Trump é cabo eleitoral inesperado de Lula, até agora
Por Folha de S. Paulo
Petista ganhou força política com tarifaço e
se beneficia na economia com a queda do dólar
Capitais que deixam os EUA alimentam recordes
na Bolsa de Valores, mas trunfo é inseguro porque se trata de dinheiro
especulativo
Boa parte do sucesso dos dois primeiros
governos de Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
se deveu a uma conjuntura internacional excepcionalmente favorável para os
países exportadores de produtos primários agrícolas e minerais.
Impulsionado pela demanda da China, o boom de commodities catapultou o crescimento de economias emergentes e, no caso brasileiro, levou a um aumento da arrecadação de impostos que equilibrou as contas públicas.
Lula teve a sensatez de aproveitar o período
para acumular vultosas reservas em dólar e,
ao contrário do que fizeram seus congêneres na Venezuela e na Argentina, não
dilapidou os ganhos da bonança. Sua sucessora e correligionária, Dilma
Rousseff, é que poria tudo a perder.
Neste seu terceiro mandato, o líder petista
não conta com ventos externos tão favoráveis nem mostra a prudência
orçamentária de outrora, o que faz antever uma disputa árdua pelo Planalto em
outubro. Ele conseguiu, porém, um cabo eleitoral inesperado —Donald Trump.
A primeira grande ajuda involuntária do
presidente americano ao brasileiro foi o estúpido choque tarifário, no ano
passado, descaradamente apresentado como retaliação ao julgamento de Jair
Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado.
Ali, o republicano logrou a tripla proeza de
entregar a Lula o papel de defensor dos interesses nacionais ante uma agressão
estrangeira, tornar a condenação de Bolsonaro ato de soberania institucional e
opor lideranças de direita às forças produtivas.
Foi um erro tão crasso que até o tresloucado
Trump o percebeu. O tarifaço foi abrandado, a defesa da causa bolsonarista foi
esquecida e um diálogo amistoso com o petista foi iniciado.
O republicano é pródigo em trapalhadas,
entretanto. À desordem provocada por sua ofensiva protecionista somam-se
ataques ao banco central e
tumultos geopolíticos que incluem até uma afronta aos
aliados da Otan com a cobiça pela Groenlândia.
A consequência econômica direta do desgoverno
nos Estados
Unidos é o enfraquecimento do dólar, que favorece o Brasil e
Lula de modo mais duradouro. Esta segunda metade de mandato seria mais amarga
se a cotação da moeda americana permanecesse na casa dos R$ 6, patamar atingido
ao final de 2024 em razão da deterioração das finanças do Tesouro.
Graças à taxa de câmbio,
hoje pouco acima dos R$ 5,20, o controle da inflação foi
facilitado e o Banco Central pode iniciar um ciclo de cortes dos juros,
evitando desaceleração mais grave da economia.
Ao mesmo tempo, capitais que
deixam os EUA alimentam recordes na Bolsa de
Valores, celebrados por Lula como evidência de acertos de seu
governo.
Não é um trunfo dos mais seguros, todavia.
Trata-se de dinheiro especulativo, que pode deixar o país tão rapidamente
quanto entrou —ainda mais se a credibilidade da política econômica doméstica
continuar a se esvair.
Fim de acordo nuclear traz riscos e
oportunidades
Por Folha de S. Paulo
Expiração do Novo Start por decisão dos EUA
abre caminho para aumento de arsenais, mas texto era obsoleto
Moscou já admite incluir Pequim num novo
tratado, o que Trump defende, mas quer que ogivas francesas e britânicas também
estejam à mesa
Durante 54 anos, o mundo conviveu com um
regime de controle de armas nucleares pontuado por sete acordos celebrados
entre EUA e Rússia.
Superpotências na Guerra Fria, os rivais chegaram a acumular 70 mil ogivas
atômicas.
