quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brasil encontrou rumo no combate ao desmatamento

Por O Globo

É preciso celebrar índices melhores, mas país enfrenta outros desafios, como incêndios e criminalidade

É de bom augúrio a queda de 11% no desmatamento na Amazônia Legal em 2025 sobre o ano anterior, apurada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Se comparada a 2022, a perda de vegetação caiu pela metade. No ano passado, a área devastada foi estimada em 5.796 quilômetros quadrados, a menor em 11 anos e a terceira mais baixa da série histórica. Claro que a região ainda concentra problemas graves para além da questão ambiental, em particular o avanço do crime organizado, mas não deixa de ser um dado positivo.

No Cerrado, bioma mais refratário a quedas no desmatamento por incluir a fronteira agrícola, também houve recuo. No ano passado, foram devastados 7.235 quilômetros quadrados ante 8.174 no ano anterior. A redução, de 11,5%, ficou no mesmo patamar do nível amazônico. Quando comparada a 2022, ano em que foram registrados os recordes de desmatamento no bioma, a redução chega a 32%.

Dos 81 municípios que mais desmatam na Amazônia, 70 aderiram a um programa do governo federal que oferece apoio no combate aos crimes ambientais. De acordo com o secretário extraordinário de Controle do Desmatamento, André Lima, as prefeituras recebem computadores, caminhonetes, lanchas, motos, drones, consultores em geoprocessamento e internet por satélite para que possam acompanhar as ocorrências em tempo real. A queda do desmatamento nesses municípios chegou a 66%. Isso mostra que o trabalho integrado, com base em tecnologia e conhecimento científico, é um caminho promissor.

A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, celebrou a queda no desmatamento, lembrando que ela não tem impedido o crescimento do agronegócio. É verdade. Mas os números positivos refletem apenas parte da questão. No período mais recente analisado pelo Inpe, de agosto de 2025 a janeiro deste ano, houve aumento de 45% no desmatamento do Pantanal, contrastando com quedas na Amazônia e no Cerrado. É preciso investigar as causas e buscar medidas para combatê-las.

Os incêndios florestais são outro problema que o país tem dificuldade para enfrentar. Oscilam mais em função do regime de chuvas que propriamente de ações dos governos. De acordo com o programa Queimadas, do Inpe, de 1º de janeiro a 12 de fevereiro deste ano, os focos de calor na Amazônia aumentaram 75% em relação ao mesmo período do ano passado. É um sinal de alerta.

A criminalidade na Amazônia Legal também tem sido fonte de preocupação. É estarrecedora a constatação de que quase metade do território dos nove estados da região está tomada por facções criminosas. Elas atuam não só no narcotráfico, mas também em crimes ambientais, como extração irregular de madeira e garimpo ilegal. Dos 772 municípios, 344 registram a presença de ao menos um grupo criminoso, segundo estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Público em parceria com o Instituto Mãe Crioula. Os vários tipos de crime se entrelaçam, impondo enormes desafios às autoridades.

É legítimo celebrar a queda do desmatamento na Amazônia e no Cerrado — os índices precisam continuar caindo, e em todos os biomas. Os bons números não encobrem, contudo, outros problemas ambientais que fustigam essas regiões. São um passo importante, especialmente se o país sonha cumprir a meta de desmatamento zero até 2030. Mas a caminhada ainda é longa.

CNJ acertou ao punir juiz que libertou líder do PCC condenado a 126 anos

Por O Globo

Infelizmente, lei permite que ele continue a receber vencimentos. Congresso deveria acabar com regalia

Foi acertada a decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de determinar, de forma unânime, a aposentadoria compulsória do desembargador Divoncir Schreiner Maran, do Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul. Em 2020, ele autorizou a prisão domiciliar de Gérson Palermo, conhecido como Pigmeu, chefe do Primeiro Comando da Capital (PCC) condenado a 126 anos de prisão por tráfico internacional de drogas.

O benefício foi concedido durante um plantão judiciário em meio à pandemia, com base num “quadro de saúde supostamente debilitado”, mesmo sem laudo médico. O habeas corpus tinha mais de 200 páginas, mas foi analisado em 40 minutos. Embora Maran tenha determinado uso de tornozeleira eletrônica, o preso, considerado de alta periculosidade e dono de uma folha corrida que inclui o sequestro de um Boeing em 2000, rompeu o equipamento e fugiu. Não foi mais encontrado.

