domingo, 8 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Trump é cabo eleitoral inesperado de Lula, até agora

Por Folha de S. Paulo

Petista ganhou força política com tarifaço e se beneficia na economia com a queda do dólar

Capitais que deixam os EUA alimentam recordes na Bolsa de Valores, mas trunfo é inseguro porque se trata de dinheiro especulativo

Boa parte do sucesso dos dois primeiros governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se deveu a uma conjuntura internacional excepcionalmente favorável para os países exportadores de produtos primários agrícolas e minerais.

Impulsionado pela demanda da China, o boom de commodities catapultou o crescimento de economias emergentes e, no caso brasileiro, levou a um aumento da arrecadação de impostos que equilibrou as contas públicas.

Lula teve a sensatez de aproveitar o período para acumular vultosas reservas em dólar e, ao contrário do que fizeram seus congêneres na Venezuela e na Argentina, não dilapidou os ganhos da bonança. Sua sucessora e correligionária, Dilma Rousseff, é que poria tudo a perder.

Neste seu terceiro mandato, o líder petista não conta com ventos externos tão favoráveis nem mostra a prudência orçamentária de outrora, o que faz antever uma disputa árdua pelo Planalto em outubro. Ele conseguiu, porém, um cabo eleitoral inesperado —Donald Trump.

A primeira grande ajuda involuntária do presidente americano ao brasileiro foi o estúpido choque tarifário, no ano passado, descaradamente apresentado como retaliação ao julgamento de Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado.

Ali, o republicano logrou a tripla proeza de entregar a Lula o papel de defensor dos interesses nacionais ante uma agressão estrangeira, tornar a condenação de Bolsonaro ato de soberania institucional e opor lideranças de direita às forças produtivas.

Foi um erro tão crasso que até o tresloucado Trump o percebeu. O tarifaço foi abrandado, a defesa da causa bolsonarista foi esquecida e um diálogo amistoso com o petista foi iniciado.

O republicano é pródigo em trapalhadas, entretanto. À desordem provocada por sua ofensiva protecionista somam-se ataques ao banco central e tumultos geopolíticos que incluem até uma afronta aos aliados da Otan com a cobiça pela Groenlândia.

A consequência econômica direta do desgoverno nos Estados Unidos é o enfraquecimento do dólar, que favorece o Brasil e Lula de modo mais duradouro. Esta segunda metade de mandato seria mais amarga se a cotação da moeda americana permanecesse na casa dos R$ 6, patamar atingido ao final de 2024 em razão da deterioração das finanças do Tesouro.

Graças à taxa de câmbio, hoje pouco acima dos R$ 5,20, o controle da inflação foi facilitado e o Banco Central pode iniciar um ciclo de cortes dos juros, evitando desaceleração mais grave da economia. Ao mesmo tempo, capitais que deixam os EUA alimentam recordes na Bolsa de Valores, celebrados por Lula como evidência de acertos de seu governo.

Não é um trunfo dos mais seguros, todavia. Trata-se de dinheiro especulativo, que pode deixar o país tão rapidamente quanto entrou —ainda mais se a credibilidade da política econômica doméstica continuar a se esvair.

Fim de acordo nuclear traz riscos e oportunidades

Por Folha de S. Paulo

Expiração do Novo Start por decisão dos EUA abre caminho para aumento de arsenais, mas texto era obsoleto

Moscou já admite incluir Pequim num novo tratado, o que Trump defende, mas quer que ogivas francesas e britânicas também estejam à mesa

Durante 54 anos, o mundo conviveu com um regime de controle de armas nucleares pontuado por sete acordos celebrados entre EUA e Rússia. Superpotências na Guerra Fria, os rivais chegaram a acumular 70 mil ogivas atômicas.

Foi o temor de uma potencial destruição da humanidade que eliminou 82,5% deste arsenal após seu zênite, em 1986. Outros instrumentos mais amplos para evitar a proliferação do uso militar do átomo garantiram que existam hoje nove países com a bomba, não dezenas deles.

Não que o cenário seja róseo. As atuais 12.321 armas, 86% delas sob o controle de Washington e Moscou, ainda são capazes de obliterar a civilização por diversas vezes, e o esforço por um banimento global permanece no campo do idealismo.

