Aprovação de Lei Antifacção é avanço contra o crime
Por O Globo
Medidas para enfrentar organizações
criminosas resultam de diálogo saudável entre governo e oposição
Depois das idas e vindas, a Câmara enfim
aprovou em votação simbólica o Projeto de Lei (PL) Antifacção. Embora a
proposta original do governo tenha sido bastante modificada ao longo da
tramitação, o PL, que seguirá para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, representa um passo importante no combate ao crime organizado. Ele dá ao
Estado instrumentos mais consistentes para enfrentar as organizações criminosas
que convulsionam o país.
É certo que o relator do projeto, deputado Guilherme Derrite (PP-SP), poderia ter aproveitado melhor as contribuições do Senado, onde a relatoria do senador Alessandro Vieira (MDB-SE) obteve raro consenso entre governo e oposição. Derrite preferiu restabelecer quase integralmente a versão anterior da Câmara. Mesmo assim, o resultado foi satisfatório. O próprio governo afirmou que ele reflete a “essência” da proposta enviada pelo Planalto.
Um dos principais aspectos do texto,
doravante conhecido como Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, ou Lei
Raul Jungmann, é endurecer a legislação para crimes cometidos por integrantes
de facções. As penas poderão chegar a 40 anos de prisão. Foi retomado o
conceito de “domínio social estruturado” para caracterizar organizações que
exercem controle social ou territorial mediante violência ou
ameaça. Serão punidos bloqueios de vias, barricadas, imposição de regras à
população, ataques a serviços públicos, sabotagem de infraestrutura e
obstáculos à ação das forças de segurança. Crimes de facções serão tratados
como hediondos, reduzindo benefícios penais. A prisão preventiva foi facilitada
para esses crimes. Será criado um banco nacional integrado de dados para
identificar os grupos criminosos, e os líderes das facções terão de cumprir
pena em presídios federais, mais restritivos.
O texto também estabelece medidas para asfixiar
financeiramente as organizações criminosas. Amplia mecanismos de bloqueio e
sequestro de bens, facilita a apreensão de ativos das quadrilhas, impõe
restrições ao uso do sistema financeiro e permite a perda de patrimônio dos
criminosos na fase de inquérito, antes do trânsito em julgado. Abre ainda a
possibilidade de intervenção nas empresas usadas por facções, com afastamento
de sócios, auditoria financeira e liquidação de ativos. A destinação dos
recursos apreendidos com criminosos — uma das fontes de impasse antes da
aprovação — foi pacificada depois de diálogo entre o relator e o Planalto. O
texto final procurou evitar a pulverização, preservando a capacidade de
planejamento nacional das ações. Uma das preocupações do governo era que a
Polícia Federal perdesse suas fontes de financiamento, mas isso não deverá
acontecer.
Espera-se que Lula sancione o projeto. Ele é
fruto do debate saudável entre governo e oposição. Não há dúvida de que
contribuirá para o combate às facções, chaga que há décadas aflige o país. Não
se pode ficar de braços cruzados enquanto grupos armados sequestram o espaço
público, se infiltram no mercado formal e em instituições do Estado, exploram
atividades ilegais e subjugam a população. Não se deve imaginar que a nova lei
resolverá problema tão grave e complexo. Mas é um passo na direção certa.
Agora, parlamentares deveriam acelerar a Proposta de Emenda à Constituição
(PEC) da Segurança, que repousa no Congresso. Com as duas legislações, o avanço
será ainda maior.
Aumento de alíquotas de importação é
contraproducente para a economia
Por O Globo
Governo insiste no protecionismo e pune
setores produtivos com máquinas e bens digitais mais caros
A decisão do governo brasileiro de elevar as
alíquotas de impostos de importação entre 7% e 20% para mais de mil produtos
dos setores de bens de capital e informática e telecomunicações carece de
lógica. Com a intenção de proteger e incentivar a produção local, o governo
prejudica indústrias e consumidores. Máquinas e produtos de informática de
última geração são imprescindíveis para que as empresas brasileiras tenham
condições de competir nos mercados internacionais. Ao encarecer esses equipamentos,
o governo torna as exportações industriais brasileiras menos atraentes. O
imposto mais alto também tem impacto negativo no mercado doméstico, pois
aumentos de custos são repassados de forma automática a consumidores locais.
Crítico da política protecionista do presidente americano, Donald Trump, o
governo brasileiro insiste em cometer o mesmo erro.