O relator do processo, conselheiro João Paulo Schoucair, considerou que o caso “extrapola os limites da independência judicial e revela grave desvirtuamento da função jurisdicional”. O CNJ decidiu aplicar ao magistrado a pena administrativa máxima prevista na Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman) — ele havia pedido aposentadoria voluntária em 2024. Apesar da punição, a legislação permite a manutenção de vencimentos proporcionais ao tempo de serviço. Segundo o jornal O Estado de S.Paulo, o CNJ encaminhou cópias do processo à Procuradoria-Geral do Estado de Mato Grosso do Sul para que a remuneração seja cassada.

Sanções desse tipo são questionáveis porque não funcionam como punição. No Congresso, já existem propostas para acabar com tal distorção, infelizmente prevista na lei. Os parlamentares deveriam se apressar em acabar com a regalia, de preferência no âmbito da reforma administrativa que tramita na Câmara.

O cumprimento da pena é a conclusão de um longo processo que envolve esforços da polícia, do Ministério Público e de diferentes instâncias da Justiça. A decisão de manter alguém encarcerado não é arbitrária, está baseada na letra da lei. Um detento condenado a 126 anos de prisão precisa ficar afastado do convívio social, pelos riscos que representa à sociedade. É óbvio que tudo isso precisa ser levado em conta antes da concessão de benefícios.

A grave crise de segurança que o Brasil atravessa não diz respeito apenas à polícia e ao Ministério Público, mas também à Justiça. Todos precisam dar a sua contribuição para que o país reverta os altos índices de violência que aterrorizam a população. Se é difícil prender chefes de quadrilha, por todas as deficiências já conhecidas, não faz sentido soltá-los num piscar de olhos, sob alegações controversas. Alguém acredita que retornarão? Embora não reverta o dano, a decisão do CNJ pode ter ao menos efeito pedagógico.

Bajulação petista na Sapucaí

Por Folha de S. Paulo

Invertendo a lógica do Carnaval, escola de samba exalta presidente da República que disputará reeleição

O TSE, corretamente, não impediu o desfile, mas cabe à corte avaliar se houve infrações no evento, do qual Lula deveria ter se afastado

Carnaval é uma festa popular marcada historicamente por inversão de papéis sociais e suspensão de hierarquias. Por meio da sátira e da caricatura, autoridades viram alvo de zombarias, seja em fantasias ou marchinhas. Até mesmo o samba-enredo, gênero mais narrativo e solene, frequentemente se apoia nessa chave crítica.

Mas a escola de samba Acadêmicos de Niterói resolveu subverter a lógica carnavalesca e exaltar não apenas um político vivo, mas que atualmente ocupa o cargo de presidente da República e pretende disputar o pleito neste ano.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o homenageado, deveria ter ser afastado do evento. Contudo assistiu ao desfile de camarote e, ao final, ainda desceu ao sambódromo da Sapucaí para cumprimentar integrantes da agremiação.

Por óbvio, a situação levantou uma discussão sobre ilícitos eleitorais, e cabe à Justiça avaliá-los. Antes mesmo do desfile no domingo (15), duas ações contra Lula, o PT e a escola foram levadas ao Tribunal Superior Eleitoral.

A corte, corretamente, não impediu o desfile porque configuraria censura prévia, mas a ministra Cármen Lúcia disse que há "risco muito concreto, plausível, de que venha acontecer algum ilícito" no caso, o que seria analisado posteriormente pelo TSE.

Duas possíveis infrações são consideradas: propaganda eleitoral antecipada e abuso de poder político. Especialistas ouvidos pela Folha divergem.

Para uma vertente, a referência ao famoso jingle do petista ("Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula"), ao seu mote nas eleições de 2022 ("o amor venceu o medo") e ao número do partido ("treze noites, treze dias") na letra do samba poderiam caracterizar propaganda eleitoral antecipada.

Tal infração se dá com pedido direto de voto —como "vote", "apoie"— ou indireto, por meio de "palavras mágicas", que são expressões similares à solicitação explícita. A outra vertente, contudo, não associa os elementos da canção ao pleito deste ano, o que afastaria a ilicitude.

Em relação ao abuso de poder, debate-se o subsídio federal fornecido pela Embratur a todas as escolas de samba do grupo de elite do Carnaval carioca. De um total de R$ 12 milhões, cada uma, incluindo a Acadêmicos de Niterói, recebeu R$ 1 milhão.

