quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Entrevista | Marqueteiro de Paes (PSD) vê Lula favorito, apesar de ‘dificuldades de sempre’

Por Camila Zarur / Valor Econômico

Ex-consultor de petista, Marcello Faulhaber considera escolha de Flávio certa

O marqueteiro Marcello Faulhaber é enfático nas previsões para as eleições deste ano. Para ele, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) será reeleito. “Com a dificuldade de sempre, no segundo turno e com pouca diferença, mas vai se reeleger”, diz, em entrevista ao Valor.

Coordenador das últimas campanhas do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), e consultor na campanha de Lula em 2022, Faulhaber acredita que o ex-presidente Jair Bolsonaro acertou ao indicar o filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL), em vez de apoiar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Olhando para os petistas, Faulhaber é crítico nas movimentações do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O marqueteiro vê nas ações do chefe da equipe econômica do Planalto uma tentativa de forçar sua indicação para suceder a Lula - o que o transforma numa nova versão do ex-ministro e ex-senador José Serra (PSDB).

Por fim, na corrida ao governo do Rio, Faulhaber, que deve repetir a dobradinha com Paes, afirma que o único que pode atrapalhar o prefeito é ele próprio. “Depende dele”.

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

Valor: Existe um sentimento antissistema nesta eleição?

Marcello Faulhaber: Não acho que haja esse sentimento, não como havia em 2018. O que vejo é uma disputa entre democratas e autoritários, entre extrema-direita e democracia, independentemente se de centro-esquerda ou centro-direita. E Lula vai se reeleger. Com a dificuldade de sempre, no segundo turno e com pouca diferença, mas vai se reeleger. Primeiro, a economia está melhorando: taxas de desemprego mais baixas da história, aumento de renda das famílias mais pobres, justiça fiscal, inflação caindo. Segundo, a direita vai estar completamente fragmentada. Terceiro fator é Donald Trump [presidente dos EUA]. Porque só quem gosta de ser capacho de americano é a elite brasileira. O povo odeia. As pessoas têm um patriotismo verdadeiro. E o quarto fator é Lula, um líder carismático e improvável.

Valor: Como avalia a estratégia de Gilberto Kassab de unir os possíveis presidenciáveis em seu partido, o PSD?

Faulhaber: Falta o Romeu Zema [governador de Minas Gerais], mas acho que Kassab talvez consiga trazê-lo. A minha sensação é que o PSD e o Kassab querem ter, de fato, uma candidatura presidencial de centro-direita democrática, não radical. Só que os votos bolsonaristas são maioria. Por outro lado, embora não seja uma coisa premeditada, Kassab também está aumentando o cacife dele. Seja para negociar com o Lula, seja para negociar com o Flávio Bolsonaro, seja para negociar com Tarcísio em São Paulo. Pode ter um candidato do PSD? Pode. E pode ser que não aconteça. E aí Kassab tem um poder político muito mais forte para negociar.

Valor: Flávio Bolsonaro tem força para repetir os feitos do pai? Bolsonaro acertou em indicá-lo?

Faulhaber: Claro! É melhor ser o primeiro numa vila do que o segundo em Roma. Se Tarcísio se elegesse presidente, ele poderia até anistiar Bolsonaro, mas tomaria o lugar de grande líder da direita. A família Bolsonaro foi quem construiu a direita no Brasil. Ninguém era de direita antigamente. Então, por que entregar isso de bandeja? A estratégia é manter a família com o poder político que seria dizimado se Tarcísio ganhasse. A família Bolsonaro perde muito mais com qualquer cara da direita se elegendo, do que com o Lula se elegendo. Com a vitória do Lula, Bolsonaro e os filhos vão continuar sendo a maior força de oposição brasileira. Isso tem muito valor. O Valdemar Costa Neto [presidente do PL] não é bolsonarista, mas se beneficia do bolsonarismo. É isso que faz com que o partido dele tenha a maior bancada da Câmara e o maior fundo eleitoral.

A estratégia é manter a família Bolsonaro com poder, o que seria dizimado se Tarcísio ganhasse”

Valor: Mas Tarcísio, se fosse candidato à Presidência, teria chances?

Faulhaber: Não. Seria um candidato mais difícil [para Lula] do que Flávio, mas Eduardo Bolsonaro também seria, talvez até o Carlos Bolsonaro seria mais difícil por conta da história do Flávio. O Tarcísio é um cara que tem grande potencial em 2030. Mas precisa errar menos na política. Ele não era político e cometeu uma série de erros como levantar a bandeira do Maga [mote trumpista de “América primeiro”]. A maturidade dentro da vida pública vai fazer ele virar um candidato fortíssimo em 2030, não agora.

Valor: Para isso ele precisa ser menos dependente de Bolsonaro?