Foi o temor de uma potencial destruição da
humanidade que eliminou 82,5% deste arsenal após seu zênite, em 1986. Outros
instrumentos mais amplos para evitar a proliferação do uso militar do átomo
garantiram que existam hoje nove países com a bomba, não dezenas deles.
Não que o cenário seja róseo. As atuais
12.321 armas, 86% delas sob o controle de Washington e Moscou, ainda são
capazes de obliterar a civilização por diversas vezes, e o esforço por um
banimento global permanece no campo do idealismo.
Há outros perigos, como o belicismo da
bizarra ditadura norte-coreana e a eventual escalada da escaramuça dos rivais
atômicos Índia e Paquistão. Isso para não falar das intenções dos aiatolás da
teocracia iraniana.
Na quinta-feira (5), a certeza de
que os sócios majoritários do clube nuclear tinham limites acabou. O
Novo Start, acordo vigente desde 2011 que impunha um teto de 1.550 ogivas
prontas para uso e 800 meios de lançamento de cada lado, além de 18 inspeções
mútuas anuais, expirou.
Isso ocorreu porque Donald Trump não
aceitou a proposta de Vladimir
Putin para estender os termos por um ano, enquanto
outro diploma seria negociado. Não que o russo seja um pacifista: em
2023, havia congelado as verificações devido às sanções decorrentes da Guerra
da Ucrânia.
Os argumentos de Trump não estão errados. O
Novo Start é obsoleto, enquanto a China promove
rápida expansão de seu arsenal —duplicado de 2019 para cá. Pequim defende que
sua força de 600 bombas é pequena e defensiva, mas a questão é que o país age à
margem de qualquer controle.
Seus aliados em Moscou já admitem incluí-la
em um eventual novo tratado, o que o americano defende, mas querem que as 515
ogivas francesas e britânicas também estejam à mesa.
Há, portanto, uma oportunidade de uma nova
era de controle, que abarque armas que estavam fora do escopo do Novo Start,
como as menores bombas táticas ou mísseis hipersônicos. Isso seria do interesse
dos rivais, dado o custo de manter tais capacidades.
Mas a situação enseja riscos, tanto que, a despeito de Trump, americanos e russos ensaiam uma forma de preservar limites enquanto não se decide o próximo passo. Enquanto isso, o mundo fica ainda mais inseguro.
STM deve expulsar militares condenados por
trama golpista
Por O Globo
Bolsonaro, três generais e um almirante não
merecem integrar as Forças Armadas de país democrático
O julgamento dos militares condenados pela
trama golpista será o mais relevante nos mais de 200 anos da Justiça militar.
Em país com longo histórico de golpes, nunca antes o Superior Tribunal Militar
(STM)
analisou caso envolvendo crime contra a democracia. Não deveria haver dúvida
sobre o resultado: militares que tramaram para subverter a vontade popular e
desobedeceram à Constituição que juraram defender merecem ser expulsos das
Forças Armadas.
O Ministério Público Militar (MPM) pediu a
perda de patente dos líderes da conspiração golpista — o ex-presidente Jair
Bolsonaro, o ex-comandante da Marinha Almir Garnier e os generais Augusto
Heleno, Paulo
Sérgio Nogueira e Braga Netto. Os procuradores afirmam serem
“incontroversas” a gravidade dos “delitos cometidos e a violação dos preceitos
éticos militares”.
No julgamento dos golpistas, o STM tem a
oportunidade de dar uma resposta à altura dessa gravidade. Não faz sentido
absolver Bolsonaro, os generais ou o almirante Garnier. Eventuais serviços
prestados ou a inexistência de registros de desvios de conduta anteriores à
tentativa de golpe são irrelevantes. Num processo independente, conduzido
dentro de todas as balizas da democracia, os cinco foram condenados no Supremo
Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado, organização criminosa
armada, tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, dano
qualificado contra o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.
Uma Corte militar disposta a permitir a permanência de criminosos assim nas Forças
Armadas não faz jus a seus deveres constitucionais.