O desfile também ridicularizou opositores de Lula, representando Jair Bolsonaro (PL) como o palhaço Bozo, e setores da sociedade refratários ao petismo, caso do agronegócio e dos evangélicos.

O cabotinismo do presidente aprofundou ainda mais a controvérsia, que já era evidente antes do domingo. Faz bem à democracia que ocupantes do cargo máximo do Executivo evitem comportamento auto-laudatório.

A liberdade da manifestação artística, como um desfile carnavalesco, é princípio constitucional que deve ser preservado. Agora cabe ao TSE verificar se essa garantia foi usada para infingir normas do processo eleitoral.

Incertezas e desequilíbrios enfraquecem o Plano Clima

Por Folha de S. Paulo

Agropecuária e energia lograram metas modestas; governo parece confiar demais na redução do desmate

Transparece que pastas ligadas ao desenvolvimento saíram vitoriosas sobre as pautas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima

Quase dois meses transcorreram entre a aprovação do Plano Clima e a publicação de um sumário executivo, com poucos detalhes sobre setores específicos. O que o Planalto deu a público, porém, autoriza ceticismo sobre sua capacidade de contribuir significativamente contra o aquecimento global.

As metas para o Acordo de Paris preveem redução entre 59% e 67% das emissões nacionais de carbono até 2035, considerado o ano base de 2005. Está correta a orientação do governo federal de compatibilizar tal intenção com o crescimento da economia, mas persistem dúvidas sobre ter eleito vias eficazes para tanto.

Incertezas cercam objetivos fixados para duas áreas decisivas, agronegócio e energia. Em ambas, transparece que pastas desenvolvimentistas da Esplanada saíram vitoriosas sobre as pautas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

A agropecuária é a principal fonte de gases do efeito estufa no Brasil. A maior fatia da poluição climática gerada no campo provém do desmatamento, e o jeitinho adotado no plano foi diminuir seu peso nos objetivos do setor.

O documento concentra o grosso do recuo nas terras públicas, que em 2022 emitiam com desmate 448 milhões de toneladas de CO2 equivalente (MtCO2 e) e passariam a sequestrar carbono à taxa anual de 248 MtCO2 e em florestas regeneradas ou plantadas. Ou seja, o governo conta aí com emissões negativas.

Áreas rurais privadas também alcançariam emissões negativas com a mudança no uso da terra, mas bem menores (30 MtCO2e ). E a agropecuária nelas praticada poderá aumentar suas emissões de 643 MtCO2e em 2022 para 653 MtCO2e em 2035, uma bênção para produtores rurais refratários a conter o desflorestamento.

O setor de energia se viu agraciado com alta prevista das emissões, de 80 MtCO2e para 115 MtCO2e. Clara demonstração de que o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) resiste a cogitar desembarque dos combustíveis fósseis.

Até o crescimento das energias eólica e fotovoltaica desponta como problema (curtailment), não como vetor de descarbonização.

Em lugar de planejar redes de distribuição aptas a manejar a intermitência desses modais, um parque para armazenar eletricidade e até expansão da geração nuclear, persiste o modelo de garantir estabilidade no sistema com termelétricas a gás e carvão.

O Brasil pode fazer bem mais pelo clima do que confiar de modo irrazoável em redução do desmate e aumento da recuperação florestal em proporções nunca antes vistas na história deste país.

A autocontenção como virtude republicana

Por O Estado de S. Paulo

Em meio à atual crise de confiança, o Supremo Tribunal Federal precisa reencontrar os limites de seu papel constitucional e reafirmar a autocontenção como fundamento de sua legitimidade

Quanto maior o poder, maior deve ser a disposição para abrir mão dele. Assim ensina a boa cultura democrática, que funciona como dique contra arroubos autoritários e desvios constitucionais. A máxima pode soar paradoxal numa realidade política em que a autoridade costuma ser medida pela capacidade de decisão e mando. Nas democracias constitucionais, porém, a força de uma instituição se revela tanto na extensão de suas competências quanto na consciência clara de seus limites. Isso é ainda mais verdadeiro quando se trata de um tribunal.

