Dívidas em alta expõem populismo do Desenrola
Por O Globo
Endividamento alcançou maior nível do atual
mandato: metade do que as famílias ganham está comprometido
Foram efêmeros os efeitos do Desenrola Brasil, programa do governo Lula para renegociação de dívidas de tons nitidamente populistas. O endividamento das famílias aumentou e chegou a 49,8 % da renda anual em novembro, maior nível no atual mandato, de acordo com os dados mais recentes divulgados pelo Banco Central (o recorde histórico é 49,9%, em julho de 2022). Na prática, pode-se dizer que as dívidas, como financiamentos de carros, motos e outros bens, empréstimos pessoais, crédito consignado e cartão de crédito, correspondem à metade de tudo o que as famílias ganham em um ano. A inadimplência também subiu no ano passado. Chegou a 6,9% em dezembro no segmento de crédito livre às famílias, alta de 1,7 ponto percentual em 12 meses. Trata-se de patamar alto para os padrões históricos.
Chama a atenção que o endividamento tenha
escalado mesmo com inflação sob controle, população ocupada batendo recorde e
desemprego nos menores patamares da História — a taxa caiu para 5,1% no
trimestre encerrado em dezembro, renovando o menor percentual desde o início da
Pnad Contínua, em 2012. Os empregos com carteira assinada também atingiram o
nível mais alto. Foram 38,9 milhões, 1 milhão a mais na comparação com 2024.
Diante do cenário econômico favorável, não é
difícil entender a principal explicação para o aumento do endividamento: os
juros altíssimos nas operações de crédito, que acompanham a taxa Selic, hoje em
15%. Trata-se do maior nível desde julho de 2006, equivalente a um dos maiores
juros do mundo descontada a inflação. “No crédito livre às famílias, a taxa
média está ultrapassando 60%”, disse ao GLOBO Fábio Bentes, economista sênior
da Confederação Nacional do Comércio (CNC). “Não vemos uma taxa dessas no
Brasil dede 2017.” Embora a pregação por corte nos juros esteja sempre presente
nos discursos de Lula, o descontrole fiscal do Planalto deixa pouca margem para
baixá-los sem pôr em risco o controle da inflação (uma redução é esperada só a
partir de março).
Sem fazer o que deve, o governo acaba recorrendo
a soluções paliativas, pautadas por pretensões eleitorais, e não critérios
técnicos. É o caso do Desenrola, promessa de campanha de Lula. Lançado em julho
de 2023 com pesadas campanhas publicitárias, o programa vigorou até maio de
2024, permitindo que 15 milhões de cidadãos renegociassem dívidas de R$ 53,2
bilhões. É verdade que, no primeiro ano de mandato, o endividamento caiu para
47,7% da renda anual. Mas voltou a subir com o ciclo de alta da Selic. Uma nova
versão do programa, voltada a micro e pequenas empresas e a microempreendedores
individuas (MEIs), está em gestação.
Claro que, para os endividados, um programa
de renegociação de dívidas representa alívio, ainda que temporário. Mas não
resolve, porque eles voltam a se endividar, como atestam os números do BC e os
sucessivos programas já lançados. A profusão dessas iniciativas cria incentivos
para os beneficiados contraírem mais dívidas, na esperança de renegociá-las
depois — sempre haverá um programa generoso, especialmente perto de eleições.
Somente quando houver equilíbrio nas contas públicas e uma política fiscal
responsável, os juros poderão cair de modo sustentado, revertendo a alta no
endividamento. Enquanto o governo mirar apenas nos efeitos e não nas causas, as
dívidas só tendem a crescer.
Brasil precisa estar preparado para vencer
disputa pelos data centers
Por O Globo
País dispõe de vantagem comparativa na
energia limpa. Congresso deve analisar MP de incentivos ao setor
O Brasil tem vantagens comparativas notáveis
para hospedar os grandes centros de processamento de dados necessários à
expansão da inteligência
artificial (IA) pelo mundo. A construção e operação desses data
centers é atividade que demanda enorme consumo de energia e de água, usada na
refrigeração. Como o país dispõe de geração excedente de energia limpa — tem
sido comum jogar fora a eletricidade de parques solares ou eólicos por falta de
demanda —, há uma oportunidade evidente. O governo tentou aproveitá-la baixando
uma Medida Provisória (MP) que cria um regime especial de tributação e
incentivos para atrair investimentos em data centers, o Redata. Ela vence no
final de fevereiro, por isso é fundamental que o Congresso se debruce sobre a
questão na volta do recesso. Do contrário, a oportunidade que se desenha no
setor mais promissor da economia global poderá ser desperdiçada.