Há outros perigos, como o belicismo da bizarra ditadura norte-coreana e a eventual escalada da escaramuça dos rivais atômicos Índia e Paquistão. Isso para não falar das intenções dos aiatolás da teocracia iraniana.

Na quinta-feira (5), a certeza de que os sócios majoritários do clube nuclear tinham limites acabou. O Novo Start, acordo vigente desde 2011 que impunha um teto de 1.550 ogivas prontas para uso e 800 meios de lançamento de cada lado, além de 18 inspeções mútuas anuais, expirou.

Isso ocorreu porque Donald Trump não aceitou a proposta de Vladimir Putin para estender os termos por um ano, enquanto outro diploma seria negociado. Não que o russo seja um pacifista: em 2023, havia congelado as verificações devido às sanções decorrentes da Guerra da Ucrânia.

Os argumentos de Trump não estão errados. O Novo Start é obsoleto, enquanto a China promove rápida expansão de seu arsenal —duplicado de 2019 para cá. Pequim defende que sua força de 600 bombas é pequena e defensiva, mas a questão é que o país age à margem de qualquer controle.

Seus aliados em Moscou já admitem incluí-la em um eventual novo tratado, o que o americano defende, mas querem que as 515 ogivas francesas e britânicas também estejam à mesa.

Há, portanto, uma oportunidade de uma nova era de controle, que abarque armas que estavam fora do escopo do Novo Start, como as menores bombas táticas ou mísseis hipersônicos. Isso seria do interesse dos rivais, dado o custo de manter tais capacidades.

Mas a situação enseja riscos, tanto que, a despeito de Trump, americanos e russos ensaiam uma forma de preservar limites enquanto não se decide o próximo passo. Enquanto isso, o mundo fica ainda mais inseguro.

STM deve expulsar militares condenados por trama golpista

Por O Globo

Bolsonaro, três generais e um almirante não merecem integrar as Forças Armadas de país democrático

O julgamento dos militares condenados pela trama golpista será o mais relevante nos mais de 200 anos da Justiça militar. Em país com longo histórico de golpes, nunca antes o Superior Tribunal Militar (STM) analisou caso envolvendo crime contra a democracia. Não deveria haver dúvida sobre o resultado: militares que tramaram para subverter a vontade popular e desobedeceram à Constituição que juraram defender merecem ser expulsos das Forças Armadas.

O Ministério Público Militar (MPM) pediu a perda de patente dos líderes da conspiração golpista — o ex-presidente Jair Bolsonaro, o ex-comandante da Marinha Almir Garnier e os generais Augusto HelenoPaulo Sérgio Nogueira e Braga Netto. Os procuradores afirmam serem “incontroversas” a gravidade dos “delitos cometidos e a violação dos preceitos éticos militares”.

No julgamento dos golpistas, o STM tem a oportunidade de dar uma resposta à altura dessa gravidade. Não faz sentido absolver Bolsonaro, os generais ou o almirante Garnier. Eventuais serviços prestados ou a inexistência de registros de desvios de conduta anteriores à tentativa de golpe são irrelevantes. Num processo independente, conduzido dentro de todas as balizas da democracia, os cinco foram condenados no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado, organização criminosa armada, tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, dano qualificado contra o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado. Uma Corte militar disposta a permitir a permanência de criminosos assim nas Forças Armadas não faz jus a seus deveres constitucionais.

No STM, o julgamento cabe ao plenário composto por 15 ministros (dez militares e cinco civis). A presidente Maria Elizabeth Rocha vota apenas em caso de empate — e, pelo regimento, sempre a favor do réu. Nos casos envolvendo perda de patente nos últimos oito anos, o índice de punição foi alto: 86% em 93 processos, segundo reportagem do GLOBO. A maior parte dizia respeito a estelionato, sobretudo episódios de fraude. Os condenados não eram conhecidos nem tinham proximidade com os integrantes da Corte. No Alto Comando do Exército, o ministro-general Lourival Silva foi colega de Paulo Sérgio e Braga Netto. Os ministros almirantes Leonardo Puntel, Celso Nazareth e Cláudio Viveiros foram da cúpula da Marinha na mesma época de Garnier.