É o caso do Supremo Tribunal Federal (STF), hoje no epicentro de uma crise de confiança sem precedentes na história brasileira. A dificuldade, mesmo diante de evidências abundantes, para afastar o ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master, decisão só consumada quando se tornou incontornável; o debate sobre a participação de ministros em eventos patrocinados por grandes empresas; os inquéritos sem prazo definido conduzidos pelo ministro Alexandre de Moraes; o excesso de protagonismo e exibicionismo; as declarações públicas sobre casos que ainda irão julgar; e a atuação política evidente – tudo isso abriu uma ampla janela de interrogações sobre a imparcialidade e o distanciamento dos princípios republicanos que devem reger a Corte.

Não é preciso ir longe na teoria. Alexis de Tocqueville, pensador político francês do século 19 e intérprete das democracias modernas, já advertia que o Poder Judiciário é poderoso, mas sua força depende da confiança pública. Isso o torna simultaneamente forte e frágil: forte porque suas decisões moldam a vida pública; frágil porque sua autoridade repousa na confiança da sociedade. Essa confiança não se sustenta apenas no rigor técnico dos votos, mas sobretudo na percepção de imparcialidade e autocontenção.

O poder que se limita é o poder que se preserva. Por isso há uma longa tradição anglo-saxã do chamado judicial restraint, doutrina segundo a qual o Judiciário deve exercer suas competências com máxima cautela, intervindo o mínimo possível nas decisões dos demais Poderes e evitando expandir seu próprio alcance além do estritamente necessário à Constituição. Em síntese, a legitimidade da Corte se fortalece quando ela sabe não decidir – ou decidir menos – sempre que a Constituição permitir deferência institucional.

Os episódios recentes envolvendo Alexandre de Moraes e, sobretudo, Dias Toffoli mostram que impedimento e suspeição não são artifícios processuais, mas mecanismos de proteção institucional. Ao se afastar de casos em que haja dúvida razoável sobre sua imparcialidade, o magistrado fortalece a própria Corte. Essa higiene republicana funciona como blindagem contra a erosão do capital de legitimidade que nenhuma decisão erudita recompõe depois de perdido.

O que está em jogo é a percepção de que o STF precisa reencontrar com clareza os limites constitucionais de seu papel, evitando excessos que fragilizem sua própria autoridade. A crítica deste jornal não é um ataque à instituição, mas um convite à prudência. A autocontenção, nesse sentido, é virtude republicana comparável à prudência do estadista clássico: longe de sinal de fraqueza, trata-se de maturidade democrática e institucional.

A legitimidade de uma Corte é tanto questão de substância quanto de percepção. No passado, Rui Barbosa já defendia uma magistratura que não apenas fosse incorruptível, mas também parecesse assim, reafirmando princípio essencial da tradição republicana: ninguém está acima da lei. Quando um magistrado opta por se declarar impedido, reafirma publicamente a segurança do sistema judicial, reduz tensões entre os Poderes e protege a instituição de contestações que podem se alastrar como crise de confiança. Trata-se, em essência, de prática republicana clássica: a autocontenção como instrumento de autocuidado institucional.

A função do Supremo não é apenas julgar com rigor técnico, mas preservar o arcabouço moral que sustenta a democracia. A virtude republicana da autocontenção é, nesse sentido, pilar silencioso, porém decisivo, da legitimidade judicial e, por extensão, da própria ordem constitucional.

Que esse debate e as lições recentes inspirem o bom juízo do STF, antes que a erosão da confiança se torne irreversível.

Um bom sinal vindo dos EUA

Por O Estado de S. Paulo

Ao se dispor a processar terras raras no Brasil, americanos parecem enxergar o País como parceiro. Cabe a Lula definir prioridades sobre minerais críticos e manter-se sensato nas negociações

Superado o período belicoso que marcou a relação entre Brasil e EUA no início do segundo mandato do presidente Donald Trump, os americanos começam a emitir sinais de que enxergam no Brasil um parceiro de muito potencial – e não um inimigo a ser punido com tarifas que, se de forma geral já são uma excrescência, no caso brasileiro fazem ainda menos sentido, já que o Brasil tem relação comercial deficitária com os EUA.

Nesse contexto, é muito bem-vinda a declaração do secretário-adjunto de Estado americano, Caleb Orr, de que os EUA estão dispostos a processar minerais críticos como as chamadas terras raras em solo brasileiro.

O Brasil concentra a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China. Além de terem mais que o dobro das reservas brasileiras, os chineses praticamente detêm um monopólio do refino desses minerais de extrema importância para a produção de semicondutores e baterias elétricas, entre outros equipamentos de alto valor agregado.