O efeito será sentido de forma mais aguda nos
setores de metalurgia, mecânica, automotivo, alimentos e bebidas, papel e
celulose, farmacêutico, mineração, óleo e gás, energia, construção pesada,
logística e agronegócio. Não há sentido em manter taxação tão alta sobre
computadores ou smartphones, hoje ferramenta de trabalho para milhões de brasileiros
também na prestação de serviços.
A possibilidade de zerar o imposto de
importação para alguns itens estrangeiros sem similar no Brasil e a preservação
dos regimes especiais vigentes não mudam o quadro geral. Ficou mais caro
investir em eficiência e em novos negócios baseados na economia digital. Essa
realidade ressalta a teimosia extraordinária dos governos petistas em apostar
no protecionismo como alavanca de desenvolvimento. Se proteger a indústria
local fosse uma política eficaz, o Brasil já seria potência fabril há muito
tempo.
Na tentativa de se justificar, o Ministério
da Fazenda publicou nota mencionando o aumento da participação de bens de
capital importados no consumo nacional (de 33,6% em 2017 para 45% no ano
passado). Incluindo bens de informática, as importações cresceram 33,4% em
dólar desde 2022. “Em 2025, as importações especificamente de máquinas e
equipamentos alcançaram US$ 28,8 bilhões, mais que o dobro das exportações,
estimadas em US$ 11,5 bilhões”, diz o governo. Ora, tais números deveriam ser
motivo de celebração, indício da modernização das empresas brasileiras, com
acesso a equipamento de melhor qualidade e mais baratos que os produzidos
localmente.
A Fazenda aponta como ameaça a ascensão chinesa nos setores de bens de capital, aço e tecnologia. Mas, para enfrentar eventuais práticas desleais chinesas, há outros mecanismos mais eficazes que as tarifas. A China, por sinal, nem será o país mais afetado pela medida brasileira. Quem mais perderá são os Estados Unidos.
Lula cede à baderna e paralisa projetos de
infraestrutura
Por Folha de S. Paulo
Após invasão de propriedade por indígenas
contrários a estudos de hidrovias, governo anula decreto
Demandas devem ser canalizadas pelas vias
democráticas, e não por meio da depredação de ativos essenciais ao agronegócio
A recente
anulação do decreto presidencial 12.600/2025, que previa estudos
para a concessão de hidrovias nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, é um
exemplo pedagógico e inaceitável de como a conveniência política de curto prazo
pode sabotar o planejamento estratégico do país.
Ao interromper um processo que visava tão
somente a análise técnica de viabilidade, o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
não apenas trava a necessária modernização logística, mas sinaliza que a
truculência é um método de negociação aceitável no Brasil contemporâneo.
As hidrovias são fundamentais para o
escoamento da safra e de minérios, representando uma alternativa de transporte
mais eficiente e com menor emissão de carbono. É um contrassenso que o Palácio
do Planalto tenha desistido de obter dados técnicos independentes antes mesmo
de qualquer obra ser licitada.
O decreto não era um salvo-conduto para a
degradação, mas o ponto de partida para entender como conciliar desenvolvimento
e preservação na região.
O que determinou a paralisia do projeto não
foi o debate de ideias, mas a coerção exercida por movimentos indígenas.
Sob a liderança do Conselho Indígena Tapajós
Arapiuns, o que se viu foram táticas deliberadamente hostis: o bloqueio de
acessos portuários evoluiu para a
invasão do terminal da Cargill, em Santarém, paralisando operações
privadas legítimas.
O grupo não se limitou ao Pará,
promovendo ameaças e
vandalismo contra a sede da empresa em São Paulo e a
interceptação de uma balsa carregada de grãos. O desprezo pelo Estado de
Direito culminou na decisão de desconsiderar uma ordem judicial de desocupação,
optando por invadir as áreas internas da companhia para elevar ainda mais a
tensão.
A tentativa do ministro Guilherme
Boulos (Secretaria-Geral) de classificar a capitulação como
"escuta ativa" é um acinte que não resiste aos fatos. Em um ano
eleitoral, Lula parece mais preocupado em blindar sua imagem junto a setores
radicais de sua base, como o simpatizante PSOL de
Boulos, do que em garantir a segurança jurídica para atrair investimentos.
O receio de criar desgastes com movimentos
sociais em um momento de articulação política levou o governo a aceitar uma
chantagem explícita.
É legítimo que comunidades tradicionais
exijam consultas prévias e manifestem preocupações com a segurança alimentar e
o ecossistema. Contudo tais demandas devem ser canalizadas pelas vias
democráticas, e não por meio de ameaça a ativos essenciais ao agronegócio.
Ao ceder à baderna, Lula cria um precedente
inaceitável: o de que, para derrubar uma política de Estado, basta atropelar a
lei e a propriedade privada. O resultado será um país com infraestrutura precária
e instituições fragilizadas pela força bruta sancionada pelo presidente da
República.