Até outubro do ano passado, operavam no
Brasil 162 grandes centros de processamento, segundo a Associação Brasileira de
Data Centers (ABDC). A maioria fica no Sudeste, concentrada no estado de São
Paulo. A nova fronteira de investimento promete descentralizar os polos de
processamento, aproveitando o volume crescente de produção de energia eólica e
solar no Nordeste — cujo excedente tem causado problemas técnicos nas redes de
transmissão.
De acordo com o Ministério das Comunicações,
o Brasil ocupa o 12° lugar no ranking global de data centers, liderando o setor
na América Latina. Para os próximos quatro anos, são previstos investimentos
entre R$ 60 bilhões e R$ 100 bilhões no setor. O próprio mercado tem se
adiantado.
Mesmo sem a aprovação final do Redata, o
grupo chinês ByteDance, criador do TikTok,
confirmou em dezembro que investirá R$ 200 bilhões num data center no Complexo
Industrial e Portuário de Pecém, no Ceará. Além de a pegada de carbono do
projeto ser baixa, a localização deverá permitir que a refrigeração dos
equipamentos seja feita em parte com água do mar. Também pesou na decisão da
ByteDance a proximidade do feixe de cabos submarinos que chega no Ceará,
facilitando conexões de boa qualidade.
A mesma vantagem atraiu a empresa de
infraestrutura digital V.tal, que tem como clientes operadoras de
telecomunicações, provedores de internet, empresas de streaming e outras que
operam serviços digitais. A operadora de data centers HostDime optou por João
Pessoa, na Paraíba, para se expandir dali para outras regiões.
A formatação correta do Redata pode ajudar a compensar o alto custo para qualquer empresa investir no Brasil. Não há tempo a perder. O país não está sozinho na corrida de data centers. No ano passado, a ByteDance já havia anunciado investimentos na Tailândia. Precisamos estar preparados para a disputa.
Quando cumprir a meta fiscal não serve para
nada
Por Folha de S. Paulo
Na contabilidade petista, Tesouro teve
déficit de R$ 13 bi em 2025, enquanto o número real é R$ 61,7 bi
É inútil culpar encargos financeiros; taxa do
BC está em 15% justamente devido a pressões inflacionárias incitadas pela
gastança de Lula
O Tesouro Nacional continuou no vermelho no
ano passado. Na contabilidade peculiar do governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT),
as receitas superaram as despesas, sem contar juros,
em R$ 13 bilhões. Cumpriu-se, assim, a meta de déficit zero, com generosa
tolerância de 0,25% do PIB, ou R$ 31,8
bilhões.
Na vida real, o resultado é ainda pior do que
parece. Quando se consideram todos os gastos com pessoal, custeio e
investimentos, sem as múltiplas
exceções criadas pela administração petista em seu cálculo, o rombo
foi de R$ 61,7 bilhões, acima dos R$ 42,9 bilhões de 2025.
A meta oficial só foi cumprida, portanto,
graças à exclusão de desembolsos de R$ 48,7 bilhões, com precatórios,
principalmente, e rubricas variadas em saúde, educação e defesa nacional.
O acúmulo de exceções derruba a credibilidade
do regime orçamentário, que perde transparência e o poder de sinalização para a
sociedade. Por si só, o tal arcabouço fiscal, após somente dois anos em vigor,
mal indica se as contas melhoram ou pioram. O que se pode dizer é que o quadro
permanece dramático.
Quando são incorporados os juros aos
cálculos, o déficit federal sobe a R$ R$ 891,9 bilhões. Somando estados,
municípios e estatais, o número vai a R$ 1,063 trilhão, ou 8,34% do PIB, quase
nada abaixo dos 8,47% de 2024. Trata-se de um dos piores desempenhos em todo o
mundo.
É inútil culpar os encargos financeiros na
casa do trilhão pelo descalabro. A taxa do Banco Central está em
exorbitantes 15% ao ano justamente devido a pressões inflacionárias provocadas
pelo aumento do gasto público sob Lula. Por óbvio, é o déficit orçamentário que
primeiro cria a dívida e, com ela, os juros.
O endividamento, por sinal, avançou para
78,7% do PIB, com alta 2,4 pontos percentuais no ano passado. A trajetória
ascendente, hoje sem perspectiva de interrupção, ameaça a sustentabilidade
fiscal de longo prazo.
A política petista de ajuste se baseia
exclusivamente em aumentar a arrecadação —e as receitas federais bateram
recorde, alcançando R$ 2,89 trilhões, com crescimento real de 3,2%. Enquanto
isso, as despesas não financeiras foram elevadas em 3,4%, puxadas por
compromissos obrigatórios como Previdência
Social e outros benefícios indexados ao salário
mínimo.