Em seu julgamento mais marcante, o STM tem a chance de desmentir a imagem de tribunal corporativista criada por outros casos. Um exemplo foi a morte do músico Evaldo Santos. Em abril de 2019, ele estava no carro com mulher, filho de 7 anos mais duas pessoas no Rio, quando militares abriram fogo confundindo o veículo com outro usado por bandidos. Evaldo e o catador Luciano Macedo, que tentou socorrê-lo, morreram. Na primeira instância, os militares foram condenados a penas entre 28 e 31 anos de prisão. Quando revisadas pelo STM, elas caíram a menos de quatro anos. Contrariando as evidências, o tribunal acatou o argumento da defesa, segundo o qual o engano era “plenamente justificado pelas circunstâncias”. A decisão chocou o país. No julgamento da cúpula da trama golpista, o STF já tomou a decisão final sobre a condenação. Cabe ao STM decidir sobre as patentes dos réus — e revelar se tem apreço pela democracia.

Desaparecimento de crianças exige integração e empenho das autoridades

Por O Globo

Uso do sistema Alerta Amber e de redes sociais é avanço, mas ainda desaparecem 66 menores por dia

O desaparecimento de crianças e adolescentes alcança no Brasil proporções trágicas. A cada 22 minutos desaparece um menor de 17 anos, como revelou reportagem do GLOBO. Em 2015, foram registrados 32.490 casos, ou 90 por dia. Houve queda nos anos seguintes, mas, no ano passado, mesmo antes de os estados de São Paulo, Alagoas, Paraíba e Pernambuco enviarem seus dados, o total estava em 23.919 desaparecidos, ou 66 por dia — número 8,2% superior ao de 2024.

Para enfrentar a questão, o país não está na estaca zero. Existe o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas (CNPD), com informações dos boletins de ocorrência, permitindo cruzar dados. Existe também uma mobilização nacional para a coleta de DNA, usado para elucidar casos mais antigos. Foi assim que, em 2024, houve 35 identificações de menores que haviam desaparecido. Mas esse caminho, embora promissor, tem sido insuficiente.

A tecnologia é de grande importância na busca por crianças desaparecidas. O Brasil começa a adotar o Alerta Amber, sistema eletrônico batizado em homenagem a uma menina de 9 anos sequestrada e assassinada no Texas em 1996. Ele reúne nome, descrição física, foto, descrição dos suspeitos de sequestro, veículo, placa, roupa que o menor vestia — tudo, enfim, que possa facilitar a identificação. Um centro nacional reúne o banco de dados de crianças desaparecidas. O sistema dispara alertas locais, regionais ou nacionais a diversos dispositivos, como celulares, redes sociais, TVs, rádios ou painéis em estradas. Há um número telefônico para os cidadãos entrarem em contato e acionarem a polícia. Tudo é feito com grande rapidez para que os sequestradores não tenham tempo de fugir e o menor não se afaste demais. O sistema visa a combater sequestros, mas também pode ser usado para localizar os menores que se perderam.

No Brasil, a adoção do Alerta Amber tem o apoio da Meta, dona das redes sociais mais usadas pela população (WhatsApp, Instagram e Facebook). As redes exibem fotos e descrições dos menores num raio de 160 quilômetros do local do desaparecimento. Todos os estados já aderiram, com exceção de São Paulo. Embora ainda seja preciso ampliar o alcance do alerta, ele é um primeiro passo.

Apenas uma medida, contudo, não mitigará a tragédia do desaparecimento de menores. A participação da rede de escolas públicas é outra forma eficaz de facilitar as buscas. A questão exige maior articulação entre organismos públicos de segurança nas três esferas de governo. Não só para localizar as vítimas, mas também para alertar as famílias sobre os riscos.

Eleitores endividados

Por O Estado de S. Paulo

Dados do BC expõem descompasso entre a publicidade lulopetista e a vida real: endividamento elevado corrói a sensação de melhora econômica e pode cobrar seu preço na disputa presidencial de 2026

“Herança maldita”, bradava o comissariado petista em novembro de 2022, durante a transição entre os governos de Jair Bolsonaro e o novo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. À época, a caciquia do partido falava em “economia destruída”, alertava que o povo estava “passando fome” e denunciava o avanço do endividamento das famílias. O crédito caro, o rotativo do cartão e o uso crescente do consignado e dos empréstimos pessoais eram apresentados pelo PT como prova de que a economia se tornara hostil aos brasileiros. A promessa implícita era inequívoca: com a volta de Lula ao Palácio do Planalto, a renda cresceria, o aperto diminuiria e a normalidade econômica seria restaurada.