Polilaminina é promissora, mas deve superar
testes clínicos
Por Folha de S. Paulo
De cada 10 candidatos a medicamento, 9 ficam
no meio do caminho, sendo reprovados nas fases 1, 2 ou 3
A alta taxa de reprovação é consequência do
fato de que que há muita coisa para dar errado ao se desenvolver uma nova droga
A polilaminina é
uma substância promissora. Se ela vier a se converter em tratamento eficaz para
lesões medulares graves, será façanha digna de Prêmio Nobel de Medicina.
O problema é que entre uma molécula
auspiciosa e uma droga eficaz temos o que pesquisadores da área de medicamentos
chamam de "vale da morte". De cada 10 candidatos a remédio que entram
em testes clínicos, 9 ficam no meio do caminho, sendo reprovados nas fases 1, 2
ou 3.
De acordo com estudo de 2022 da Universidade
de Michigan, a maioria dos medicamentos potenciais fracassa por falta de
eficácia terapêutica (40% a 50%), excesso de toxicidade (30%) ou propriedades
farmacológicas inadequadas (10% a 15%).
A alta taxa de reprovação não é consequência
de sadismo ou derrotismo dos reguladores, mas do fato de que há muita coisa
para dar errado no desenvolvimento de uma droga. Efeitos adversos menos
frequentes, mas ainda assim capazes de inviabilizar o produto, só aparecem
quando um número suficientemente grande de pacientes é testado.
A polilaminina acaba de receber
licença da Anvisa para os testes de fase 1, ainda em pequena escala
e que busca estabelecer a segurança do produto. Por mais animadores que tenham
sido os indícios de eficácia da substância recolhidos na fase pré-clínica e nos
casos de autorização especial da Justiça, o fato é que a jornada de
avaliação da molécula está apenas começando.
Uma ou outra adaptação pode ser feita para
adequar o processo de testagem ao tipo de droga que se quer aprovar e a
características da moléstia que ela pretende tratar. No entanto em hipótese
alguma deve-se dispensar o uso de controles rigorosos. Sem eles, não é possível
nem mesmo saber se o candidato a medicamento de fato funciona.
Não faltam exemplos históricos de desastres
decorrentes de falhas na regulação. O mais célebre deles é o caso da
talidomida, comercializada nos anos 1950 e 1960 como remédio contra o enjoo de
grávidas. A droga era teratogênica e deixou uma legião de cerca de 10.000 bebês
com graves deformações (focomelia).
O problema foi particularmente grave na Europa e no Brasil, mas quase inexistente nos Estados Unidos. Porque ali os reguladores foram mais exigentes e não liberaram a droga, afirmando que o laboratório não conseguira demonstrar sua segurança. Nos anos 1990, foi a vez de os reguladores americanos falharem, liberando com poucas restrições a oxicodona, pavimentando assim o caminho para a crise dos opioides.
Teologia da incompetência
Por O Estado de S. Paulo
Declaração do CEO da Enel, segundo a qual ‘só
Jesus’ pode evitar apagões em SP, é reconhecimento da incapacidade da empresa
de prestar um serviço público essencial na maior cidade do País
“Só Jesus Cristo” teria o poder de evitar
apagões em São Paulo, disse recentemente o CEO global do grupo Enel, Flavio
Cattaneo, em evento organizado pela empresa para investidores e analistas de
mercado em Milão. A frase – uma piada de mau gosto ante o padecimento dos
paulistanos – é o reconhecimento da incapacidade da companhia de prestar um
serviço público essencial na maior cidade do País.
O sr. Cattaneo alegou que São Paulo é a única
grande cidade do mundo em que as redes são aéreas. Ora, sempre foi assim, e
isso não explica a ocorrência de tantos apagões de longa duração nos últimos
dois anos. Tal característica tampouco foi empecilho para a compra da antiga
Eletropaulo, em 2018. A Enel, por sinal, jamais havia aventado a possibilidade
de enterrar a fiação até ter sua atuação contestada pelas autoridades e pela
população paulistana.
Relatório técnico da Agência Nacional de
Energia Elétrica (Aneel) sobre o blecaute ocorrido em dezembro – o terceiro de
grandes proporções desde 2023 – mostrou “baixa produtividade das equipes,
redução significativa de equipes durante o período noturno, proporção baixa de
veículos de grande porte e indícios de falhas ou falta de manutenção nas
redes”.
Como se vê, são problemas de gestão que não
carecem de um milagre para serem solucionados. A vantagem é que resolvê-los é
mais simples, rápido e barato do que construir uma rede de linhas subterrâneas.