Tamanha vantagem garante à China extremo poder de fogo na disputa pela primazia global com os EUA. Em meio à guerra geopolítica e comercial com Trump, Pequim chegou a impor restrições severas à exportação de seus minerais críticos para todo o mundo. Embora o pior dessas limitações tenha passado, a China pode muito bem optar por segurar novamente as exportações de suas terras raras, das quais o mundo tornou-se bastante dependente.

Também por isso os EUA tratam o Brasil agora de forma bem diferente da que resultou no tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros em julho passado, medida descabida e já parcialmente revertida. Confirmada a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Casa Branca, o que deve ocorrer no início de março, Washington e Brasília tratam agora de estabelecer uma agenda de interesse comum neste momento de aparente maturidade da relação entre Lula e Trump.

“Acreditamos que o Brasil seja um parceiro muito promissor para os EUA. Nossa abordagem reconhece que as cadeias de suprimentos exigem parcerias sólidas, seja por meio do processamento no Brasil, nos EUA ou em ambos, e esperamos continuar trabalhando com o Brasil”, afirmou o representante do Departamento de Estado.

Do lado brasileiro, tem prevalecido a posição, correta, de que o País não pode repetir, com as terras raras, o equívoco de ser um mero fornecedor de matérias-primas para o mundo. Em declarações ao UOL, o assessor especial da Presidência, Celso Amorim, afirmou que o posicionamento dos EUA “pode ser visto como positivo”, mas que a questão não é apenas processar as terras raras domesticamente. Segundo ele, o Brasil precisa “definir nossas necessidades (inteligência artificial, defesa, alta tecnologia) e só exportar o excedente”.

Por razões óbvias, os interesses do Brasil devem vir em primeiro lugar, o que só reforça que as necessidades do País sejam definidas o quanto antes, ainda mais diante do potencial das reservas de terras raras brasileiras e do evidente atraso brasileiro na exploração e comercialização desses recursos.

Enquanto por aqui ainda não se tem clareza sobre como o Brasil deseja se beneficiar economicamente de recursos naturais tão cobiçados, a China segue soberana nessa seara. Já os EUA, ao mesmo tempo em que mostram disposição em estabelecer uma parceria com o Brasil, também correm atrás de outros sócios. Recentemente os americanos reuniram representantes de dezenas de países, incluindo a União Europeia, para tratar do tema.

Na posição de detentor de reservas significativas, o Brasil pode, e deve, negociar com os americanos, mas sem ceder exclusividade, ou seja, sem alienar a China. O próprio representante do Departamento de Estado apontou para essa direção, ao declarar que estão buscando qualidade e diversificação de parcerias. “Não queremos retaliar a China”, afirmou Orr.

Tudo indica que, nas tratativas com seus dois principais parceiros comerciais, China e EUA, o Brasil vem se norteando pelo pragmatismo, o que é uma excelente notícia.

A poluição sonora em números

Por O Estado de S. Paulo

Dados oficiais do Psiu provam que os paulistanos têm razão: a cidade está mais barulhenta

O canal de atendimento ao cidadão da Prefeitura de São Paulo registrou recorde de reclamações de barulho. De acordo com o balanço do 156, quase 50 mil queixas foram apresentadas pelos paulistanos ao longo de 2025 no Programa Silêncio Urbano, mais conhecido como Psiu.

Trata-se do maior volume de reclamações de toda a série histórica, iniciada em 2012. Com isso, os dados oficiais confirmam uma realidade perturbadora: a cidade de São Paulo está mais barulhenta, o caos sonoro se espalhou por todas as regiões e esse excesso de ruído tem incomodado bastante.

E sobram exemplos de infrações que ocorrem todos os dias pela capital paulista. São motos, carros, ônibus e caminhões que emitem dos motores ou pelos escapamentos ruídos bem acima do tolerável. Bares, restaurantes, casas noturnas e casas de show que estendem irregularmente suas atividades privadas sobre as calçadas nas vias públicas. E obras, tanto públicas como privadas, que não raro nas madrugadas tiram o sossego dos paulistanos, privando-os de uma noite tranquila de sono.

Não à toa, em meados do ano passado, paulistanos de diversas regiões se uniram para formar a Frente Cidadã pela Despoluição Sonora. Num manifesto, o grupo listou os danos à saúde física e mental causados pela exposição a ruídos excessivos: doenças auditivas, doenças cardiovasculares, distúrbios do sono, estresse, ansiedade e depressão. Ou seja, todo esse barulho adoece.