Faulhaber: Exatamente. Hoje ainda não dá para chegar no segundo turno sem apoio de Bolsonaro, assim como, pela esquerda, não dá pra chegar no segundo turno sem apoio de Lula. O pós-Lula e o pós-Bolsonaro, que vai acontecer em 2030 ou no máximo em 2034, é outra história.

Valor: Por causa da polarização?

Faulhaber: Não é polarização, não são dois polos. No Brasil, a análise tem que ser feita de forma bidimensional. A questão do comportamento moral e religioso é um eixo. O outro é a visão do Estado, se quer um Estado de bem-estar social ou um Estado mínimo. Quem é liberal no comportamento e quer Estado mínimo, que é um pouco a elite brasileira, não tem mais do que 5% votos no Brasil. Mais de 60% dos eleitores querem um Estado de bem-estar social - não porque são ideológicos, mas porque precisam; precisam da saúde, de educação e do espaço público. E, ao mesmo tempo, são conservadores. São pobres conservadores. Esse é o grande eleitorado brasileiro, e ninguém os representa. O Lula pega parte, 20% a 25%, e Bolsonaro também, 20% a 25%. E a direita liberal escolhe quem apoiar. Apostaram em Bolsonaro em 2018, foram mais para Lula em 2022, e agora me parecem mais assanhados para a Flávio, achando que ele vai ser um Javier Milei [presidente da Argentina].

Valor: E a terceira via?

Faulhaber: A terceira via que poderia ameaçar não tem uma liderança. Não existe um cara a favor de um Estado de bem-estar social e conservador nos costumes. A sustentação eleitoral do Bolsonaro não tem nada a ver com a visão do Estado mínimo. O que faz a diferença do bolsonarismo é o conservadorismo.

Valor: Por que Haddad parece alguém que não empolga o eleitor?

Faulhaber: O Haddad é o Serra do PT. O Haddad gosta de discussões filosóficas. É um grande executivo do setor público, mas é um intelectual. Não é um cara que tem carisma; quer melhorar a vida das pessoas, mas não gosta de pessoas, gosta de teses. Pessoas no entorno do Haddad queriam forçar uma barra para ele ser o sucessor do Lula, botando [Geraldo] Alckmin para correr e virando o vice do Lula. Só que fizeram de uma forma muito inabilidosa e alertaram as águias.

A questão do vice de Lula é uma coisa que não deveria nem estar sendo discutida”

Valor: O movimento que o MDB tem tentado, não?

Faulhaber: Viram que podem ter uma oportunidade de conseguir a vice. Não achei Geraldo Alckmin uma boa escolha em 2022. Ele não trouxe um voto a mais para Lula. Mas agora tem que mantê-lo. Não faz sentido colocar alguém de um partido forte do Congresso, com risco de impeachment. A questão do vice de Lula é uma coisa que não deveria nem estar sendo discutida. Vai dar o vice para o MDB achando que vai ter tudo? Não vai ter nada. Agora, se for para o Kassab

Valor: Kassab seria um bom vice para Lula?

Faulhaber: Não que seria um bom vice, mas Kassab é quem pode resolver os problemas de Lula. Principalmente de não ter múltiplas candidaturas na direita. A questão é se Kassab olhará mais para ele ou para o partido. Ele vai fazer um cálculo político: é melhor ser vice de Lula ou ter um partido maior? Não sei qual é o resultado dessa conta.

Valor: Em 2030, num cenário que Lula vença neste ano, o bolsonarismo continuará forte?

Faulhaber: Vai depender muito de como vai estar o mundo em 2030. O mundo, não só o Brasil. O bolsonarismo pode ter muito menos força do que hoje. Teremos um cenário absolutamente inverso ao atual, com a esquerda fragmentada e a direita, provavelmente, em torno de Tarcísio. Com o bolsonarismo mais fraco, Tarcísio realmente consegue ser candidato.

Valor: Paes consegue fugir da polarização no Rio?

Faulhaber: Digo o seguinte: quem não estiver ao lado de Paes este ano vai lamentar. Seja durante a eleição ou seja depois. Ele é favoritíssimo. Se ele não errar, não cometer nenhum erro, ele está com a eleição ganha. Não depende muito dos outros, depende mais dele.

Valor: É diferente de 2018?

Faulhaber: Em 2018 foi uma eleição antissistema. Paes estava ainda muito próximo de 2016, de Sérgio Cabral [ex-governador do Rio], de Odebrecht. Hoje todo mundo sabe que Paes não tem nada a ver com essa história. Deixamos isso muito claro em 2020. Cabral era uma coisa, e Paes era outra. E em 2018, Wilson Witzel [ex-governador do Rio] só se elegeu porque o Flávio Bolsonaro o abraçou. Se o Flávio não tivesse abraçado Witzel, não teria sido eleito.

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