A desvantagem é que a Enel São Paulo tem reiteradamente descumprido os planos
de contingência com os quais se comprometeu junto à Aneel e não parece disposta
a ajustar seu comportamento.
Se isso é ruim para a imagem da empresa, é
ainda pior para a agência, que parece incapaz de fazer valer sua autoridade
enquanto órgão regulador perante a população paulistana que, com razão, perdeu
a paciência. É um terreno fértil para exploração política, sobretudo quando há
eleições no horizonte.
Aproveitando-se do fato de a distribuição de
energia elétrica ser uma responsabilidade da União, segundo definiu a
Constituição, e não do Estado ou do município, o governador de São Paulo,
Tarcísio de Freitas, e o prefeito da capital, Ricardo Nunes, não têm perdido a
oportunidade de desgastar o governo Luiz Inácio Lula da Silva.
Tarcísio, um defensor da atuação do setor
privado na infraestrutura, prometeu não descansar até “varrer” a empresa de São
Paulo. Nunes, por sua vez, viu na crise uma oportunidade de terceirizar para a
Enel São Paulo a culpa pelos problemas de zeladoria na cidade, como se poda e
manejo não fossem atribuições do município.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre
Silveira, até ensaiou comprar a briga, mas largou a mão da empresa após o
apagão do fim do ano passado. Restou à Aneel a difícil posição de pregar no
deserto e defender o atendimento aos ritos de um processo de caducidade da concessão,
que é moroso e inclui o direito da empresa à ampla defesa, sob pena de
invalidá-lo e dar ensejo a uma longa batalha judicial com a Enel.
Pois o diretor-geral da Aneel, Sandoval
Feitosa, parece ter se cansado dessa encenação. Para desconforto de seus pares,
ele declarou apoiar a cassação do contrato e a intervenção na Enel São Paulo em
uma reunião pública na qual o tema nem sequer estava em pauta – algo impensável
em outros tempos.
Pudera. A reunião ocorreu no dia seguinte à
infeliz declaração do CEO do grupo italiano. Soou, por óbvio, como um deboche
perante uma agência que tenta arduamente cumprir sua missão de regular e
fiscalizar o setor elétrico sem parecer inerte.
Além de recorrer a Jesus, o sr. Cattaneo
descartou a possibilidade de vender a concessão, disse ter a expectativa de
renovar o contrato que vence em 2028 por mais 30 anos e ainda propôs substituir
as árvores da capital paulista por outras de menor porte.
Mas a população paulistana não precisa rezar
para se livrar da Enel São Paulo. Como disse Feitosa, a Enel perdeu a
“legitimidade social” para continuar a prestar o serviço de distribuição de
energia elétrica em São Paulo. O mais provável é que as concorrentes ainda não
tenham chegado no preço que o executivo considera justo para deixar o negócio.
Copo meio cheio para o Brasil
Por O Estado de S. Paulo
O Brasil é um dos menos afetados pelo novo
tarifaço global de Trump, mas, em cenário ainda extremamente incerto, o País
precisa manter-se pragmático e ampliar parcerias comerciais
A nova tarifa global de 10% sobre exportações
para os EUA, recém-imposta pelo presidente Donald Trump, acabou beneficiando os
países antes mais penalizados pelo republicano com sobretaxas draconianas,
casos do Brasil e também de China e Índia.
Desautorizado pela Suprema Corte americana,
que invalidou as tarifas impostas por Trump, em 2025, com base na Lei de
Poderes Econômicos de Emergência Internacional (Ieepa, na sigla em inglês), o
republicano contra-atacou imediatamente.
Desde o dia 24 de fevereiro, exportações de
todo o mundo destinadas aos EUA são, em geral, sobretaxadas em 10%. Trump
chegou a anunciar uma alíquota maior, de 15%, mas por ora está em vigor, por um
período de 150 dias, a de 10%. Depois disso, a tarifa só poderá ser cobrada com
autorização do Congresso americano.
É assim que Trump reage ao que classifica
como decisão “ridícula” e “antiamericana” da instância máxima de Justiça dos
EUA – que na verdade apenas validou o que determina a Constituição: o poder de
tributar pertence ao Congresso.
Em um primeiro momento, o Brasil se
beneficiará da nova tarifa intempestiva de Trump porque muitas de nossas
exportações para os EUA ainda estavam sujeitas a uma tarifa de 50%, e agora
enfrentarão apenas 10% de sobretaxa.