No STM, o julgamento cabe ao plenário
composto por 15 ministros (dez militares e cinco civis). A presidente Maria
Elizabeth Rocha vota apenas em caso de empate — e, pelo regimento, sempre a
favor do réu. Nos casos envolvendo perda de patente nos últimos oito anos, o
índice de punição foi alto: 86% em 93 processos, segundo
reportagem do GLOBO. A maior parte dizia respeito a estelionato,
sobretudo episódios de fraude. Os condenados não eram conhecidos nem tinham
proximidade com os integrantes da Corte. No Alto Comando do Exército, o
ministro-general Lourival Silva foi colega de Paulo Sérgio e Braga Netto. Os
ministros almirantes Leonardo Puntel, Celso Nazareth e Cláudio Viveiros foram
da cúpula da Marinha na mesma época de Garnier.
Em seu julgamento mais marcante, o STM tem a
chance de desmentir a imagem de tribunal corporativista criada por outros
casos. Um exemplo foi a morte do músico Evaldo Santos. Em abril de 2019, ele
estava no carro com mulher, filho de 7 anos mais duas pessoas no Rio, quando
militares abriram fogo confundindo o veículo com outro usado por bandidos.
Evaldo e o catador Luciano Macedo, que tentou socorrê-lo, morreram. Na primeira
instância, os militares foram condenados a penas entre 28 e 31 anos de prisão.
Quando revisadas pelo STM, elas caíram a menos de quatro anos. Contrariando as
evidências, o tribunal acatou o argumento da defesa, segundo o qual o engano
era “plenamente justificado pelas circunstâncias”. A decisão chocou o país. No
julgamento da cúpula da trama golpista, o STF já tomou a decisão final sobre a
condenação. Cabe ao STM decidir sobre as patentes dos réus — e revelar se tem
apreço pela democracia.
Desaparecimento de crianças exige integração
e empenho das autoridades
Por O Globo
Uso do sistema Alerta Amber e de redes
sociais é avanço, mas ainda desaparecem 66 menores por dia
O desaparecimento de crianças e adolescentes
alcança no Brasil proporções trágicas. A cada 22 minutos desaparece um menor de
17 anos, como revelou reportagem do GLOBO. Em 2015, foram registrados 32.490
casos, ou 90 por dia. Houve queda nos anos seguintes, mas, no ano passado,
mesmo antes de os estados de São Paulo, Alagoas, Paraíba e Pernambuco enviarem
seus dados, o total estava em 23.919 desaparecidos, ou 66 por dia — número 8,2%
superior ao de 2024.
Para enfrentar a questão, o país não está na
estaca zero. Existe o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas (CNPD), com
informações dos boletins de ocorrência, permitindo cruzar dados. Existe também
uma mobilização nacional para a coleta de DNA, usado para elucidar casos mais
antigos. Foi assim que, em 2024, houve 35 identificações de menores que haviam
desaparecido. Mas esse caminho, embora promissor, tem sido insuficiente.
A tecnologia é de grande importância na busca por crianças desaparecidas. O Brasil começa a adotar o Alerta Amber, sistema eletrônico batizado em homenagem a uma menina de 9 anos sequestrada e assassinada no Texas em 1996. Ele reúne nome, descrição física, foto, descrição dos suspeitos de sequestro, veículo, placa, roupa que o menor vestia — tudo, enfim, que possa facilitar a identificação. Um centro nacional reúne o banco de dados de crianças desaparecidas. O sistema dispara alertas locais, regionais ou nacionais a diversos dispositivos, como celulares, redes sociais, TVs, rádios ou painéis em estradas. Há um número telefônico para os cidadãos entrarem em contato e acionarem a polícia. Tudo é feito com grande rapidez para que os sequestradores não tenham tempo de fugir e o menor não se afaste demais. O sistema visa a combater sequestros, mas também pode ser usado para localizar os menores que se perderam.