A gestão Ricardo Nunes parecia ter se sensibilizado, ao menos um pouco, com as queixas da população. Numa decisão acertada, no fim do ano passado, a Prefeitura proibiu a concessionária Viva o Vale de realizar shows depois das 23 horas no Vale do Anhangabaú a partir deste ano. A medida foi adotada após moradores da região central reclamarem de ter suas residências invadidas pelo alto ruído das apresentações e pelos fortes canhões de luzes dos festivais musicais.

Mas a Prefeitura, ao que tudo indica, preferiu seguir na contramão do desejo dos paulistanos. Isso porque, enquanto cresce a insatisfação com a poluição sonora na cidade, a administração municipal decidiu flexibilizar ainda mais as regras de fiscalização e de combate ao barulho.

Prova disso é que a gestão Nunes recorreu recentemente ao Supremo Tribunal Federal (STF) para defender uma mudança na lei do Psiu que visa a liberar o barulho nos arredores de grandes shows. Ou seja, a população não teria o direito de reclamar, nem o poder público teria o dever de punir os infratores.

Para a Prefeitura, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), ao derrubar essa mudança na lei aprovada pela Câmara Municipal num projeto sobre um aterro sanitário na zona leste, elevou “o direito ao sossego a um patamar de quase absolutismo”. Nenhum direito é absoluto, tampouco os deveres do poder público deveriam ser tão relativos.

Os paulistanos não estão mais sensíveis ao barulho: eles estão muito inconformados, e com razão, com a crescente poluição sonora na cidade em que vivem. Não à toa, pedem socorro. Por tudo isso, os números do Psiu e a intensa mobilização da população não podem ser ignorados.

Cresce no Congresso rejeição a tarifaço impopular de Trump

Por Valor Econômico

Trump se equilibra entre tarifas e sentimento popular diante de uma eleição que, caso perca nas duas Casas do Congresso, porão um fim em sua carreira política

A saga tarifária do presidente americano Donald Trump enfrenta seus maiores percalços agora. Setores republicanos do Congresso começaram a se insurgir contra a aplicação de punições comerciais a aliados históricos, como o Canadá, e a Câmara dos Deputados aprovou projeto que barra tarifas sobre o país vizinho, no momento em que Trump sugere que o acordo com México e Canadá, vigente desde 1994, não vale para nada e deve acabar. A Suprema Corte americana, além disso, pode dar a qualquer momento seu veredito sobre se é válida ou não a base jurídica sobre a qual o presidente erigiu seu muro tarifário, a lei de emergência econômica internacional, nunca utilizada antes por um ocupante da Casa Branca para elevar a proteção a bens e serviços do país.

Trump, como era esperado, vem reajustando seu foco de acordo com a reação interna e externa ao choque do "dia da libertação". Depois de uma resposta à altura da China, que ameaçou interromper o fornecimento de terras raras, da qual é o principal produtor e refinador mundial, o governo americano reduziu os impostos de importação de 45% a uma média de 32%.

A Índia, a única companheira do Brasil ao receber a maior taxação de todas, 50%, e ser reiteradamente acusada por Trump de discriminar exportações americanas e ser a maior compradora do petróleo russo, fechou um entendimento com os EUA em 7 de fevereiro. Os 50% foram reduzidos para 25% e, depois aos 18% de tarifas "recíprocas", como contrapartida à aceitação do primeiro ministro Narendra Modi de abertura comercial, com compra de US$ 500 bilhões em mercadorias americanas e o compromisso de não mais adquirir óleo russo.

Novos lances de Trump na área comercial incluem uma revisão dos exageros protecionistas sobre aço e alumínio, insumos básicos, usados de carros a fogões a porcas e parafusos, também contemplados com proteção de 50%. Um dos motivos é que o controle de bens que os utilizam é um pesadelo. O outro foi que os preços subiram. Os efeitos sobre a inflação foram sentidos imediatamente pelos consumidores e pelos radares políticos da Casa Branca: há eleições em outubro para renovar toda a Camara dos Deputados e um terço do Senado. O presidente tem maioria nas duas Casas, o que lhe dá grande margem de manobra para agir a seu bel-prazer.