Como esperado nesse contexto, o espaço para
investimentos e custeio administrativo encolheu —e hoje se vê o paradoxo de um
governo que gasta como nunca, mas corre o risco de não ter dinheiro para manter
o cotidiano da máquina pública.
Para este 2026, ano eleitoral, as projeções
apontam deterioração. A dívida pode saltar para 83% do PIB, e cumprir a meta de
superávit de 0,25% do PIB, mesmo com gambiarras, exigirá ainda mais receita —já
que cortes de gastos estão fora da mesa. Lula 3 vai deixando herança inglória
para o próximo governo, que tem boa possibilidade de ser Lula 4.
Toffoli faz mera tentativa de redução de
danos
Por Folha de S. Paulo
Apesar de sinalizar mudança, ministro ainda
tem credibilidade abalada e deveria se afastar do caso Master
Recuos parciais de Toffoli atestam que suas
decisões carecem de respaldo técnico, como ordenar uma acareação entre os
suspeitos e o BC
Pela primeira vez desde que assumiu a
relatoria do caso Banco Master,
o ministro Dias Toffoli,
do Supremo Tribunal Federal, reagiu a questionamentos sobre conflitos de
interesse e heterodoxia judicial.
Na quinta-feira (29), afirmou que decidirá,
ao fim das investigações, se o
caso será ou não remetido à primeira instância. É uma sinalização
—tardia— na direção correta. É evidente, como já apontou esta Folha, que
Toffoli perdeu as
condições de permanecer à frente do processo.
A manifestação do magistrado, por ora, é mais
uma tentativa de redução de danos para a reputação da corte. Nada indica que
será possível parar por aí.
Os recuos parciais do ministro ao longo do
processo atestam que suas decisões carecem de respaldo técnico —como ordenar,
ao arrepio dos protocolos ordinários, uma acareação entre os suspeitos e
o Banco Central,
e o depósito no Supremo das provas colhidas pela Polícia
Federal, depois direcionadas para a Procuradoria-Geral da República.
Ademais, nada justifica o sigilo do inquérito
—decretado por Toffoli logo após sua viagem ao Peru na companhia do advogado de
um funcionário do Master. Tal medida, que mina o princípio da transparência,
será mantida até que a PGR se
manifeste.
Não à toa, Toffoli também deu meio passo
atrás nesse ponto e determinou, na última semana, o levantamento de parte do
sigilo de depoimentos prestados à PF no fim de dezembro.
À época, foram colhidos os relatos de Daniel
Vorcaro, dono do Master, Paulo Henrique Costa, ex-presidente do
Banco de Brasília (BRB), e Ailton de Aquino, diretor de fiscalização do BC.
Neles, Vorcaro e Costa divergiram sobre a origem dos créditos falsos do Master
entregues ao BRB.
Segundo Toffoli, o inquérito deve permanecer
sob a sua batuta para evitar que "se apontem nulidades em razão de
observância do foro por prerrogativa de função ou de violação da ampla defesa e
do devido processo legal".
A razão para que o processo esteja no STF, no
entanto, inexiste. O entendimento de que um negócio imobiliário entre Vorcaro e
um deputado federal justificaria a guarida do caso pela mais alta corte do país
carece de solidez na jurisprudência e, portanto, não deveria prevalecer.
Com heterodoxias e opacidade, além de relações anômalas entre partes e ministros, o Supremo passa a ser visto pela sociedade não como o bastião da democracia, imagem que costuma projetar, mas como instituição onde poderosos desfrutam de privilégios ofertados por togas amigas.
O Executivo comanda cada vez menos
Por O Estado de S. Paulo
Após uma década de crises, o Congresso se
fortaleceu enquanto o Executivo perdeu capacidade de coordenação. No terceiro
mandato de Lula, os dados expõem a ineficácia da gestão da coalizão
Não sem hematomas deixados no meio do
caminho, a democracia brasileira atravessou uma sucessão de turbulências na
última década, sustos graves que funcionaram como testes de estresse para suas
engrenagens institucionais. Impeachment presidencial, recessão profunda,
colapso fiscal, avanço do populismo autoritário, pandemia, ataques às
instituições e polarização extrema submeteram o presidencialismo de coalizão –
arranjo central da governabilidade desde a redemocratização – a uma pressão
inédita. O sistema resistiu. Mas resistir não é sinônimo de funcionar bem.
