O Estado de S. Paulo
Se qualquer país quiser defender os seus territórios e interesses, deve preparar-se militarmente e diplomaticamente, sob risco de perder relevância
O mundo definitiv a ment e mudou, não cabendo mais nos parâmetros mediante os quais o concebíamos. O mundo, tal como emergiu depois da 2.ª Guerra Mundial, com a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e várias agências internacionais, cessa progressivamente de existir. Agências como a ONU perderam a sua neutralidade, adotando posturas ideológicas e partidárias, contribuindo para a sua própria crise. Conselhos internacionais de direitos humanos são controlados por ditadores e violadores sistemáticos dos direitos humanos. Os valores de pretensão universal, os ocidentais, se enfraqueceram, sendo instrumentalizados por grupos esquerdistas e islamistas radicais. A bússola internacional perdeu-se.
Concomitantemente com esse processo de
degradação moral, ressurgiu a doutrina da “lei do mais forte” a reger as
relações internacionais. A invasão da Ucrânia pela Rússia, movida pela mais
elementar vontade de poder, e a doutrina Trump, advogando pelos mais i mediatos
interesses americanos, relegando valores como democracia e liberdade que
norteavam a diplomacia americana, completam esse quadro de reconfiguração
mundial. Nele, questões de geopolítica, baseadas no uso da força, graças às
Forças Armadas altamente qualificadas, à ciência e à tecnologia, e à
diplomacia, ganham especial proeminência.
Sob esta ótica, não deveria surpreender o
projeto de Trump de apropriar-se da Groenlândia. Sua pretensão faz sentido
geopoliticamente, embora contradiga o Direito Internacional tal como o
conhecemos, e afaste aliados tradicionais, mostrando que nem países amigos
estão ao abrigo de nova (des)ordem internacional. Afinal, a Groenlândia
pertence à Dinamarca, um país da Organização do Tratado do Atlântico Norte
(Otan), que é aliado tradicional dos americanos. Há mesmo um tratado
internacional de defesa entre esses dois países, que poderia ser eventualmente
aprimorado e renegociado.
Acontece que a Groenlândia é a maior ilha do
planeta, sendo praticamente despovoada. Sua população total é de 55 mil
pessoas, menor do que a média dos municípios brasileiros. Seu PIB é de US$ 3,2
bilhões, valor insignificante, por exemplo, em relação aos gastos exorbitantes
e privilégios da elite do Estado brasileiro. A população da Dinamarca é
estimada em 6 milhões de pessoas e seu PIB é de pouco mais de US$ 400 bilhões.
Em contraste, o orçamento militar americano foi de US$ 1 trilhão em 2025 e está
estimado em US$ 1,5 trilhão em 2026.
Nesse contexto, está em curso o derretimento
do Ártico, abrindo novas rotas navegáveis no Polo Norte e tornando mais viável
a exploração da Groenlândia, rica em terras raras e outros minérios. Tornase
essa ilha motivo de cobiça de russos e chineses, sobretudo dos primeiros, que
possuem há muito essa pretensão geopolítica. E os europeus, até agora, nunca
deram maior atenção a essa realidade, preferindo desconhecê-la. Só os
britânicos, durante a 2.ª Guerra, estimaram o real valor estratégico da
navegação nessa região. De lá para cá, porém, o Reino Unido deixou de ser um
império e uma força militar. E as potências atuais lá medem forças.
Trata-se, aqui, da realidade tal como ela é,
gostemos dela ou não. Podemos criticar – com razão – tais pretensões, mas nada
altera o quadro geral, baseado doravante na “lei do mais forte”. Discursos baseados
na defesa abstrata da soberania nacional, utilizados a partir do século
passado, válidos naquele cenário, cessaram de sê-los, visto que a realidade
geopolítica mudou. Se qualquer país quiser defender os seus territórios e
interesses, deve preparar-se militarmente e diplomaticamente, sob risco de
perder relevância.
Coloca-se, nesta perspectiva, a questão da
Amazônia, que é e pode tornar-se ainda mais objeto de cobiça de outros países.
As razões podem ser várias, desde problemas de desmatamento que prejudicariam o
clima mundial, sendo considerada o pulmão planetário da humanidade, até
petróleo, gás, terras raras e minérios, passando pelo fato de ser uma região em
muito despovoada e cada vez mais refém do narcotráfico, tomando conta de suas
vias pluviais. Não faltam motivos para que outros países ou grupo de países
elevem pretensões ditas climáticas, humanitárias, econômicas ou diretamente
militares sobre essa região.
O Brasil deveria, sim, preocupar-se cada vez
mais com o reordenamento geopolítico, sendo a Groenlândia uma sinalização do
que pode acontecer. O País deveria ter um projeto claro para a Amazônia, sob
pena de perdê-la no futuro. O narcotráfico deveria ser combatido militar e
policialmente, com todos os meios tecnológicos e de defesa mais avançados.
Ademais, pouco valem discursos grandiloquentes em defesa do clima, se questões
fundiárias não forem abordadas e enfrentadas seriamente, tais como a
regularização fundiária e a modernização e avaliação de cartórios e registros
de imóveis.
E todas essas questões são hoje
geopoliticamente da maior relevância. A propósito: o que têm a dizer a respeito
os diferentes candidatos à Presidência da República? •

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