No fim do ano passado, pressionado pela
carestia que machucava o bolso dos americanos, Trump derrubou a chamada tarifa
adicional de 40% sobre produtos brasileiros como a carne e o café, mas itens
como manufaturados e pescados seguiram penalizados com a taxa mais severa.
De acordo com o Global Trade Alert, entidade
que monitora políticas governamentais que afetam o comércio internacional, a
taxa média efetiva cobrada sobre produtos brasileiros que adentram os EUA deve
ficar em 10,8% – antes da decisão da Suprema Corte era bem maior, de 26,3%.
O vice-presidente Geraldo Alckmin, também
titular do Ministério da Indústria e Comércio, entende que a nova tarifa de
Trump é positiva para o Brasil, já que, anteriormente, outros países pagavam
alíquotas mais baixas que o nosso. De acordo com a pasta, quase a metade das
exportações brasileiras para os EUA passa a não pagar nenhuma tarifa adicional.
De fato, como corrobora o Global Trade Alert, o copo se apresenta meio cheio
para o Brasil.
Ocorre que o cenário para o comércio global
segue sendo de extrema incerteza. Apesar de correta, a decisão da Suprema Corte
dos EUA gera novas e substantivas inquietações.
A principal delas tem cifra: US$ 133 bilhões,
o montante que os EUA arrecadaram até dezembro do ano passado com o tarifaço de
Trump, agora declarado ilegal. Tal montante será restituído? Em caso positivo,
como e de que forma? São perguntas que ainda carecem de resposta, e que por ora
deixam mercados e governos mundo afora em uma zona cinzenta.
Além disso, o Escritório do Representante de
Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) segue com a investigação sobre
práticas comerciais com base na Seção 301. No caso específico do Brasil, o USTR
avalia se práticas e políticas do governo brasileiro que vão do acesso ao
mercado de etanol, passando pelo desmatamento ilegal até serviços de pagamento
eletrônico, são ou não desleais. Tais investigações podem resultar em novas
tarifas contra o Brasil.
Por tudo isso, convém que o governo
brasileiro siga se pautando pelo pragmatismo que felizmente, até agora, tem
norteado o relacionamento com os EUA de Trump. Ademais, é preciso seguir
investindo no aprofundamento de relações com outros parceiros comerciais.
Nesse sentido, as visitas recentes do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Índia e à Coreia do Sul, bem como o fechamento
de acordos envolvendo terras raras com os indianos e a retomada das negociações
envolvendo o Mercosul com os coreanos, são extremamente bem-vindas.
Já em relação aos EUA, a boa “química”
estabelecida entre Trump e Lula enfrentará um teste de realidade, já que em
breve o brasileiro irá a Washington visitar o americano. Para que o copo do
Brasil não se esvazie, além da boa conexão entre os dois líderes, é fundamental
que a racionalidade impere.
O sucesso do carnaval de SP
Por O Estado de S. Paulo
Com organização exemplar, festa de rua reuniu
milhões de foliões, sem graves incidentes
O carnaval de rua de São Paulo de 2026, salvo
um ou outro episódio de desorganização, foi um sucesso. Pode-se dizer que o
gigantismo da folia paulistana alcançou um ponto de não retorno, a ocupação das
ruas durante esses dias veio para ficar e a festa parece ter entrado de vez
para o calendário dos grandes eventos turísticos da cidade, como a Fórmula 1 e
a Parada do Orgulho LGBT+.
Pela primeira vez, ressalte-se, a
infraestrutura do carnaval de rua paulistano não contou com dinheiro público. O
evento foi totalmente bancado com recursos da iniciativa privada, o que prova
que se trata de um ótimo negócio.
Uma cervejaria destinou R$ 30,2 milhões à
organização dos locais dos desfiles, sinalização dos circuitos, produção de
materiais informativos e contratação de banheiros químicos e equipamentos. Em
troca, as marcas da empresa foram expostas a um público de mais de 16 milhões
de foliões, que movimentaram R$ 4 bilhões em oito dias de festa.
É claro que houve os queixosos,
principalmente os blocos de carnaval que esperavam mais ajuda da Prefeitura –
leia-se, dinheiro público – para custear a sua folia. Poucos dias antes de o
carnaval começar, o prefeito Ricardo Nunes deu seu recado: São Paulo é
empreendedora, e aos blocos acostumados com o financiamento estatal só restaria
ir à luta por patrocínio.
Esse desmame promovido pela gestão Nunes não
frustrou a festa – pelo contrário. Nunca tantos blocos desfilaram em São Paulo
como em 2026. Foram mais de 600 grupos de foliões espalhados por todas as
regiões da metrópole, com os mais variados estilos musicais, como axé, pagode,
sertanejo, pop e música eletrônica.