Dos escombros dessas crises emergiu uma
realidade desafiadora: enquanto o Congresso se hipertrofiou em poder, recursos
e iniciativa normativa, o Executivo viu encolher sua capacidade de coordenar
maiorias, definir agenda e transformar liderança política em resultados
legislativos. Uma tendência que chegou ao paroxismo neste terceiro mandato do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, escancarando não só a força de um
Legislativo excessivamente emancipado, mas também a fragilidade de uma gestão
que, embora experiente, tem se mostrado notavelmente ineficaz no manejo, na
articulação e na condução do presidencialismo de coalizão.
Dados divulgados pelo site Poder360 sobre a
taxa de aprovação de medidas provisórias (MPs) oferecem novas evidências desse
esvaziamento. Com apenas 21% das MPs convertidas em lei, o governo Lula 3
registra a pior taxa desde 2003. O contraste histórico é eloquente: no primeiro
mandato, Lula aprovou 91% das MPs; no segundo, 87%. Dilma Rousseff variou de
80% a 77%. Michel Temer – frequentemente apontado como o presidente que melhor
manejou a lógica do presidencialismo de coalizão – converteu 59%. Jair
Bolsonaro ficou em 52%. A curva descendente é contínua.
A literatura especializada aponta na mesma
direção. No livro Por Que
a Democracia Brasileira Não Morreu?, os cientistas políticos Carlos
Pereira e Marcus André Melo mostraram como as reformas políticas dos últimos
anos alteraram a configuração das relações entre governo e Congresso, exigindo
muito mais competência na gestão da coalizão. Não se trata apenas da autoridade
crescente do Legislativo, especialmente via Orçamento, mas também de fatores
como crises econômicas, escândalos de corrupção, impopularidade presidencial,
tamanho e heterogeneidade da coalizão, grau de partilha do poder e capacidade
de coordenação institucional. Os governos lulopetistas, sobretudo neste
terceiro mandato, têm apresentado desempenho particularmente frágil nesses
quesitos, para dizer o mínimo.
A dominância do Legislativo vai além das MPs.
Segundo dados compilados pela dupla de cientistas políticos entre 2018 e 2023,
por exemplo, Câmara e Senado responderam por cerca de 70% das iniciativas que
se transformaram em leis. No atual mandato, o Executivo foi autor de apenas 24%
delas, o menor índice da série. Soma-se a isso a queda da coesão partidária
(como se define o grau de identificação entre o voto de cada parlamentar no
Congresso e a preferência ideológica e política dos seus respectivos partidos),
em grande medida resultado de uma supercoalizão formada por 16 legendas.
Prova de que o “sistema” não explica tudo é o
desempenho legislativo de Michel Temer. Mesmo em ambiente político hostil e
altamente fragmentado, ele construiu uma coalizão mais homogênea, concentrou menos
poder no próprio partido e foi mais bem-sucedido no atendimento dos interesses
do Executivo no Congresso, inclusive diante de uma agenda carregada de reformas
constitucionais.
O presidencialismo de coalizão passou a ser
mais caro, mais transacional e menos eficaz. O Executivo segue arcando com os
custos da governabilidade, mas já não controla boa parte de seus resultados. O
Congresso legisla mais e decide mais, sem assumir responsabilidade equivalente
pela coordenação. Mais do que um detalhe técnico, os números das medidas
provisórias são o sintoma de um rearranjo estrutural que fragiliza o Executivo
e compromete a capacidade do Estado de formular políticas de longo prazo.
Governar, como se vê, tornou-se uma tarefa cada vez mais precária. Persistir nesse
desequilíbrio é aceitar um país em que o poder se dispersa, a responsabilidade
se dilui e o exercício do governo se torna cada vez mais vazio.
Teerã em transe
Por O Estado de S. Paulo
As fissuras da teocracia xiita tornaram-se
fraturas abertas. A barbárie pode ter sufocado esta rodada de protestos, mas
aprofundou de forma irreversível o fosso entre regime e sociedade
A recente onda de manifestações que varreu o
Irã já entrou para a História. Não só por sua magnitude social e geográfica,
mas pela bestialidade da repressão. O que começou como revolta contra a
inflação, o desemprego e o colapso da moeda iraniana, o rial, explodiu num
confronto massivo contra o regime dos aiatolás. Como nunca desde a Revolução
Islâmica de 1979, slogans contra o governo agitaram de bazares a cidades
periféricas, atravessando classes, regiões e gerações. A retaliação foi
selvagem: apagão informacional, terror indiscriminado e massacres.
O governo admite mais de 3 mil mortos.