Três anos depois, os dados desmentem essa expectativa. A renda, de fato, cresceu, mas o aperto não deu trégua. Segundo o Banco Central, o endividamento das famílias alcançou 49,8% do rendimento anual, patamar muito próximo do recorde histórico registrado em julho de 2022. Trata-se de um indicador abrangente, que inclui financiamentos imobiliários e de veículos, crédito consignado, empréstimos pessoais e cartão de crédito. Não é um desvio pontual, mas a consolidação de um quadro persistente de pressão sobre os orçamentos domésticos. E a evidência de que o triunfalismo lulopetista está longe de encontrar amparo na realidade.

O contraste com a narrativa oficial é evidente. O governo insiste em destacar indicadores positivos do mercado de trabalho, sobretudo a queda do desemprego e a recuperação da renda média. Esses avanços são reais, mas insuficientes para neutralizar o desconforto econômico percebido pela população. Dívidas elevadas, juros altos e crédito caro corroem o efeito prático da renda adicional e alimentam a sensação difusa de que a vida não está mais fácil.

As pesquisas de opinião captam esse descompasso. Levantamentos recentes, como os do Ideia e da Quaest, mostram que uma parcela expressiva dos brasileiros acredita que a economia piorou ou permaneceu estagnada, apesar do discurso autoelogioso do governo. A avaliação do desempenho econômico figura de forma recorrente entre os principais fatores de insatisfação. Custo de vida e insegurança financeira ancoram tais temores. Não por acaso, a aprovação do governo oscila em patamar mediano, distante do apoio que costuma sustentar projetos de reeleição.

Esse cenário expõe os limites da estratégia petista de terceirizar permanentemente a responsabilidade pelos problemas econômicos. Não é novidade. Entre 2002 e 2003, ao chegar à Presidência pela primeira vez, Lula também classificou como “herança maldita” a economia recebida de Fernando Henrique Cardoso – como se a gestão tucana, apesar de sucessivas crises internacionais, não tivesse pavimentado o caminho que permitiria o sucesso econômico do primeiro mandato petista.

Essa marotagem tem prazo de validade. Lula governa há tempo suficiente para que os resultados, positivos ou negativos, sejam atribuídos majoritariamente às escolhas de sua própria administração. Persistir na lógica da herança eterna soa cada vez menos convincente e mais como fuga de responsabilidade. Os números divulgados pelo Banco Central reiteram essa constatação.

O endividamento elevado vai além da estatística. Restringe o consumo, amplia a vulnerabilidade das famílias a choques econômicos e limita a eficácia de políticas baseadas quase exclusivamente em transferências de renda. Em ano pré-eleitoral, esse quadro se converte em risco político concreto para um presidente que aposta na memória afetiva de mandatos passados e na ideia de que sua presença no poder, por si só, melhora a vida do cidadão comum.

A economia tende a ser o eixo central da disputa de 2026 não por ideologia, mas por experiência concreta. O eleitor decide menos pelo discurso e mais pelo que sente no bolso. Se quiser evitar que a dívida das famílias se torne símbolo de frustração eleitoral, o Planalto precisará ir além da retórica e enfrentar o problema com seriedade. Até lá, os números do Banco Central seguirão lembrando que a economia real não se deixa moldar por slogans – e que a política da negação pode cobrar seu preço nas urnas.

Escola falha no debate ambiental

Por O Estado de S. Paulo

Pesquisa revela que a emergência climática ocupa lugar marginal no currículo escolar e pouco mobiliza os estudantes, expondo o descompasso entre a urgência do tema e a experiência educacional

Desde que ganhou contornos mais evidentes e dramáticos, a crise climática deixou de ser um tema periférico para se infiltrar no vocabulário nacional. Ondas de calor, secas prolongadas, enchentes devastadoras e recordes sucessivos de temperatura passaram a ocupar o noticiário, impulsionados pelo avanço da ciência e por uma cobertura jornalística mais atenta à dimensão estrutural do problema. Essa incorporação, no entanto, é desigual e incompleta. O fato de o tema ter ganhado centralidade no debate público não significa que tenha sido assimilado de forma homogênea pela sociedade – muito menos pelas novas gerações, grupo essencial, já que não há futuro possível se não for também construído, compreendido e valorizado por quem vai habitá-lo.