No Brasil, a adoção do Alerta Amber tem o
apoio da Meta, dona das redes sociais mais usadas pela população (WhatsApp,
Instagram e Facebook). As redes exibem fotos e descrições dos menores num raio
de 160 quilômetros do local do desaparecimento. Todos os estados já aderiram,
com exceção de São Paulo. Embora ainda seja preciso ampliar o alcance do
alerta, ele é um primeiro passo.
Apenas uma medida, contudo, não mitigará a tragédia do desaparecimento de menores. A participação da rede de escolas públicas é outra forma eficaz de facilitar as buscas. A questão exige maior articulação entre organismos públicos de segurança nas três esferas de governo. Não só para localizar as vítimas, mas também para alertar as famílias sobre os riscos.
Eleitores endividados
Por O Estado de S. Paulo
Dados do BC expõem descompasso entre a
publicidade lulopetista e a vida real: endividamento elevado corrói a sensação
de melhora econômica e pode cobrar seu preço na disputa presidencial de 2026
“Herança maldita”, bradava o comissariado
petista em novembro de 2022, durante a transição entre os governos de Jair
Bolsonaro e o novo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. À época, a caciquia do
partido falava em “economia destruída”, alertava que o povo estava “passando
fome” e denunciava o avanço do endividamento das famílias. O crédito caro, o
rotativo do cartão e o uso crescente do consignado e dos empréstimos pessoais
eram apresentados pelo PT como prova de que a economia se tornara hostil aos
brasileiros. A promessa implícita era inequívoca: com a volta de Lula ao
Palácio do Planalto, a renda cresceria, o aperto diminuiria e a normalidade
econômica seria restaurada.
Três anos depois, os dados desmentem essa
expectativa. A renda, de fato, cresceu, mas o aperto não deu trégua. Segundo o
Banco Central, o endividamento das famílias alcançou 49,8% do rendimento anual,
patamar muito próximo do recorde histórico registrado em julho de 2022.
Trata-se de um indicador abrangente, que inclui financiamentos imobiliários e
de veículos, crédito consignado, empréstimos pessoais e cartão de crédito. Não
é um desvio pontual, mas a consolidação de um quadro persistente de pressão
sobre os orçamentos domésticos. E a evidência de que o triunfalismo lulopetista
está longe de encontrar amparo na realidade.
O contraste com a narrativa oficial é
evidente. O governo insiste em destacar indicadores positivos do mercado de
trabalho, sobretudo a queda do desemprego e a recuperação da renda média. Esses
avanços são reais, mas insuficientes para neutralizar o desconforto econômico
percebido pela população. Dívidas elevadas, juros altos e crédito caro corroem
o efeito prático da renda adicional e alimentam a sensação difusa de que a vida
não está mais fácil.
As pesquisas de opinião captam esse
descompasso. Levantamentos recentes, como os do Ideia e da Quaest, mostram que
uma parcela expressiva dos brasileiros acredita que a economia piorou ou
permaneceu estagnada, apesar do discurso autoelogioso do governo. A avaliação
do desempenho econômico figura de forma recorrente entre os principais fatores
de insatisfação. Custo de vida e insegurança financeira ancoram tais temores.
Não por acaso, a aprovação do governo oscila em patamar mediano, distante do
apoio que costuma sustentar projetos de reeleição.
Esse cenário expõe os limites da estratégia
petista de terceirizar permanentemente a responsabilidade pelos problemas
econômicos. Não é novidade. Entre 2002 e 2003, ao chegar à Presidência pela
primeira vez, Lula também classificou como “herança maldita” a economia
recebida de Fernando Henrique Cardoso – como se a gestão tucana, apesar de
sucessivas crises internacionais, não tivesse pavimentado o caminho que
permitiria o sucesso econômico do primeiro mandato petista.