Organizações de direitos humanos, redes médicas e investigações independentes
operam com estimativas que vão de 10 mil a mais de 40 mil, possivelmente a
maior carnificina de manifestantes do século. A incerteza não decorre de
exagero retórico, mas do método xiita: internet bloqueada, hospitais
intimidados, registros adulterados, cadáveres sepultados às pressas, famílias
coagidas ao silêncio. A opacidade não é efeito colateral da repressão; é um de
seus instrumentos cruciais.
Há relatos de incursões noturnas em
residências, disparos à queima-roupa contra feridos em hospitais, uso
sistemático de tiros na cabeça e nos olhos e extorsão para a devolução de
corpos. Não se trata de excessos episódicos de emissários locais, mas de um
comando do topo: esmagar a dissidência pelo pavor absoluto. Quando se sente
ameaçado, o regime não hesita nem negocia – extermina. E a escala do extermínio
expõe o tamanho da ameaça.
Nada disso autoriza previsões fáceis. Apesar
da magnitude do levante, o sistema ainda não ruiu. A Guarda Revolucionária, ao
que parece, permanece coesa, e o aparato repressivo, funcional. A oposição
segue fragmentada. A resistência no exílio carece de concatenação e
capilaridade. Os clamores por Reza Pahlavi – o herdeiro do xá derrubado pela
Revolução Islâmica – expressam menos a nostalgia de um passado monárquico do
que o desespero de quem procura qualquer alternativa a um regime que já não
governa, só domina.
Externamente, o cenário é ambivalente.
Washington ameaça, mas hesita. Sanções se acumulam, com efeitos devastadores
sobre a população e eficácia limitada sobre os núcleos do poder. Países do
Golfo evitam ser arrastados a um conflito aberto. O resultado é um impasse
agoniante: pressão suficiente para agravar a crise econômica e social, mas
insuficiente para precipitar uma mudança política rápida. O regime pode
sobreviver, mas mais isolado, mais instável e mais truculento.
Sobre esse teatro de horrores pesa um
silêncio ensurdecedor. As militâncias progressistas que inundaram ruas,
universidades, redações e redes sociais com denúncias incendiárias contra
Israel mal balbuciam diante do massacre iraniano. Onde estão os protestos, os
boicotes, as vigílias? A indignação que atravessava oceanos – do exibicionismo
fútil de ativistas como Greta Thunberg às acusações superlativas de governantes
como Luiz Inácio Lula da Silva – já murchara desde que, após o recuo de Israel
em Gaza, o Hamas – uma das milícias jihadistas patrocinadas por Teerã –
recobrou seu reino do terror sobre os palestinos. Agora, evapora-se ante uma
multidão de jovens, mulheres e trabalhadores iranianos trucidados. Será
possível que toda aquela fúria não era, no fim das contas, sobre “direitos
humanos”?
O governo iraniano é uma besta ferida que
reage com brutalidade crescente. A repressão pode ter sufocado esta rodada de
protestos, mas aprofundou de forma irreversível o fosso entre regime e
sociedade. Não há retorno ao “normal”. Há apenas a escolha entre reformas reais
– cada vez mais improváveis – ou a decomposição de uma teocracia que já não consegue
oferecer qualquer vestígio de legitimidade, prosperidade ou esperança.
Não há atalhos edificantes nem desfechos
limpos à vista. Mas fechar os olhos, relativizar o horror ou tratar o massacre
como detalhe geopolítico é abdicar do mínimo critério moral. O certo é que, ao
tentar dar uma demonstração de força, o governo expôs sua fraqueza e seu medo.
Um regime que precisa assassinar milhares para sobreviver já confessou sua
falência. Ainda que não se saiba quando o colapso terminará, ele já começou.
A escolha de Trump para o Fed
Por O Estado de S. Paulo
Entre todos os nomes ventilados para a
posição, Kevin Warsh é o de melhores credenciais técnicas
O presidente dos EUA, Donald Trump, indicou o
economista Kevin Warsh para comandar o Federal Reserve (Fed, o banco central americano)
a partir de maio, quando se encerra o mandato de Jerome Powell. O anúncio
trouxe alívio ao mercado, pois temia-se que, diante da feroz campanha de Trump
para Powell baixar os juros na marra, o escolhido fosse um mero tarefeiro do
presidente. Não é o que parece.
Entre todos os nomes ventilados para comandar
o banco central mais importante do mundo, Trump optou por aquele de melhores
credenciais técnicas. Kevin Warsh foi conselheiro de George W. Bush, trabalhou
no Morgan Stanley, além de ter sido membro do conselho do Fed entre 2006 e
2011, período do estouro da bolha imobiliária que resultou na falência de
instituições financeiras como o Lehman Brothers e em uma grave crise econômica
global.