As tarifas não são bem vistas pelo consumidor americano. Pesquisa recente da Pew indicou que 60% dos adultos a desaprovam, entre eles 25% dos eleitores republicanos. Essa é mais ou menos a mesma proporção dos que acreditam que o atual governo não está fazendo um bom trabalho na economia. Estudo do Federal Reserve de Nova York lhes dá razão, ao constatar que 90% dos aumentos decorrentes dos impostos de importação recaíram sobre empresas e consumidores americanos, como todo mundo previa, menos Trump. Já a organização independente Tax Foundation fez um cálculo levando em consideração as tarifas nos níveis atuais e concluiu que cada americano teve de dispender US$ 1 mil a mais no ano passado em função delas e gastarão com isso mais US$ 1,3 mil em 2026.

O descontentamento foi captado no Congresso, onde os republicanos fiéis a Trump têm votado como um só homem a favor das políticas do presidente. O monolito mostrou rachaduras. Na semana passada, 3 republicanos romperam a tênue maioria de 217 da legenda ante 213 democratas e invalidaram o boicote vigente ao exame de qualquer projeto de lei que tente mudar ou eliminar tarifas. A minirebelião se ampliou na quarta passada, quando 6 republicanos se alinharam à oposição para votar uma resolução que proíbe os EUA de taxarem o Canadá. Trump tem poderes para vetar o que foi decidido, mas a defesa de Mike Johnson, líder republicano na Casa, não chegou a inspirar confiança. Na prática, ele pediu uma trégua até que a Suprema Corte julgue se o instrumento legal para o presidente declarar uma guerra comercial ao mundo compete a ele ou é atribuição do Congresso, como sempre foi.

O Federal Reserve, o banco central americano, estima que ainda haverá efeito das tarifas sobre os preços neste ano, mas declinantes e efêmeros. O estudo do Fed de NY indica que os repasses estão diminuindo gradualmente, e o índice de inflação ao consumidor de janeiro caiu mais que o previsto, de 2,7% para 2,4%, com seu núcleo (2,5%) apresentando o menor resultado em cinco anos. É uma boa notícia pela metade para Trump: a abertura de vagas de emprego deu um salto em janeiro, mostrando vigor no mercado de trabalho, o contrário da suposição que levou o Fed a reduzir os juros em suas últimas reuniões.

Trump se equilibra entre tarifas e sentimento popular diante de uma eleição que, caso perca nas duas Casas do Congresso, porão um fim em sua carreira política. A agressividade protecionista está se deslocando para a amistosidade, que pode beneficiar o Brasil. Na votação da Câmara que veta tarifação do Canadá foi mencionado que o tratamento dado ao Brasil também é injusto. A investida para revogar o USMCA, que une EUA, México e Canadá em um mercado de US$ 2 trilhões, tende a ser abandonada e jogada no baú de péssimas ideias do presidente.

Consumo abusivo de álcool é desafio nacional

Por Correio Braziliense

É preciso que o Brasil comece a combater o consumo de álcool como guerreou contra o tabagismo a partir dos anos de 1980 — sobretudo no campo da conscientização

Quando se fala no combate ao consumo abusivo de álcool, o depoimento de pessoas que conviveram, ou ainda convivem, com a doença é fundamental para conscientizar quem enfrenta a árdua batalha. Em vídeos recentes publicados em seu canal no YouTube, o músico Nando Reis, ex-Titãs, abriu o jogo e falou com detalhes sobre os maus bocados que passou por conta da dependência — sobretudo da vodca. São falas fortes e de enorme interesse público em um país que contabiliza quatro hospitalizações por hora justamente por esse problema, segundo dados do anuário Álcool e a saúde dos brasileiros: panorama 2025.

Vivemos em uma sociedade que banaliza perigosamente o consumo do álcool. As gerações X (nascidos entre 1965 e 1980) e Y (de 1981 a 1996) cresceram em meio à celebração contínua da cervejinha e dos drinks em cada reunião de família. Bebia-se muito cedo, já na adolescência, sem qualquer problematização ou julgamento dos pais e demais responsáveis. O tempo passa, porém, e os danos do perigoso hábito começam a se manifestar na vida adulta — ao menos sete tipos de câncer, por exemplo, são associados à substância.

Em seu depoimento, Nando Reis destaca que o mais difícil é evitar "o primeiro gole". A partir dele, a pessoa dependente não consegue colocar o pé no freio e consome mais do que havia combinado consigo mesma.  É um caminho sem volta, desabafou o artista, hoje em recuperação e sem beber há cerca de 10 anos. O músico só conseguiu superar o vício ao ver a carreira por um fio, quando compareceu bêbado a um ensaio para se apresentar com Gilberto Gil. Todos perceberam, pegou mal na frente do maior ídolo.