Após sustos no pré-carnaval, principalmente
na região do Parque Ibirapuera, na zona sul, por causa da superlotação, o
esquema de segurança foi ajustado. Houve controle de acesso do público e
revistas realizadas por seguranças contratados, com a supervisão da Guarda
Civil Metropolitana (GCM) e da Polícia Militar (PM), sem nenhum incidente
grave.
Aliás, o efetivo da GCM foi reforçado em 20%
em relação a 2025, e foram mais de 7,2 mil agentes municipais e PMs nas ruas
neste ano, além do apoio de 482 câmeras do programa Smart Sampa e de 23 drones.
Com mais policiais, alguns dos quais fantasiados para enganar os bandidos
infiltrados na multidão e prendê-los em flagrante, o índice de furtos e roubos
de celulares caiu 16% em São Paulo, passando de 2.506 ocorrências, no ano
passado, para 2.088, neste ano.
Tal esquema de guerra permitiu a realização
de um evento de dimensões superlativas, com os blocos gigantes e os pequenos
desfilando em relativa paz. Ademais, de um modo geral, as intervenções na
rotina da cidade, com o fechamento de ruas e avenidas, foram em sua maioria
toleráveis, graças à rígida fiscalização da Prefeitura em relação aos horários
dos cortejos.
É preciso reconhecer: a organização do carnaval melhorou muito em São Paulo nos últimos anos, deixando de ser um momento de anarquia, sujeira e conflito social para se tornar um chamariz para turistas do Brasil e do exterior. Com isso, ganham todos.
STF amplia ações para pôr fim à farra de
penduricalhos
Por Valor Econômico
É possível que com a pressão social, a
persistência de ministros do Supremo e alguma dose de civismo do Legislativo
seja possível criar regras justas e transparentes para as indenizações
As decisões dos ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, com intervalo de 20 dias, são as mais sérias tentativas feitas até agora para conter a enxurrada bilionárias de benefícios autoconcedidos por membros do Judiciário e do Ministério Público. Grande parte da elite do funcionalismo público recebe vencimentos que ultrapassam com folga o teto constitucional, de R$ 46.366,19, ao qual todos deveriam estar submetidos. As decisões, seguidas de reunião do presidente do STF, Edson Fachin, com os líderes da Câmara, do Senado e membros do TCU e da Procuradoria Geral da Fazenda, indicam que a farra dos “penduricalhos” poderá ser contida.
O ministro Flávio Dino, em 5 de fevereiro,
determinou que Legislativo, Executivo e Judiciário reavaliem o fundamento legal
de todas as verbas indenizatórias e suspendam após esse prazo as benesses
criadas sem amparo legal - leis aprovadas pelos Legislativos federal, estadual
e municipal, segundo Dino -, o principal caminho utilizado para romper o teto
salarial do funcionalismo.
A ação de Dino veio dias após o Congresso
aprovar reajuste salarial para seus funcionários, estendendo aos servidores
graduados vantagens gozadas pelo Judiciário, como a de um dia de folga para
cada três trabalhados, passível de conversão em dinheiro, um dos mecanismos
pelos quais o teto remuneratório legal tem sido trespassado.
Anteontem, o ministro Gilmar Mendes apertou o
cerco aos penduricalhos, determinando que em 60 dias Tribunais estaduais e
federais e Ministérios Públicos estaduais suspendam verbas indenizatórias
criadas com base em leis estaduais. Para o ministro, apenas determinação
expressa em lei votada pelo Congresso Nacional regula as indenizações, não
decisões administrativas e atos normativos, inclusive do Conselho Nacional de
Justiça e Conselho Nacional do Ministério Público, que têm sido usadas para
criá-las em série.
O norte da intervenção de Mendes, e um dos
pivôs da proliferação de penduricalhos, está na Emenda Constitucional 135,
aprovada em 2024, que isenta do teto remuneratório parcelas de indenização
“expressamente previstas em lei ordinária, aprovada pelo Congresso Nacional, de
caráter nacional, aplicada a todos os Poderes e órgãos constitucionalmente
autônomos”. Essa lei nunca foi votada.
Antes da emenda, surgiram tentativas de
regulamentação que não avançaram. Está parado no Senado, depois de aprovado
pela Câmara em 2021, o PL 2721/21, que relaciona nada menos de 32 situações em
que as indenizações seriam devidas. Diante da permissividade com que órgãos da
magistratura e do MP criam vantagens para si próprios, seria talvez um avanço -
a Transparência Brasil contabilizou a existência de 60 categorias de benefícios
criados com esse fim.