Para amenizar os impactos da crise, o Fed, à
época, passou a despejar dinheiro na compra de títulos governamentais e outros
ativos financeiros, mecanismo conhecido como quantitative easing (QE). Importante naquele
momento, o QE acabou inchando substancialmente o balanço do Fed.
Warsh é crítico do uso permanente do QE, que
ele já chamou de “Robin Hood às avessas”. Para ele, o mecanismo gera
desigualdade, concentrando riqueza entre a minoria que detém ativos
financeiros, enquanto a renda da maioria esmagadora dos americanos vem do
trabalho.
Quando foi governador do Fed, Warsh ganhou a
reputação de “falcão”, isto é, defensor de política monetária austera para o
combate à inflação.
Mais recentemente, porém, ele, tal como
Trump, vem criticando o Fed por não reduzir os juros. Em julho, quando já
estava em campanha para ganhar a indicação para o posto de Powell, Warsh
defendeu uma mudança de regime no Fed e fez eco às críticas de Trump, segundo
quem o banco central cortou os juros antes das eleições de 2024 por razões
políticas (na visão do republicano, o Fed agiu para ajudar a campanha
democrata).
Ao anunciar Warsh, Trump afirmou em suas
redes sociais que conhece o economista há muito tempo, e que ele jamais
“decepcionará”.
No dia anterior, o mesmo Trump voltou a
chamar Powell de “idiota” e reclamar do Fed, que manteve a taxa de juros nos
EUA entre 3,5% e 3,75% ao ano. A decisão não foi unânime. Dois diretores
alinhados a Trump votaram por um corte de 0,25 ponto porcentual.
Cabe agora ao Senado, de maioria republicana,
aprovar ou não Warsh. O passado do economista certamente deve ser bem visto
pelos senadores, mas é importante ter em mente que mesmo os republicanos têm
demonstrado profundo desacordo com os ataques de Trump contra Powell.
Um deles, Thom Tillis, promete se opor à
indicação até que uma investigação contra Powell seja “resolvida”. O respeito à
autonomia do Fed é um dos raros pontos de consenso entre republicanos e
democratas.
O que se espera é que Warsh se guie pelos dados econômicos e por seu amplo conhecimento de mercado, e não pelos delírios de Trump. Tudo o que o mundo não precisa é de um Fed que, tal como o de Richard Nixon, mantenha os juros baixos artificialmente e perca o controle da inflação.
Indicado para o Fed pode não se adequar ao
figurino Trump
Por Valor Econômico
Kevin Warsh quer limpar o balanço do Fed,
medida que deve elevar os juros de longo prazo
Kevin Warsh vai exercer o posto financeiro
mais importante do mundo em um momento de instabilidade institucional inédita,
após sua indicação pelo presidente Donald Trump, na sexta-feira, para comandar
o Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Republicano conservador,
adepto de Ronald Reagan, ex-assessor do presidente George W. Bush e casado com
a milionária Laura Lauder, do império de cosméticos Estée Lauder, Warsh parece
ter sido a escolha técnica mais sólida do presidente, em uma lista composta na
maioria por fãs incondicionais. Trump reclamou durante meses, no processo de
seleção, de que uma vez no cargo, o escolhido para o banco central muda de
conduta. Warsh pode, como Jerome Powell, igualmente indicado por Trump, seguir
um caminho distinto do esperado pela Casa Branca.
As afinidades com os republicanos são
sólidas. Warsh secretariou o Conselho de Assessores Econômico do presidente
George W. Bush, após dirigir a divisão de fusões e aquisições do Morgan
Stanley. Seu sogro, Ronald, foi um grande doador para as campanhas de Trump, e
um dos que sugeriram a importância da posse da Groenlândia. Da Casa Branca,
Warsh pulou para o Fed, onde, aos 35 anos, foi seu mais jovem diretor.
Ficou de 2006 a 2011 no banco, quando atuou
durante a maior crise financeira de sua geração, e demitiu-se por discordar de
uma das mais importantes medidas para atacar a debacle bancária, que ameaçou
jogar o mundo em uma depressão: o afrouxamento quantitativo, a compra de
títulos do Tesouro e de hipotecas que jogou os juros a zero para manter a
economia à tona.
Essa é até hoje uma de suas principais
críticas à condução da política monetária. Ele acredita que o enorme balanço do
Fed, que já atingiu US$ 9 trilhões e hoje encosta nos US$ 7 trilhões, fruto de
suas compras na crise de 2008 e, depois, na pandemia, é um dos principais
exemplos de como o banco central passou a ocupar um papel onipresente e nefasto
na economia, que não deveria ter em hipótese alguma.
