O Estado de S. Paulo
O método consiste em induzir o adversário a
uma reação agressiva, para depois retratá-lo como violento
O vídeo retratando Michelle e Barack Obama como macacos, compartilhado e depois removido por Donald Trump em sua rede social, não é um ato impensado. É uma arma de guerra psicológica testada, validada e aprimorada. Chamado de “isca e contragolpe”, o método consiste em induzir o adversário à reação agressiva, para então retratá-lo como violento. O autor apaga aquilo que provocou a reação do oponente, deixa visível apenas essa reação, e reposiciona a si mesmo como vítima da violência do outro.
A mensagem inicial não visa convencer pelo conteúdo, mas criar um gatilho emocional. Os vestígios da causa da reação desaparecem, graças à engenharia dos algoritmos das redes sociais. Preso em bolhas cognitivas, o público-alvo, no caso a maioria branca, esquece a provocação inicial.
A técnica é empregada regularmente pelo time
Trump. No dia 22, Nekima Armstrong, negra de 49 anos, foi presa ao protestar em
uma igreja cujo pastor é agente do ICE, em Minnesota, onde a polícia
anti-imigração matou dois cidadãos americanos à queima-roupa. Armstrong foi
fotografada ao ser presa. Estava calma, com olhar determinado, embora algemada
e acorrentada pela cintura e pelos pés – “o mais próximo que me senti da
escravidão”, disse. Em imagem alterada pela Casa Branca, ela parece desesperada
e agressiva, chorando e com a pele escurecida. “É só um meme”, defendeu o
governo.
Armstrong, mãe de quatro filhos, contou que a
manipulação de sua imagem a abalou porque ela se sente responsável por levar
adiante o legado de seus antepassados, que mantiveram a dignidade mesmo tendo
sido trazidos como escravos da África. Uma sensibilidade que se perde na
convulsão das narrativas.
Em setembro, Trump compartilhou vídeos
gerados por IA que mostravam o líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, que
é negro, com sombrero e bigode mexicanos, ao som de mariachi. A sugestão era
que Jeffries está do lado dos imigrantes. Em 2015, Trump lançou-se candidato
espalhando que Obama não tinha nascido nos EUA e era muçulmano.
Trump ironizou a mistura racial de negra e
indiana de sua adversária Kamala Harris. Em 2019, ele tuitou sobre quatro
deputadas não brancas, três das quais nascidas nos EUA: “Por que elas não
voltam para os lugares de onde vieram?”
Durante protestos em 2020 contra a violência
policial, Trump tuitou “quando os saques começam, os tiros começam”, frase de
um chefe de polícia, em 1967, que remete à repressão de protestos de
comunidades negras. Os exemplos são abundantes.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.