sábado, 21 de fevereiro de 2026

O travessão, esse injustiçado, por Eduardo Affonso

O Globo

Ele abre uma clareira no texto, manda as palavras em volta calarem a boca e diz o que tem de dizer, na lata

Com a IA fazendo revisão gramatical, tradução — e até coluna de opinião! —, há cada vez mais leitores em alerta para o risco de estarem comprando GPT por gente. E um dos sinais mais evidentes da trapaça (sim, usar máquina de escrever é uma coisa, usar “máquina de escrever” é outra...) são os travessões.

Nada mais injusto. O travessão já existia na Idade Média e se consolidou com o advento da imprensa, fazendo o meio de campo com os parênteses, a vírgula e o ponto e vírgula. Os parênteses chamam o leitor para um canto e cochicham alguma coisa, com as mãos em concha. O travessão, não: ele abre uma clareira no texto, manda as palavras em volta calarem a boca e diz o que tem de dizer, na lata. É mais que o respiro dado pela vírgula — é uma pausa dramática. Ela só interrompe; ele cria um clima. Se o ponto e vírgula se esforça para organizar, o travessão apita e manda parar o jogo.

Rubem Braga, o maior de todos os cronistas, usava travessão:

— Tomamos uma modesta cerveja e falamos de coisas antigas — mulheres que brilharam outrora, madrugadas dantanho, flores doutras primaveras. Ia a conversa quente e cordial, ainda que algo melancólica, tal soem ser as parolas vadias de cupinchas velhos — quando o telefone tocou. (“O telefone”, 1951)

Emily Dickinson, então, era useira e vezeira. Augusto de Campos manteve seus travessões ao traduzi-la para o português:

— E assim Parentes pela Noite, sábios —/Conversamos a Sós —/Até que o Musgo encobriu nossos lábios —/E —nomes — logo após — (“Morri pela beleza”, cerca de 1862).

(Repare que Emily o usava até como ponto final, para deixar o verso em suspensão!)

O travessão nasceu bom — a IA é que o corrompeu, transformando-o numa fórmula, numa ilusão de espontaneidade. Ou talvez seja um lapso freudiano, para denunciar a impostura — da IA ou de quem queira fazer passar por seu um texto escrito via prompt. Nem precisava.

Ao contrário do que brotava das páginas de Clarice Lispector, o texto gerado por IA é previsível. O ritmo é “certinho” — passa longe de um Arnaldo Jabor, de uma Fernanda Young. O tom é neutro — insípido, inodoro e indolor — uma espécie de anti-Nélson Rodrigues. Não inventa, não tensiona o idioma — quem tem esses superpoderes são Manoel de Barros, Dalton Trevisan, Guimarães Rosa. Pode parecer inteligente — mas sem a graça de um Machado de Assis, de um Veríssimo. Até delira — mas não como Hilda Hilst. Até consegue escrever sobre qualquer assunto — e uma crônica por dia —, mas não como Antônio Maria.

Há colunista se contentando em ter a ideia e delegar à IA o trabalho sujo da escrita. Mas, assim como se diz que no dia seguinte à invenção do cinto de castidade patenteou-se o abridor de lata, já existem IAs X9 que detectam a fraude. E — acredite! — IAs que “humanizam” textos escritos em gepetês. Dão-lhes um toque de imperfeição, de arbitrariedade. Se permitem uma repetição — e orações começadas por pronome oblíquo. Adicionam uma digressão — para quem escreve, qualquer palavra pode ser uma madeleine. Desamarram uma ponta, se arriscam a desagradar ao leitor — ou a não tirar 1.000 na redação do Enem.

Em suma — não julgue um texto pelos traços mais óbvios. A IA me garantiu que esta coluna é 100% humana — e olha que contei 30 travessões.


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