Sob Powell, o banco acaba de interromper o
movimento contrário, do aperto quantitativo, reverso do anterior, em que são
vendidos títulos na carteira do banco para elevar as taxas de juro de longo
prazo. Warsh quer a normalização do balanço, isto é, o enxugamento da enorme
liquidez propiciada pelos movimentos anteriores.
Mais que isso, o indicado para comandar o Fed
acredita que a extensão do balanço e da influência do banco é uma das causas do
aumento da inflação e, depois, de sua resistência à queda. Segundo ele, o
enorme balanço do Fed propiciou ao longo do tempo a "camuflagem dos custos
reais dos gastos públicos".
Paradoxalmente, Warsh também defende que o
banco central e o Tesouro americano deveriam ter mais estreita colaboração, uma
posição que traz consigo dois enormes riscos. O primeiro, de o Fed perder sua
independência em relação ao Executivo, uma conquista histórica que Trump tem se
empenhado o quanto pode para destruir. Como decorrência, o segundo risco é o de
monetizar a dívida pública e sancionar a elevação dos gastos, o que ratifica os
propósitos do presidente com seus cortes de impostos e aumento do déficit
público.
Em palestras, Warsh diz que é favorável à
independência operacional do banco central, o que é um estágio de liberdade
inferior à de que o Fed hoje desfruta. Se aplicar suas ideias à risca, os juros
de longo prazo dos EUA vão subir, o que não se coaduna com a agenda de Trump.
Esse é um dos pontos óbvios potenciais de
atritos futuros com Trump. Os atritos, aliás, podem ser inevitáveis, dadas as
primárias ideias econômicas do presidente. Trump acredita que é possível
reduzir a taxa de juros a 1% (tornando-a negativa diante de uma inflação de
2,7%), ampliar o déficit público com corte de impostos, como fez, aplicar um
choque tarifário global que elevou os preços aos consumidores americanos e, ao
mesmo tempo, ter uma inflação sob controle.
Em participação no Summit Valor Brazil-USA, em maio
de 2024, em Nova York, Warsh lembrou que o governo americano havia feito
grandes gastos para conter os efeitos da pandemia e o Fed havia errado ao
tratar o aumento da inflação naquele período como transitório. A forma de
corrigir aquele cenário, segundo ele, era ter políticas fiscal e monetária mais
responsáveis.
Warsh pensa que a inflação vai cair de
qualquer jeito pela força do aumento de produtividade propiciada pelos enormes
investimentos em inteligência artificial. Assim, comunga com Trump da crença de
que os juros têm espaço para cair mais. Ela não é estranha a boa parte dos
membros do banco, que, em suas projeções, estimam na mediana que a taxa de
longo prazo de juros é de 3%, ante os 3,5%-3,75% atuais. Considerado
"duro" no combate à inflação, porém, Warsh escreveu artigo no Wall
Street Journal pregando queda forte dos juros, o que abre espaço para ceder à
vontade do populismo de Trump em um ano eleitoral decisivo.
Com títulos de Stanford e Harvard, Warsh tem currículo respeitável e capacidade para conduzir a maioria do Fed na direção de suas convicções próprias. Tem várias delas, o que possivelmente o tornará um potencial empecilho às de Trump.
Preservação e segurança ambiental no Brasil
Por Correio Braziliense
Os desafios atuais exigem uma governança
climática participativa, com junção entre tecnologia de ponta, fiscalização
rigorosa e justiça social
A segurança ambiental no Brasil é um tema de
complexidade singular, dada a vasta biodiversidade e seu papel estratégico no
equilíbrio climático global. Ao longo das últimas décadas, o país transitou
entre o pioneirismo em políticas públicas e crises agudas decorrentes de graves
ocorrências, desenhando um cenário de avanços significativos, mas de desafios
persistentes.
O conceito de segurança ambiental ultrapassa
a preservação: trata-se de garantir a estabilidade dos serviços ecossistêmicos
que garantem a vida, sustentam a economia e representam a soberania nacional. A
legislação ambiental brasileira, embora frequentemente alvo de flexibilizações,
é tida como uma das mais completas do mundo. Porém, o que está no papel não tem
se mostrado suficiente para resolver questões antigas e novas que se colocam
como ameaça.
Um dos avanços recentes diz respeito ao
monitoramento remoto. O sistema desenvolvido pelo Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais (Inpe) em operação é uma referência — ele permite o
acompanhamento quase em tempo real do desmatamento na Amazônia e no Cerrado,
por exemplo, fornecendo dados confiáveis. O uso de drones, sensores de fibra
óptica e imagens de satélite tem modernizado a vigilância, permitindo a
detecção precoce de crimes e riscos. Essa transparência de dados é um pilar
fundamental, pois permite que os órgãos de controle ajam com base em
evidências.