Essa marotagem tem prazo de validade. Lula
governa há tempo suficiente para que os resultados, positivos ou negativos,
sejam atribuídos majoritariamente às escolhas de sua própria administração.
Persistir na lógica da herança eterna soa cada vez menos convincente e mais
como fuga de responsabilidade. Os números divulgados pelo Banco Central
reiteram essa constatação.
O endividamento elevado vai além da
estatística. Restringe o consumo, amplia a vulnerabilidade das famílias a
choques econômicos e limita a eficácia de políticas baseadas quase
exclusivamente em transferências de renda. Em ano pré-eleitoral, esse quadro se
converte em risco político concreto para um presidente que aposta na memória
afetiva de mandatos passados e na ideia de que sua presença no poder, por si
só, melhora a vida do cidadão comum.
A economia tende a ser o eixo central da
disputa de 2026 não por ideologia, mas por experiência concreta. O eleitor
decide menos pelo discurso e mais pelo que sente no bolso. Se quiser evitar que
a dívida das famílias se torne símbolo de frustração eleitoral, o Planalto
precisará ir além da retórica e enfrentar o problema com seriedade. Até lá, os
números do Banco Central seguirão lembrando que a economia real não se deixa
moldar por slogans – e que a política da negação pode cobrar seu preço nas
urnas.
Escola falha no debate ambiental
Por O Estado de S. Paulo
Pesquisa revela que a emergência climática
ocupa lugar marginal no currículo escolar e pouco mobiliza os estudantes,
expondo o descompasso entre a urgência do tema e a experiência educacional
Desde que ganhou contornos mais evidentes e
dramáticos, a crise climática deixou de ser um tema periférico para se
infiltrar no vocabulário nacional. Ondas de calor, secas prolongadas, enchentes
devastadoras e recordes sucessivos de temperatura passaram a ocupar o
noticiário, impulsionados pelo avanço da ciência e por uma cobertura
jornalística mais atenta à dimensão estrutural do problema. Essa incorporação,
no entanto, é desigual e incompleta. O fato de o tema ter ganhado centralidade
no debate público não significa que tenha sido assimilado de forma homogênea
pela sociedade – muito menos pelas novas gerações, grupo essencial, já que não
há futuro possível se não for também construído, compreendido e valorizado por
quem vai habitá-lo.
É esse descompasso que um estudo
recém-divulgado pelo Ministério da Educação (MEC), em parceria com o Conselho
Nacional de Secretários de Educação (Consed), a União dos Dirigentes Municipais
de Educação (Undime) e o Itaú Social, ajuda a evidenciar. Ao ouvir cerca de 2,3
milhões de estudantes do ensino fundamental em todas as regiões do País, a
pesquisa revela que temas ambientais e de sustentabilidade figuram entre os
menos valorizados pelos próprios alunos quando questionados sobre o que
consideram importante aprender na escola. Apenas um em cada dez estudantes
menciona questões ambientais como relevantes para sua formação. Em outras
palavras, nove em cada dez adolescentes passam pela escola sem perceber
sentido, prioridade ou urgência no debate ambiental.
O dado causa estranheza. Em um país cada vez
mais exposto a eventos climáticos extremos – da crise hídrica às enchentes, das
queimadas ao colapso de ecossistemas –, seria razoável supor que a escola
refletisse essa realidade. O estudo sugere, contudo, que a distância não está
apenas entre os alunos e o tema, mas entre o currículo escolar e o mundo
concreto. A sustentabilidade aparece, quando aparece, de forma abstrata ou
episódica, dissociada da experiência cotidiana dos estudantes e das escolhas
que moldam suas vidas.
Essa constatação ganha ainda mais força
quando cotejada com outro dado recente, também do MEC, sobre as expectativas
dos alunos em relação ao ensino. Segundo esse levantamento, os estudantes
manifestam de forma clara o desejo por aulas que consigam articular teoria e
prática, conectando conteúdos escolares a problemas reais e aplicações
visíveis. Não se trata de rejeição ao conhecimento, mas de recusa a um
aprendizado sem sentido. Os alunos querem compreender por que aprendem o que
aprendem – e para quê.