É esse descompasso que um estudo recém-divulgado pelo Ministério da Educação (MEC), em parceria com o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), a União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e o Itaú Social, ajuda a evidenciar. Ao ouvir cerca de 2,3 milhões de estudantes do ensino fundamental em todas as regiões do País, a pesquisa revela que temas ambientais e de sustentabilidade figuram entre os menos valorizados pelos próprios alunos quando questionados sobre o que consideram importante aprender na escola. Apenas um em cada dez estudantes menciona questões ambientais como relevantes para sua formação. Em outras palavras, nove em cada dez adolescentes passam pela escola sem perceber sentido, prioridade ou urgência no debate ambiental.

O dado causa estranheza. Em um país cada vez mais exposto a eventos climáticos extremos – da crise hídrica às enchentes, das queimadas ao colapso de ecossistemas –, seria razoável supor que a escola refletisse essa realidade. O estudo sugere, contudo, que a distância não está apenas entre os alunos e o tema, mas entre o currículo escolar e o mundo concreto. A sustentabilidade aparece, quando aparece, de forma abstrata ou episódica, dissociada da experiência cotidiana dos estudantes e das escolhas que moldam suas vidas.

Essa constatação ganha ainda mais força quando cotejada com outro dado recente, também do MEC, sobre as expectativas dos alunos em relação ao ensino. Segundo esse levantamento, os estudantes manifestam de forma clara o desejo por aulas que consigam articular teoria e prática, conectando conteúdos escolares a problemas reais e aplicações visíveis. Não se trata de rejeição ao conhecimento, mas de recusa a um aprendizado sem sentido. Os alunos querem compreender por que aprendem o que aprendem – e para quê.

A combinação dos dados desmonta uma interpretação conveniente, mas equivocada: a de que os jovens seriam indiferentes às questões ambientais. O problema não é falta de interesse, mas de mediação pedagógica eficaz. A escola falha ao não transformar a emergência climática em objeto de aprendizado significativo e transversal. Ao não relacionar clima, meio ambiente, economia, território e qualidade de vida, o ensino empurra a sustentabilidade para um lugar marginal, incapaz de disputar atenção com outros conteúdos.

O paradoxo é evidente. Nunca se discutiu tanto o clima no debate público e nas políticas públicas. Ainda assim, essa discussão chega às salas de aula de forma fragmentada e pouco inteligível para os estudantes. O resultado é uma geração que vive os efeitos da crise climática, mas não os reconhece como parte estruturante de sua formação escolar. A responsabilidade por esse descolamento não pode ser atribuída apenas aos professores. Ela recai sobre políticas curriculares excessivamente formais, sobre a fragilidade da formação docente continuada e sobre uma concepção de ensino que ainda separa o conhecimento escolar dos dilemas do mundo real.

Se a escola pretende formar cidadãos capazes de enfrentar os desafios do século 21, não pode tratar a emergência climática como nota de rodapé. Integrar sustentabilidade ao currículo não significa acrescentar mais um conteúdo, mas repensar métodos, linguagens e prioridades. Ignorar esse desafio é condenar a educação a falar cada vez menos com o tempo em que existe – e com o futuro que deveria ajudar a construir.

A Índia se adapta a Trump

Por O Estado de S. Paulo

Vaguidão do acordo anunciado por Trump mostra, como sempre, que só as aparências importam

O acordo comercial entre EUA e Índia foi anunciado pela Casa Branca como um ponto de inflexão. Pelos termos divulgados, Washington reduzirá tarifas sobre produtos indianos em troca de promessas vagas de investimentos bilionários nos EUA e de um compromisso, ainda mais vago – e nem sequer confirmado por Nova Délhi –, de reduzir compras de petróleo russo. Na prática, o episódio diz menos sobre uma convergência entre EUA e Índia do que sobre o método que hoje governa a política externa americana – e sobre como potências médias vêm lidando com ele.

No trumpismo, o anúncio precede o compromisso. Presidentes substituem negociadores, redes sociais antecipam tratados e a pressão política dilui o texto jurídico. Não se trata de improviso, mas de um estilo deliberadamente transacional: criar choque, extrair concessões e manter aberta a possibilidade de revisão. Os “acordos” são, muitas vezes, declarações de intenção assimétricas, nas quais um lado proclama vitórias e o outro preserva silêncio estratégico.

