O Globo
Se, repentinamente, há desconfiança a
respeito do negócio da inteligência artificial e ocorre uma corrida de venda de
papéis, o estrago é grande
É possível que 2026 seja o ano em que a OpenAI perca a liderança na corrida da inteligência artificial. Caso essa crise faça a empresa tropeçar, uma consequência importante será o temido estouro da bolha das empresas de tecnologia. Hoje, segundo o JPMorgan, as ações relacionadas à IA representam 44% do valor de mercado no índice S&P 500, algo próximo de metade do dinheiro investido na Bolsa americana. Se, repentinamente, há desconfiança a respeito do negócio da inteligência artificial e ocorre uma corrida de venda de papéis, o estrago é grande. Então por que a desconfiança com a OpenAI? As razões são algumas.
Na semana passada, o CEO da OpenAI, Sam
Altman, foi ao X se queixar de uma propaganda da concorrente, Anthropic.
Começou dizendo que os anúncios eram engraçados — e que ele riu. Daí
seguiram-se 11 parágrafos. Numa rede que se especializou em textos curtos.
A propaganda da Anthropic, dona do modelo
Claude, é bem-humorada. Trata-se de uma série de reclames em que dois atores
interagem. Um personagem tem uma dúvida existencial qualquer. O outro faz uma
IA. A resposta parece inicialmente sábia, aí descamba para, ora, propaganda. A
terapeuta atenciosa está dando conselhos sobre como um rapaz se deve comunicar
melhor com sua mãe, aí tenta empurrar um produto relacionado. É obviamente uma
situação desconfortável. Altman não gostou. O Claude está dizendo: aqui, com
nossa IA, não haverá propaganda. O ChatGPT passará a ter propaganda na versão
gratuita. O marketing da Anthropic sabe com o que está mexendo. O receio de
muita gente, por razões evidentes, é que IAs comecem a escolher as respostas
que darão dependendo do encaixe com anunciantes.
Não muita gente usa o Claude. Ele está em
terceiro, atrás de Gemini (Google) e GPT. Hoje, não é uma desvantagem. Em 2024,
segundo estimativas com que os investidores trabalham, a OpenAI faturou algo
próximo de US$ 4 bilhões. No ano passado, esse número se aproximou dos US$ 20
bilhões. É um salto formidável. Também no ano passado, entre custo de uso e
investimentos com infraestrutura, a empresa queimou perto de US$ 50 bilhões.
O ChatGPT é simplesmente popular demais. A
versão gratuita é, de longe, a mais popular. As pessoas conversam com o chat e
não pagam. Além disso, o sucesso desse modelo de IA, em que o usuário interage
por meio de uma conversa, se tornou o que boa parte do público espera da
inteligência artificial. Para papos profundos, inclusive aqueles que levam a
insights reais, importantes, em nada óbvios, o ChatGPT é imbatível. Isso não
vem por acidente. A OpenAI investiu nisso.
O Claude da Anthropic se especializou noutra
coisa: escrever código de programação e fazer matemática complexa. Isso quer
dizer que atrai outro tipo de público, aquele que precisa desenvolver sistemas
e fazer contas. Pesadamente, clientes corporativos. Empresas pagam caro para
usar o Claude.
Na semana passada, a OpenAI lançou uma nova
versão do Codex, seu produto voltado para programação. Assim como no Claude,
você descreve o que espera de um produto em linguagem natural. Escrevendo em
bom português — ou na língua de escolha. Explica o que espera do programa. E a
IA cria o software. O problema de Sam Altman é que, no mercado corporativo, as
empresas que já aproveitam IAs para acelerar seu desenvolvimento interno se
habituaram a usar Claude ou Gemini. Mas, como o nome que melhor representa IA
para o público geral é ChatGPT, os usuários gratuitos seguem usando seu sistema.
A fama gera custo e, neste momento, não traz dinheiro. Não é à toa que a
empresa quer veicular publicidade para quem não paga.
A OpenAI está no mercado em busca de fechar
uma rodada de investimento de US$ 100 bilhões. Se conseguir, e muita gente quer
investir, ganha fôlego para seguir na corrida. Só que está sem caixa. Muitos
investirão por medo. Temem que uma crise na companhia leve ao pânico, leve à
impressão de que IA não tem futuro. Ou de que vale menos do que se investe
nela. Uma fuga repentina prejudicaria todo mundo. A OpenAI pode quebrar, mas
Microsoft, Google, Apple, Amazon, Tesla, Nvidia e uma penca de empresas que
surfam alto sofreriam um baque violento. Junto, desmontarim também inúmeros
fundos.
O momento é delicado. A tecnologia segue
qualquer coisa de inacreditável.

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