcance de
conteúdos virais. Evitá-las sempre foi, do ponto de vista comercial, a opção
mais racional, mesmo que enfraquecesse a democracia.
É nesse contexto que se entende a aproximação
de grandes plataformas com Donald Trump, ressalta o jurista David Allen Green
no Financial Times.
Diante da expectativa de regulações mais
duras na União Europeia – e em países como o Brasil –, empresas como Meta e X
concluíram que não podem enfrentar sozinhas governos e sistemas jurídicos fora
dos EUA.
Essa lógica se mostrou no caso brasileiro,
quando, após resistir a ordens do STF, o X acabou cumprindo as determinações.
Buscar o apoio da Casa Branca tornou-se parte central da estratégia. Green
observa que essa guinada não revela força, mas fragilidade: se essas empresas
fossem realmente capazes de conter a regulação por conta própria, não
precisariam de apoio americano.
A história mostra que, em confrontos
decisivos, o Estado tende a prevalecer sobre corporações. A Companhia das
Índias Orientais – empresa mais poderosa do mundo até então – foi dissolvida
pelo Parlamento britânico em 1874. O Bell System, que dominava as
telecomunicações nos EUA, foi desmembrado por leis antitruste nos anos 1980.
Empresas podem acumular poder extraordinário, mas, como l embra Green, sua
existência jurídica e seus direitos dependem, em última instância, da
legislação.
Críticas alertam para o risco de empurrar
jovens para espaços digitais ainda menos regulados ou de abrir margem para
excessos estatais. A Europa aposta que, assim como ocorreu com energia,
finanças e telecomunicações, o mundo digital entrou na fase em que o interesse
público volta a impor limites ao poder privado – e o Estado, pressionado pela
magnitude dessas empresas, reassume o papel de árbitro.
Apesar dos riscos, a guinada é positiva. Não
porque o Estado seja infalível, mas porque só ele dispõe de mandato
democrático, instrumentos de coerção legítima e autoridade para estabelecer
limites quando interesses privados passam a ameaçar o funcionamento da própria
democracia. •

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.