A combinação dos dados desmonta uma
interpretação conveniente, mas equivocada: a de que os jovens seriam
indiferentes às questões ambientais. O problema não é falta de interesse, mas
de mediação pedagógica eficaz. A escola falha ao não transformar a emergência
climática em objeto de aprendizado significativo e transversal. Ao não
relacionar clima, meio ambiente, economia, território e qualidade de vida, o
ensino empurra a sustentabilidade para um lugar marginal, incapaz de disputar
atenção com outros conteúdos.
O paradoxo é evidente. Nunca se discutiu
tanto o clima no debate público e nas políticas públicas. Ainda assim, essa
discussão chega às salas de aula de forma fragmentada e pouco inteligível para
os estudantes. O resultado é uma geração que vive os efeitos da crise
climática, mas não os reconhece como parte estruturante de sua formação
escolar. A responsabilidade por esse descolamento não pode ser atribuída apenas
aos professores. Ela recai sobre políticas curriculares excessivamente formais,
sobre a fragilidade da formação docente continuada e sobre uma concepção de
ensino que ainda separa o conhecimento escolar dos dilemas do mundo real.
Se a escola pretende formar cidadãos capazes
de enfrentar os desafios do século 21, não pode tratar a emergência climática
como nota de rodapé. Integrar sustentabilidade ao currículo não significa
acrescentar mais um conteúdo, mas repensar métodos, linguagens e prioridades.
Ignorar esse desafio é condenar a educação a falar cada vez menos com o tempo
em que existe – e com o futuro que deveria ajudar a construir.
A Índia se adapta a Trump
Por O Estado de S. Paulo
Vaguidão do acordo anunciado por Trump
mostra, como sempre, que só as aparências importam
O acordo comercial entre EUA e Índia foi
anunciado pela Casa Branca como um ponto de inflexão. Pelos termos divulgados,
Washington reduzirá tarifas sobre produtos indianos em troca de promessas vagas
de investimentos bilionários nos EUA e de um compromisso, ainda mais vago – e
nem sequer confirmado por Nova Délhi –, de reduzir compras de petróleo russo.
Na prática, o episódio diz menos sobre uma convergência entre EUA e Índia do
que sobre o método que hoje governa a política externa americana – e sobre como
potências médias vêm lidando com ele.
No trumpismo, o anúncio precede o
compromisso. Presidentes substituem negociadores, redes sociais antecipam
tratados e a pressão política dilui o texto jurídico. Não se trata de
improviso, mas de um estilo deliberadamente transacional: criar choque, extrair
concessões e manter aberta a possibilidade de revisão. Os “acordos” são, muitas
vezes, declarações de intenção assimétricas, nas quais um lado proclama
vitórias e o outro preserva silêncio estratégico.
Donald Trump é um ator disruptivo, mas não
impermeável. Mercados financeiros, riscos de isolamento e irritações da opinião
pública impõem limites ao unilateralismo. A contradição estrutural de sua
política externa está aí: tentar usar o comércio como alavanca geopolítica, sem
oferecer previsibilidade institucional. O resultado são ganhos pontuais,
combinados a incerteza duradoura.
A Índia entendeu essa lógica melhor do que
muitos aliados tradicionais dos EUA. Em vez de buscar alinhamento pleno, Nova
Délhi opera por autonomia estratégica. Explora rivalidades entre Washington,
Bruxelas e Pequim, preserva canais com Moscou e transforma o petróleo russo em
instrumento de barganha, não de lealdade ideológica. Seu silêncio diante dos
anúncios americanos não significa recusa. É gestão da margem de manobra.
Esse comportamento reflete mudanças mais
amplas. O multilateralismo energético e comercial vem sendo dilapidado por
sanções, tarifas e acordos bilaterais ad hoc.
