terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O pesadelo do ChatGPT. Por Pedro Doria

O Globo

Se, repentinamente, há desconfiança a respeito do negócio da inteligência artificial e ocorre uma corrida de venda de papéis, o estrago é grande

É possível que 2026 seja o ano em que a OpenAI perca a liderança na corrida da inteligência artificial. Caso essa crise faça a empresa tropeçar, uma consequência importante será o temido estouro da bolha das empresas de tecnologia. Hoje, segundo o JPMorgan, as ações relacionadas à IA representam 44% do valor de mercado no índice S&P 500, algo próximo de metade do dinheiro investido na Bolsa americana. Se, repentinamente, há desconfiança a respeito do negócio da inteligência artificial e ocorre uma corrida de venda de papéis, o estrago é grande. Então por que a desconfiança com a OpenAI? As razões são algumas.

Na semana passada, o CEO da OpenAI, Sam Altman, foi ao X se queixar de uma propaganda da concorrente, Anthropic. Começou dizendo que os anúncios eram engraçados — e que ele riu. Daí seguiram-se 11 parágrafos. Numa rede que se especializou em textos curtos.

A propaganda da Anthropic, dona do modelo Claude, é bem-humorada. Trata-se de uma série de reclames em que dois atores interagem. Um personagem tem uma dúvida existencial qualquer. O outro faz uma IA. A resposta parece inicialmente sábia, aí descamba para, ora, propaganda. A terapeuta atenciosa está dando conselhos sobre como um rapaz se deve comunicar melhor com sua mãe, aí tenta empurrar um produto relacionado. É obviamente uma situação desconfortável. Altman não gostou. O Claude está dizendo: aqui, com nossa IA, não haverá propaganda. O ChatGPT passará a ter propaganda na versão gratuita. O marketing da Anthropic sabe com o que está mexendo. O receio de muita gente, por razões evidentes, é que IAs comecem a escolher as respostas que darão dependendo do encaixe com anunciantes.

Não muita gente usa o Claude. Ele está em terceiro, atrás de Gemini (Google) e GPT. Hoje, não é uma desvantagem. Em 2024, segundo estimativas com que os investidores trabalham, a OpenAI faturou algo próximo de US$ 4 bilhões. No ano passado, esse número se aproximou dos US$ 20 bilhões. É um salto formidável. Também no ano passado, entre custo de uso e investimentos com infraestrutura, a empresa queimou perto de US$ 50 bilhões.

O ChatGPT é simplesmente popular demais. A versão gratuita é, de longe, a mais popular. As pessoas conversam com o chat e não pagam. Além disso, o sucesso desse modelo de IA, em que o usuário interage por meio de uma conversa, se tornou o que boa parte do público espera da inteligência artificial. Para papos profundos, inclusive aqueles que levam a insights reais, importantes, em nada óbvios, o ChatGPT é imbatível. Isso não vem por acidente. A OpenAI investiu nisso.

O Claude da Anthropic se especializou noutra coisa: escrever código de programação e fazer matemática complexa. Isso quer dizer que atrai outro tipo de público, aquele que precisa desenvolver sistemas e fazer contas. Pesadamente, clientes corporativos. Empresas pagam caro para usar o Claude.

Na semana passada, a OpenAI lançou uma nova versão do Codex, seu produto voltado para programação. Assim como no Claude, você descreve o que espera de um produto em linguagem natural. Escrevendo em bom português — ou na língua de escolha. Explica o que espera do programa. E a IA cria o software. O problema de Sam Altman é que, no mercado corporativo, as empresas que já aproveitam IAs para acelerar seu desenvolvimento interno se habituaram a usar Claude ou Gemini. Mas, como o nome que melhor representa IA para o público geral é ChatGPT, os usuários gratuitos seguem usando seu sistema. A fama gera custo e, neste momento, não traz dinheiro. Não é à toa que a empresa quer veicular publicidade para quem não paga.

A OpenAI está no mercado em busca de fechar uma rodada de investimento de US$ 100 bilhões. Se conseguir, e muita gente quer investir, ganha fôlego para seguir na corrida. Só que está sem caixa. Muitos investirão por medo. Temem que uma crise na companhia leve ao pânico, leve à impressão de que IA não tem futuro. Ou de que vale menos do que se investe nela. Uma fuga repentina prejudicaria todo mundo. A OpenAI pode quebrar, mas Microsoft, Google, Apple, Amazon, Tesla, Nvidia e uma penca de empresas que surfam alto sofreriam um baque violento. Junto, desmontarim também inúmeros fundos.

O momento é delicado. A tecnologia segue qualquer coisa de inacreditável.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.