O limite social entre o tolerável e o perigoso, no caso do álcool, é difuso. No quesito fisiológico, autoridades são taxativas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), não há dose segura para o consumo. Inclusive, o chamado "binge drinking", o exagero restrito aos fins de semana, um padrão comum no Brasil, pode ser tão prejudicial para a saúde quanto a ingestão diária da substância. Ainda que a metabolização do álcool varie de acordo com aspectos físicos e genéticos, o impacto é certeiro em qualquer cenário.

Diante disso, é preciso que o Brasil comece a combater o consumo de álcool como guerreou contra o tabagismo a partir dos anos de 1980 — sobretudo no campo da conscientização. A aceitação cultural da ingestão, por vezes, dificulta o entendimento dos riscos da substância. Inclusive os riscos sociais: o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), por exemplo, trabalha com a estimativa de que 30% dos acidentes fatais no Brasil envolvem motoristas que estavam sob efeito de álcool. Exige-se, portanto, estratégias atualizadas e eficazes para vencer esses e outros obstáculos.

A boa notícia fica com a nova geração, formada por pessoas nascidas a partir de 1997, que tem se dedicado a novos rumos para o lazer e as celebrações. Pesquisa do  Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) aponta que a abstinência passou de 46% para 64% entre pessoas de 18 a 24 anos. Esse, sim, precisa ser um caminho sem volta.

Regulamentação e transparência algorítmica

Por O Povo (CE)

Não mais que meia dúzia de big techs controlam praticamente tudo o que transita pela internet

Com o surgimento das novas tecnologias e o lugar central que passaram a representar na vida cotidiana, o uso abusivo de redes sociais por crianças e adolescentes tornou-se preocupação de pais, mães, autoridades governamentais e de estudiosos do assunto. Desenhadas para causar dependência e com algoritmos agindo no mesmo sentido, dezenas de países ao redor do mundo buscam formas de lidar com esse fenômeno, principalmente para proteger crianças e adolescentes, o elo mais fraco de uma corrente que arrasta à dependência.

Jovens expostos com frequência às redes sociais sofrem efeitos deletérios como ansiedade, depressão, baixa autoestima, queda no rendimento escolar, dificuldade de interações pessoais na vida real, entre outros males.

Os adultos também estão sujeitos a consequências graves, como abalo na saúde mental, queda de produtividade e conflitos familiares, decorrentes do uso excessivo das redes.

À plataforma de notícia Deutsche Welle (DW), em reportagem publicada pelo O POVO (15/2/2026), o pesquisador do Instituto Bruegel (Bélgica), Paul O. Richter, disse haver "muitas pesquisas que mostram fortes correlações entre o uso de redes sociais e problemas de saúde mental". Para Richter, "o foco específico em menores de idade se deve ao aumento de danos a longo prazo, já que os jovens ainda estão em desenvolvimento cognitivo.

Por isso, cada vez mais países, incluindo o Brasil — com o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA Digital —, estão criando leis para regular as redes ou mesmo proibindo o seu uso por menores de 16 anos. Assim fez, pioneiramente, a Austrália, com uma lei que entrou em vigor no mês de dezembro de 2025. França e Espanha cogitam tomar medida parecida.

Entretanto, as big techs, apesar dos estudos mostrando os malefícios causados pelas redes, respondem violentamente a qualquer medida que vise estabelecer algum tipo de regulamentação. Segundo a DW, o proprietário da rede X, Elon Musk, classificou como "tirano e traidor do povo espanhol" o primeiro-ministro da Espanha, pelo fato de o parlamento do país manter o assunto em pauta.

Na verdade, Musk quer politizar um assunto que deveria ser mantido no terreno da saúde pública. Com um discurso populista, em favor de uma suposta "liberdade de expressão", ele quer manter seus lucros astronômicos, além dos brutais dividendos políticos proporcionados por uma rede, com imenso poder de influência.

Além da empresa de Musk, não mais que meia dúzia de big techs controlam praticamente tudo o que transita pela internet, por meio de aplicativos, cujos algoritmos funcionam de forma obscura, sob o estrito controle de seus donos. Essa pequena elite digital detém um poder desproporcional e antidemocrático. Disso decorre que eles devem à sociedade, no mínimo, a transparência algorítmica, além de submeterem suas atividades à regulamentação.

 

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