O Globo
Nossos tribunais jamais permitiriam
propaganda antecipada. O enredo sobre Lula é só um tributo desinteressado
Nos últimos carnavais, sem haver novas
marchinhas (em extinção, como as cigarras, os tatuís e os liberais), divertido
mesmo era acompanhar a problematização de como se fantasiar e do que cantar
durante a folia. Seguindo o manual progressista e libertário, dress code e
repertório tinham mais restrições que o Jardim Botânico de Curitiba.
Neste ano, o foco mudou. Quando, amanhã, a Escola Cívico-Militar de Samba Patriotas da Barra da Tijuca abrir alas na Sapucaí, um paradigma terá ido pelos ares. Nunca antes na História deste país (e olha que a História deste país teve coisa do arco da velha) uma campanha eleitoral terá sido tão antecipada — e de forma tão espetacular.
Poupando a grana do fundo partidário (afinal,
há verba da Embratur, da Riotur e do governo estadual), a agremiação da Zona
Sudoeste estreia no Grupo Especial com um enredo em louvor ao atual presidente
— e candidato à reeleição — Jair Bolsonaro: “Dos arranha-céus de Camboriú,
surge a segurança: Jair, o Messias do Brasil”.
A bateria (antiaérea, só com caixa de guerra,
sem instrumentos de matriz africana) sustentará a cadência do samba, que exalta
a trajetória do mito “Da direita de Deus Pai, com a Abin e a Polícia Rodoviária
Federal/À liderança mundial”.
PT, PSOL e outros partidos da oposição
acionaram o MP Eleitoral, alegando que o desfile “extrapola os limites de uma
homenagem cultural e passa a funcionar como peça de pré-campanha”. Não colou.
OAB, ABI e Prerrô denunciaram que o refrão “A nossa porta-bandeira jamais será
vermelha” evoca slogan governista e que os versos “Três oitão, três oitão/64
não foi golpe/foi Revolução” fazem menção inequívoca ao número do partido do
presidente e ao carro-chefe-alegórico do seu governo, o programa “Minha Arma,
Sua Vida”. Em vão.
A ex-primeira-dama Rosângela Silva se mostrou
indignada com a pretensão de Michelle Bolsonaro de desfilar no último carro:
— No último? Isso é um endosso ao sistema
patriarcal, com a mulher se sujeitando a um lugar subalternizado.
Na dispersão, uma motociata...
(Desculpe, leitor: a coluna enveredou por um
universo paralelo, onde aquele 1,8% decisivo de 2022 concluiu ser outro o mal
menor. Os parágrafos acima foram uma distopia, um delírio. Até porque, com
desfecho diverso naquela eleição — ou com êxito no 8 de Janeiro –, dificilmente
2026 seria um ano eleitoral. Voltemos à realidade.)
As instituições funcionam. Nossos tribunais
jamais permitiriam propaganda antecipada. O enredo da Acadêmicos de Niterói
(“Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”) é só um
tributo desinteressado — que por acaso manterá o homenageado por 90 minutos, ao
vivo, na televisão, e repercutirá um bom tempo na imprensa e nas redes sociais.
Não haverá pedido de voto. No trecho “Pro
destino retirante te levei, Luiz Inácio/Por ironia, 13 noites, 13 dias”, esse
13 não deve ter nada a ver com o número que aparecerá em outubro na urna
eletrônica —13 é, na cultura popular, o número da sorte. Só isso.
Ao cantar que “Em Niterói, o amor venceu o
medo”, o samba não alude a nenhum slogan do governo. Só lembra que, com Lula lá
na avenida, o amor venceu também a legislação, que proíbe até o uso de outdoors
para exaltar qualidades pessoais de possíveis candidatos. Mas a Sapucaí não
chega aos pés de um outdoor, não é? Então não me leve a mal: deixemos fazer a
propaganda — precipitada e ilegal — que hoje é carnaval. Evoé, TSE!

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