Folha de S. Paulo
Enredo chapa-branca é um produto que se
destina mais às redes que ao Sambódromo
Acadêmicos de Niterói periga cair, causando
efeito desagradável na campanha da reeleição
Enredos qualquer nota e escancaradamente
patrocinados não são novidade no Carnaval.
A Marquês de Sapucaí já viu homenagens para Silvio Santos, Chico Recarey e Beto
Carrero. Em 2012, a Porto da Pedra falou de leite e iogurte; no ano seguinte, a
Mocidade se misturou ao Rock in Rio. O que os une, além da bajulação, é o
resultado. Não raro, a escola fracassa.
A escola Acadêmicos de Niterói, ex-Sossego, ao contar a história do "operário do Brasil" em sua estreia no grupo Especial, comprou um barulho. Periga cair e o enredo chapa-branca provocar efeito desagradável na campanha de Lula, com piadas e provocações.
Getúlio Vargas (duas vezes) e Juscelino
ganharam seus confetes. A ditadura militar foi endeusada pela Beija-Flor em
1975 —os compositores tiveram que arrumar rimas para o Funrural e o PIS-Pasep.
Em 1990, a Cabuçu mimou Collor, recém-eleito. Em 2006, a Vila Isabel recebeu
uma mala cheia de petrodólares para elogiar a Venezuela de Hugo Chávez. Lula é
o primeiro a merecer a cortesia no ano em que tenta a reeleição. "Vale uma
nação/ Vale um grande enredo/ No Brasil, o amor venceu o medo", diz o
samba.
O enredo da Niterói é um produto que se
destina mais às redes que ao Sambódromo, opondo os petistas à turma cuja tara é
a Lei Rouanet. Uma operação para xingar, não para sambar. Tiro no pé político, deu
munição a opositores e abriu brecha para liminares no TSE. Além disso, está na
contramão do que as escolas de samba têm apresentado de melhor nos últimos
tempos.
Um livro recém-lançado, em edição revista e
ampliada ("Pra Tudo Começar na Quinta-feira", de Luiz Antônio Simas
e Fábio Fabato), mostra que, a partir de 2016, ocorreu uma espécie de
"primavera temática" com a chegada de novos carnavalescos e
pesquisadores, que conferiram um caráter contestador aos enredos. Era uma
segunda revolução, semelhante à comandada por Fernando Pamplona na década de
1960, com "Quilombo dos Palmares" e "Xica da Silva".
Um enredo puxa-saco é o avesso da arte e da
transformação, fundamentos do Carnaval.
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