Mas se existe melhoria na qualidade das
informações, o sucateamento recorrente das equipes de fiscalização é um gargalo
crítico. A falta de contingente humano e a redução de orçamentos para ações de
campo criam vácuos que, em muitos casos, são rapidamente ocupados por
criminosos ambientais. Para piorar o quadro, a impunidade incentiva a prática
dos delitos e provoca uma descrença na sociedade.
As mudanças climáticas que se intensificam a
cada ano adicionam uma camada de urgência e imprevisibilidade. O aumento na
frequência de eventos extremos — como as secas severas no Pantanal e na
Amazônia ou as enchentes devastadoras no Sudeste e no Sul — demonstra que ainda
não existe um plano de adaptação e resiliência totalmente operacional em
funcionamento. Medidas isoladas são necessárias para dar respostas imediatas,
mas a solução passa por uma visão ampla das questões que afligem os moradores
de cada canto do território nacional.
O que fica claro é que a segurança ambiental
no Brasil está em uma encruzilhada. O país tem o conhecimento técnico e o
arcabouço legal para se tornar uma liderança na economia verde mundial. No
entanto, o sucesso dessa trajetória depende de uma vontade política contínua
que supere ciclos eleitorais. É imperativo que a proteção da riqueza natural
esteja integrada a todas as políticas de desenvolvimento, garantindo que o
progresso econômico não ocorra às custas da exaustão dos recursos.
Os desafios atuais exigem uma governança climática participativa, com junção entre tecnologia de ponta, fiscalização rigorosa e justiça social. A integração entre informações e ações é a nova fronteira para assegurar uma gestão adequada, que garanta a integridade dos ecossistemas. Nesse contexto, o diálogo com a sociedade precisa ser claro e permanente, uma vez que a conservação dos recursos não acontece sem o envolvimento coletivo. O Brasil precisa ultrapassar de forma definitiva as barreiras que comprometem o cuidado dos biomas e impedem o desenvolvimento sustentável. A contenção de danos e a preservação precisam ser tratadas como prioridades se o país quiser evitar um colapso multissetorial em efeito dominó que resulte em prejuízos irreversíveis para o futuro.
Medidas alternativas à prisão merecem
prioridade
Por O Povo (CE)
O Ceará tem uma população carcerária total de
mais de 24 mil pessoas, dado que apresentou crescimento de 20% entre 2023 e
2025. Esses números, embora não estejam em destaque, como o total de
homicídios, roubos, vítimas e apreensões, são igualmente importantes para que a
segurança realmente exista e seja reconhecida pelos cearenses.
Na última semana, O POVO mostrou que, no
Estado, 10.031 pessoas usam tornozeleira eletrônica, mas apenas 14 policiais
penais são responsáveis pelo monitoramento desses equipamentos. A tornozeleira
é usada como medida alternativa à prisão, prevista na Lei nº 12.258/2010, e tem
o objetivo reduzir a superlotação nos presídios.
Para que seja eficaz, a medida precisa ser
bem aplicada, acompanhada e apresentar resultados que contribuam para lidar com
a lógica de mais crimes, mais prisões e mais encarceramento. Precisa ser um
mecanismo de vigilância e controle, que facilite a ressocialização do
condenado.
O problema crônico da superlotação no sistema
carcerário não é um peso apenas brasileiro. Países europeus já exploram a opção
controversa de alugar vagas em prisões no exterior. O governo de El Salvador
ofereceu vagas em presídios para detentos dos Estados Unidos.
No Ceará, em setembro do ano passado, a
Unidade Prisional de Triagem e Observação Criminológica (UP-TOC), em Aquiraz
(RMF), abrigava 1.561 internos, o que correspondia a 419,57% da capacidade
projetada.
No combate à criminalidade, o investimento em
força policial, concursos, viaturas, delegacias e armamento precisa existir. A
estruturação física do sistema penitenciário também deve acompanhar as ações
policiais executadas no cenário atual em relação à atuação de facções
criminosas.
São milhões de reais colocados em iniciativas para garantir o básico à população. E que mesmo em execução, com números crescentes de operações e pessoas presas, ainda assim é difícil sentir a tão falada sensação de segurança. Em um contexto de unidades prisionais lotadas que também são espaço de atuação de organizações criminosas, reforçar o quadro de pessoal e operacionalização das tornozeleiras eletrônicas é urgente, na mesma medida em que é prioridade construir novas celas para comportar mais pessoas que cometeram crimes.

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