Cadeias globais reorganizam-se menos por preço e logística ou por valores
compartilhados do que por risco político. O mundo não caminha para uma nova
racionalidade comercial nem para alinhamentos morais, mas para rearranjos
pragmáticos.
Há também limites ao poder americano.
Anúncios presidenciais não substituem compromissos institucionais. Acordos sem
mecanismos de execução funcionam como instrumentos de pressão, não como
arquitetura estável. Parceiros ajustam comportamentos no curto prazo, mas
diversificam riscos no médio, buscando alternativas, não garantias.
Para potências médias, como o Brasil, a lição
é que, em um mundo pós-regras, autonomia estratégica não é neutralidade
passiva, mas capacidade de negociar sem dependência excessiva. Países que
confundem proximidade política com proteção estrutural tendem a ficar mais
expostos, não mais seguros.
O acordo EUA-Índia, portanto, não prenuncia uma nova ordem. Ele apenas confirma a lógica da atual: transacional, instável e governada por barganhas assimétricas. Nesse ambiente, sobreviverão menos os mais alinhados, e mais os que souberem se adaptar sem ilusões.
Pacto contra o feminicídio
Por Correio Braziliense
A urgência do tema pode ser verificada por
números. No ano passado, a Justiça brasileira julgou, em média, 42 casos de
feminicídio por dia, totalizando 15.453 julgamentos, um aumento de 17% em
relação ao ano anterior
Na última semana, em duas ocasiões, o
presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, fez um apelo público em
favor de uma mobilização nacional: o combate ao feminicídio. Durante a abertura
do ano Judiciário, após cumprimentar o Supremo Tribunal Federal pelo papel
crucial na defesa da democracia entre 2022 e 2023, o chefe do Executivo
convocou os Poderes para outra batalha. "Assim como aconteceu no 8 de
janeiro, Executivo, Legislativo e Judiciário se unem novamente por uma causa da
mais extrema gravidade. Dados oficiais mostram que, em média, quatro mulheres
são assassinadas por dia no Brasil", alertou Lula.
Na quarta-feira, desta vez em solenidade no
Palácio do Planalto, Lula oficializou a iniciativa que entende ser fundamental
para o país: o Pacto Brasil contra o Feminicídio. Presentes na cerimônia, os
chefes dos demais Poderes da República firmaram o compromisso de envidar
esforços para uma ação coordenada contra a violência doméstica.
O ponto de partida para essa iniciativa é a
constatação de que a violência de gênero é um problema estrutural no Brasil. A
urgência do tema pode ser verificada por números. No ano passado, a Justiça
brasileira julgou, em média, 42 casos de feminicídio por dia, totalizando
15.453 julgamentos, um aumento de 17% em relação ao ano anterior. No mesmo
período, o Judiciário concedeu 621.202 medidas protetivas, o equivalente a 70
por hora. O serviço Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher, coordenado pelo
Ministério das Mulheres, registrou, em média, 425 denúncias por dia em
2025.Trata-se de um retrato assustador, considerando que em 2024 houve
endurecimento da legislação para autores de feminicídio, com penas de até 40
anos de reclusão e punição maior ao agressor que descumprir medidas protetivas.
Pensado como política pública de caráter
permanente, o pacto estabelece como objetivos prioritários acelerar o
cumprimento de medidas protetivas de urgência; fortalecer as redes de
enfrentamento contra a violência de gênero em todo o território nacional;
informar a sociedade sobre os direitos de meninas e mulheres; enfrentar o
machismo estrutural.