Donald Trump é um ator disruptivo, mas não impermeável. Mercados financeiros, riscos de isolamento e irritações da opinião pública impõem limites ao unilateralismo. A contradição estrutural de sua política externa está aí: tentar usar o comércio como alavanca geopolítica, sem oferecer previsibilidade institucional. O resultado são ganhos pontuais, combinados a incerteza duradoura.

A Índia entendeu essa lógica melhor do que muitos aliados tradicionais dos EUA. Em vez de buscar alinhamento pleno, Nova Délhi opera por autonomia estratégica. Explora rivalidades entre Washington, Bruxelas e Pequim, preserva canais com Moscou e transforma o petróleo russo em instrumento de barganha, não de lealdade ideológica. Seu silêncio diante dos anúncios americanos não significa recusa. É gestão da margem de manobra.

Esse comportamento reflete mudanças mais amplas. O multilateralismo energético e comercial vem sendo dilapidado por sanções, tarifas e acordos bilaterais ad hoc. Cadeias globais reorganizam-se menos por preço e logística ou por valores compartilhados do que por risco político. O mundo não caminha para uma nova racionalidade comercial nem para alinhamentos morais, mas para rearranjos pragmáticos.

Há também limites ao poder americano. Anúncios presidenciais não substituem compromissos institucionais. Acordos sem mecanismos de execução funcionam como instrumentos de pressão, não como arquitetura estável. Parceiros ajustam comportamentos no curto prazo, mas diversificam riscos no médio, buscando alternativas, não garantias.

Para potências médias, como o Brasil, a lição é que, em um mundo pós-regras, autonomia estratégica não é neutralidade passiva, mas capacidade de negociar sem dependência excessiva. Países que confundem proximidade política com proteção estrutural tendem a ficar mais expostos, não mais seguros.

O acordo EUA-Índia, portanto, não prenuncia uma nova ordem. Ele apenas confirma a lógica da atual: transacional, instável e governada por barganhas assimétricas. Nesse ambiente, sobreviverão menos os mais alinhados, e mais os que souberem se adaptar sem ilusões.

Pacto contra o feminicídio

Por Correio Braziliense

A urgência do tema pode ser verificada por números. No ano passado, a Justiça brasileira julgou, em média, 42 casos de feminicídio por dia, totalizando 15.453 julgamentos, um aumento de 17% em relação ao ano anterior

Na última semana, em duas ocasiões, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, fez um apelo público em favor de uma mobilização nacional: o combate ao feminicídio. Durante a abertura do ano Judiciário, após cumprimentar o Supremo Tribunal Federal pelo papel crucial na defesa da democracia entre 2022 e 2023, o chefe do Executivo convocou os Poderes para outra batalha. "Assim como aconteceu no 8 de janeiro, Executivo, Legislativo e Judiciário se unem novamente por uma causa da mais extrema gravidade. Dados oficiais mostram que, em média, quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil", alertou Lula.

Na quarta-feira, desta vez em solenidade no Palácio do Planalto, Lula oficializou a iniciativa que entende ser fundamental para o país: o Pacto Brasil contra o Feminicídio. Presentes na cerimônia, os chefes dos demais Poderes da República firmaram o compromisso de envidar esforços para uma ação coordenada contra a violência doméstica.

O ponto de partida para essa iniciativa é a constatação de que a violência de gênero é um problema estrutural no Brasil. A urgência do tema pode ser verificada por números. No ano passado, a Justiça brasileira julgou, em média, 42 casos de feminicídio por dia, totalizando 15.453 julgamentos, um aumento de 17% em relação ao ano anterior. No mesmo período, o Judiciário concedeu 621.202 medidas protetivas, o equivalente a 70 por hora. O serviço Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher, coordenado pelo Ministério das Mulheres, registrou, em média, 425 denúncias por dia em 2025.Trata-se de um retrato assustador, considerando que em 2024 houve endurecimento da legislação para autores de feminicídio, com penas de até 40 anos de reclusão e punição maior ao agressor que descumprir medidas protetivas.