Se no passado não era claro o volume de
recursos dispendidos com regalias, especialmente do Judiciário, que o colocaram
no ranking de um dos mais caros do mundo, agora houve um salto de transparência
com a investigação de organizações da sociedade civil e meios de comunicação.
Os gastos com pagamentos acima do teto a magistrados saltaram de R$ 7,2 bilhões
em 2024 para R$ 10,3 bilhões no ano passado, um aumento de 43%, pelos dados do
CNJ. Em 2025, o ganho médio de um magistrado foi de R$ 81.495, segundo a
Transparência Brasil. Nada menos de 98% de promotores e procuradores do MP
receberam vencimentos acima do limite constitucional.
Enquanto debatia a jornada de trabalho 6x1, o
Congresso aprovou a extensão da jornada 3x1 para funcionários de alto escalão:
o direito a uma folga a cada três dias trabalhados, conversível em dinheiro. O
presidente Lula vetou o benefício que, no caso do Judiciário, é maior - juízes
têm dois meses de férias por ano e podem vender 20 dias não gozados.
A interrupção provisória da farra das
indenizações, sobre as quais não incide Imposto de Renda, foi seguida de
reunião com Hugo Motta, presidente da Câmara, e Davi Alcolumbre, do Senado, um
desdobramento lógico porque cabe ao Legislativo aprovar lei disciplinando o
assunto. Foi criado um grupo de trabalho para a elaboração em 60 dias de uma
regra de transição sobre o assunto.
O argumento na reunião dos líderes políticos
foi mais um exemplo de por que o festival de penduricalhos não foi contido
antes. O ano eleitoral, segundo eles, não seria época propícia para votar uma
lei já exigida pela emenda constitucional desde 2024, porque deputados e senadores
não querem se indispor com os funcionários públicos, na verdade com sua elite.
Mas o Ministério da Fazenda apresentou ao Legislativo propostas para conter os
supersalários em um dos pacotes para conter gastos, no entanto o Congresso
sequer quis discutir o assunto. O Supremo tampouco se indispôs com seus pares,
apesar de ter julgado desde 2000 mais de 12 mil casos sobre o limite máximo de
remuneração, como citou o ministro Flávio Dino.
É possível, porém, que com a pressão social, a persistência de ministros do Supremo, que antes deixaram de lado a questão, e alguma dose de civismo do Legislativo seja possível criar regras justas e transparentes para pôr fim a privilégios bilionários para poucos.
STF condena a violência política que matou
Marielle
Por Correio Braziliense
Um país não protagoniza disputas republicanas
de projetos de governo ou de pretensões legislativas com candidaturas
oprimidas. A realidade do Brasil impõe mudanças nas relações de gêneros em
todas as instâncias do campo político
A primeira turma do Supremo Tribunal Federal
(STF) concluiu o julgamento dos mandantes e autores do assassinato da vereadora
Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, ocorrido em 2018. As penas variam
de nove a 76 anos de prisão entre os cinco condenados pelos ministros. A
decisão, por unanimidade, precisa ser entendida como um recado aos que ignoram
a legislação e apelam à violência para alcançar interesses pessoais ou de
grupos, desvirtuando as disputas políticas.
A vereadora foi vítima da extrema violência
de gênero que contamina os poderes constituídos. Um empenho masculino em
invisibilizar as mulheres que não é só desrespeitoso, mas um sequestro da
equidade de gênero com repercussões diversas. Agressões verbais durante sessões
oficiais, discursos atropelados por intervenções agressivas de homens e
disseminação de fake news, turbinadas pela inteligência artificial (IA), fazem
parte da realidade daquelas que insistem em ocupar espaços ainda reconhecidos
como exclusivamente masculinos.
A misoginia começa na escolha de candidatos
aos cargos eletivos. De acordo com a Lei nº 12.034/2009, a minirreforma
eleitoral, as mulheres têm que ser 30% dos candidatos às disputas eleitorais
para os Legislativos municipais, estaduais e federal. Mas, na prática, a
legislação não é cumprida em todos os estados e municípios. Segundo o Mapa
Mulheres 2025, da Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil está na 133ª
posição no ranking global de representação de mulheres no Congresso Nacional —
o que bem ilustra o drible dos líderes partidários a fim de favorecer os
homens. Das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados, apenas 51 são ocupadas por
mulheres (menos de 10%); e das 81 do Senado, elas têm só 13 (16%).