Mais do que selar uma aliança institucional
contra a violência cotidiana dos lares brasileiros, o Pacto Brasil contra o
Feminicídio tem uma ambição: promover o engajamento dos homens. Não há como estabelecer
um convívio civilizado entre homens e mulheres sem o reforço deles na luta
contra a barbárie de gênero. Nesse sentido, a mensagem da primeira-dama, Janja
da Silva, resume a motivação que está por trás dessa causa. "Queremos ser
respeitadas, queremos ser amadas, queremos ser livres, queremos nos manter
vivas e queremos vocês, homens, nessa luta ao nosso lado. Todos por
todas", disse na assinatura do Pacto Brasil contra o Feminicídio.
Assim como a criminalidade e a desigualdade social, a violência de gênero é um fenômeno complexo, que demanda múltiplas ações em diferentes níveis. No ano em que a Lei Maria da Penha completa duas décadas de vigência, o Pacto Brasil contra o Feminicídio se propõe a trazer dois avanços relevantes: respostas mais eficientes do poder público e a entrada dos homens nessa batalha. Contra um inimigo covarde e silencioso, que muitas vezes perpetra seus crimes na intimidade familiar e se beneficia do machismo estrutural no país, é absolutamente necessária a participação de todos.
O Povo entre os 10 mais premiados do Brasil
Por O Povo (CE)
Uma notícia tem animado O POVO, não pela surpresa do anúncio, mas pela alegria do reconhecimento. O Grupo de Comunicação O POVO é o primeiro jornal do Ceará a estar entre os dez veículos brasileiros mais premiados da história, ocupando a décima posição do ranking Premiados da Imprensa Brasileira, da Jornalistas Editora Ltda. A plataforma O POVO figura como a mais premiada do Nordeste em 2025.
Os resultados, divulgados na semana que
passou, mostram a TV Globo liderando o ranking. O POVO está em 10° com 128 premiações.
O POVO se destaca nas colocações publicadas, surgindo como o meio de
comunicação mais premiado do Nordeste e o sexto do Brasil em 2025.
O ótimo desempenho do Grupo O POVO é razão de
alegria para todos os que fazem o jornal - em suas variadas plataformas - e
para o público que o acompanha, pela certeza da boa qualidade dos produtos
apresentados. A seriedade com que os conteúdos são publicados e a
responsabilidade de suas produções fazem do O POVO um grupo que se orgulha da
confiança por parte do público.
Esse registro atesta o momento de pleno
frescor do Grupo de Comunicação O POVO. A marca noticiosa, que é chancela de
informação confiável há 98 anos, nunca se fez tão forte e tão presente. O que é
escrito, interpretado e analisado destina-se a um público final que só se
expande e que hoje é contado em milhões de pessoas - no impresso, na versão
digital, nos meios audiovisuais e nas redes sociais. Isso tudo fortalece uma
marca noticiosa que carrega o orgulho cearense em todas as plataformas que ocupa
e o conforto de saber que é um veículo visceralmente ligado às causas do Estado
onde mantém sua base.
É certo que O POVO tem desempenhado um papel
significativo na história política, social e cultural do Ceará, cobrindo
eventos importantes, dando voz a diversas camadas da sociedade e atuando como
um canal relevante de informação e debate. Ao longo dos anos, o jornal passou
por diversas transformações, adaptando-se às mudanças tecnológicas e ao
contexto midiático contemporâneo.
É válido acentuar a qualidade do O POVO , que
se consolida como um espaço de inovação e excelência no jornalismo multimídia.
Desde a sua criação, em 2020, O POVO tem investido em conteúdos audiovisuais de
alta qualidade, combinando a credibilidade de um dos mais respeitados veículos
de comunicação do Nordeste com a modernidade das narrativas digitais.
Desse modo, na antevéspera de seu centenário,
O POVO se planeja para comemorar uma marca alcançada por poucos jornais
brasileiros e internacionais. E essa celebração virá acompanhada do que o Grupo
tem feito, de modo ininterrupto, ao longo de todos estes anos: a valorização da
pluralidade das ideias em sua linha editorial e o respeito pelo público leitor,
com quem dividimos estes números de premiações que tanto nos alegram,
incentivam e orgulham.

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