Pensado como política pública de caráter permanente, o pacto estabelece como objetivos prioritários acelerar o cumprimento de medidas protetivas de urgência; fortalecer as redes de enfrentamento contra a violência de gênero em todo o território nacional; informar a sociedade sobre os direitos de meninas e mulheres; enfrentar o machismo estrutural.

Mais do que selar uma aliança institucional contra a violência cotidiana dos lares brasileiros, o Pacto Brasil contra o Feminicídio tem uma ambição: promover o engajamento dos homens. Não há como estabelecer um convívio civilizado entre homens e mulheres sem o reforço deles na luta contra a barbárie de gênero. Nesse sentido, a mensagem da primeira-dama, Janja da Silva, resume a motivação que está por trás dessa causa. "Queremos ser respeitadas, queremos ser amadas, queremos ser livres, queremos nos manter vivas e queremos vocês, homens, nessa luta ao nosso lado. Todos por todas", disse na assinatura do Pacto Brasil contra o Feminicídio.

Assim como a criminalidade e a desigualdade social, a violência de gênero é um fenômeno complexo, que demanda múltiplas ações em diferentes níveis. No ano em que a Lei Maria da Penha completa duas décadas de vigência, o Pacto Brasil contra o Feminicídio se propõe a trazer dois avanços relevantes: respostas mais eficientes do poder público e a entrada dos homens nessa batalha. Contra um inimigo covarde e silencioso, que muitas vezes perpetra seus crimes na intimidade familiar e se beneficia do machismo estrutural no país, é absolutamente necessária a participação de todos.

O Povo entre os 10 mais premiados do Brasil

Por O Povo (CE)

Uma notícia tem animado O POVO, não pela surpresa do anúncio, mas pela alegria do reconhecimento. O Grupo de Comunicação O POVO é o primeiro jornal do Ceará a estar entre os dez veículos brasileiros mais premiados da história, ocupando a décima posição do ranking Premiados da Imprensa Brasileira, da Jornalistas Editora Ltda. A plataforma O POVO figura como a mais premiada do Nordeste em 2025.

Os resultados, divulgados na semana que passou, mostram a TV Globo liderando o ranking. O POVO está em 10° com 128 premiações. O POVO se destaca nas colocações publicadas, surgindo como o meio de comunicação mais premiado do Nordeste e o sexto do Brasil em 2025.

O ótimo desempenho do Grupo O POVO é razão de alegria para todos os que fazem o jornal - em suas variadas plataformas - e para o público que o acompanha, pela certeza da boa qualidade dos produtos apresentados. A seriedade com que os conteúdos são publicados e a responsabilidade de suas produções fazem do O POVO um grupo que se orgulha da confiança por parte do público.

Esse registro atesta o momento de pleno frescor do Grupo de Comunicação O POVO. A marca noticiosa, que é chancela de informação confiável há 98 anos, nunca se fez tão forte e tão presente. O que é escrito, interpretado e analisado destina-se a um público final que só se expande e que hoje é contado em milhões de pessoas - no impresso, na versão digital, nos meios audiovisuais e nas redes sociais. Isso tudo fortalece uma marca noticiosa que carrega o orgulho cearense em todas as plataformas que ocupa e o conforto de saber que é um veículo visceralmente ligado às causas do Estado onde mantém sua base.

É certo que O POVO tem desempenhado um papel significativo na história política, social e cultural do Ceará, cobrindo eventos importantes, dando voz a diversas camadas da sociedade e atuando como um canal relevante de informação e debate. Ao longo dos anos, o jornal passou por diversas transformações, adaptando-se às mudanças tecnológicas e ao contexto midiático contemporâneo.

É válido acentuar a qualidade do O POVO , que se consolida como um espaço de inovação e excelência no jornalismo multimídia. Desde a sua criação, em 2020, O POVO tem investido em conteúdos audiovisuais de alta qualidade, combinando a credibilidade de um dos mais respeitados veículos de comunicação do Nordeste com a modernidade das narrativas digitais.

Desse modo, na antevéspera de seu centenário, O POVO se planeja para comemorar uma marca alcançada por poucos jornais brasileiros e internacionais. E essa celebração virá acompanhada do que o Grupo tem feito, de modo ininterrupto, ao longo de todos estes anos: a valorização da pluralidade das ideias em sua linha editorial e o respeito pelo público leitor, com quem dividimos estes números de premiações que tanto nos alegram, incentivam e orgulham. 

 


 

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