Parlamentares argumentam que não têm culpa
diante da escolha dos eleitores. Mas, para além da falta de empenho das
legendas em apoiar candidaturas femininas, há um ambiente de disputa misógino e
agressivo que afasta as interessadas em trilhar carreira pública. Esse ambiente
opressor chegou ao ápice com o cruel homicídio de Marielle Franco. No
entendimento do ministro relator do processo, Alexandre de Moraes, a vereadora
era um "obstáculo relevantíssimo" aos interesses econômicos e políticos
dos mandantes. "Se juntou a questão política com misoginia, com racismo,
com discriminação (...) Na cabeça misógina de executores, quem iria ligar pra
isso?", referiu-se o ministro à execução da vereadora.
Não há pudor para matar, muito menos para
outras práticas abusivas. O Observatório da Violência Política e Eleitoral no
Brasil, elaborado pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
(Unirio), mostra que, no quarto trimestre de 2025, mulheres foram alvo,
sobretudo, de violências semióticas: 22 casos, representando 81,5% desse
tipo de abuso. Nos três casos de violência sexual contabilizados, todas as
vítimas eram mulheres.
Um país não protagoniza disputas republicanas de projetos de governo ou de pretensões legislativas com candidaturas oprimidas. A realidade do Brasil impõe mudanças nas relações de gêneros em todas as instâncias do campo político. Sobretudo em um ano eleitoral, a decisão do STF precisa ser um sinal incontestável de que não pode haver mais espaço para aqueles que trabalham contra a equidade de gêneros, coerente e concebida pelo regime democrático.
Irmãos Brazão condenados pela morte de
Marielle
Por O Povo (CE)
Relatório da Polícia Federal diz que
"inexistem dúvidas" da atuação dos acusados nos crimes dos quais são
acusados
Depois de oito anos, o assassinato da então
vereadora da cidade do Rio, Marielle Franco, e de seu motorista Anderson Gomes
teve um desfecho na Justiça. Na quarta-feira, a Primeira Turma do Supremo
Tribunal Federal (STF) condenou, por unanimidade, os irmãos Domingos e
Chiquinho Brazão como mandantes da morte de Marielle e Anderson.
Na época do crime, Domingos era conselheiro
do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro e Chiquinho exercia o cargo
de vereador da capital fluminense. A pena determinada para cada um dos réus foi
de 76 anos e três meses de prisão pelos crimes de duplo homicídio, homicídio
tentado e organização criminosa armada. Ainda cabem recursos no processo, mas a
possibilidade de mudar a sentença é praticamente nula, principalmente porque a
condenação ocorreu por unanimidade.
Os executores do crime Ronnie Lessa e Élcio
Queiroz já haviam sido condenados em março de 2024. As penas foram de 78 anos e
9 meses e de 59 meses e 8 meses de prisão, respectivamente.
Até a condenação dos mandantes, parentes e
amigos de Marielle e Anderson percorreram um duro caminho, inclusive
enfrentando entraves quando as investigações foram conduzidas pela Polícia
Civil do Rio de Janeiro, inclusive com a constante troca de delegados. A
pressão sobre a família é tão forte que o pai, a mãe e a filha de Marielle
passaram mal durante o julgamento no STF.
As investigações ganharam impulso após a
Polícia Federal (PF) assumir as investigações. Em março de 2024, o delegado
Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil do Rio, foi preso em uma operação da
PF, suspeito de ter usado seu cargo para dificultar a identificação dos
mandantes.
Um relatório da Polícia Federal de mais de
400 páginas revelou divergência entre Marielle Franco e o então vereador
Chiquinho Brazão, que tinha interesses em projetos de regularização fundiária,
com o fim de lucro, que estavam em votação na Câmara.
O ministro Flávio Dino citou a comprovação de
vínculos objetivos entre os réus e integrantes da organização criminosa,
inclusive provas documentais de atuação em áreas dominadas por milícias. Esses
locais envolviam disputas imobiliárias ou “grilagem de terras”, como afirmou o
ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, na época em que foram apresentados
os nomes dos mandantes. A atuação de Marielle atrapalhava esses negócios.
O relatório da Polícia Federal, citado pelo
relator do processo, ministro Alexandre de Moraes, diz que "inexistem
dúvidas" da atuação dos irmãos nos crimes dos quais são acusados.
Infelizmente, depois da morte de Marielle e Anderson, pouco coisa mudou na segurança pública. As facções criminosas continuam atuantes e cada vez mais estendem os seus tentáculos, espalhando-se por todo o Brasil, desafiando quem ousa contrapor-se aos seus interesses. Um sinal, ainda fraco, de que isso pode estar mudando, foi a aprovação do PL Antifacção na Câmara dos Deputados. Outro passo importante seria a aprovação da PEC da Segurança Pública, que também tramita na Câmara dos Deputados.

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