O Globo
Ele abre uma clareira no texto, manda as
palavras em volta calarem a boca e diz o que tem de dizer, na lata
Com a IA fazendo revisão gramatical, tradução
— e até coluna de opinião! —, há cada vez mais leitores em alerta para o risco
de estarem comprando GPT por gente. E um dos sinais mais evidentes da trapaça
(sim, usar máquina de escrever é uma coisa, usar “máquina de escrever” é
outra...) são os travessões.
Nada mais injusto. O travessão já existia na Idade Média e se consolidou com o advento da imprensa, fazendo o meio de campo com os parênteses, a vírgula e o ponto e vírgula. Os parênteses chamam o leitor para um canto e cochicham alguma coisa, com as mãos em concha. O travessão, não: ele abre uma clareira no texto, manda as palavras em volta calarem a boca e diz o que tem de dizer, na lata. É mais que o respiro dado pela vírgula — é uma pausa dramática. Ela só interrompe; ele cria um clima. Se o ponto e vírgula se esforça para organizar, o travessão apita e manda parar o jogo.
Rubem Braga, o maior de todos os cronistas,
usava travessão:
— Tomamos uma modesta cerveja e falamos de coisas
antigas — mulheres que brilharam outrora, madrugadas dantanho, flores doutras
primaveras. Ia a conversa quente e cordial, ainda que algo melancólica, tal
soem ser as parolas vadias de cupinchas velhos — quando o telefone tocou. (“O
telefone”, 1951)
Emily Dickinson, então, era useira e vezeira.
Augusto de Campos manteve seus travessões ao traduzi-la para o português:
— E assim Parentes pela Noite, sábios
—/Conversamos a Sós —/Até que o Musgo encobriu nossos lábios —/E —nomes — logo
após — (“Morri pela beleza”, cerca de 1862).
(Repare que Emily o usava até como ponto
final, para deixar o verso em suspensão!)
O travessão nasceu bom — a IA é que o
corrompeu, transformando-o numa fórmula, numa ilusão de espontaneidade. Ou
talvez seja um lapso freudiano, para denunciar a impostura — da IA ou de quem
queira fazer passar por seu um texto escrito via prompt. Nem precisava.
Ao contrário do que brotava das páginas de
Clarice Lispector, o texto gerado por IA é previsível. O ritmo é “certinho” —
passa longe de um Arnaldo Jabor, de uma Fernanda Young. O tom é neutro —
insípido, inodoro e indolor — uma espécie de anti-Nélson Rodrigues. Não
inventa, não tensiona o idioma — quem tem esses superpoderes são Manoel de
Barros, Dalton Trevisan, Guimarães Rosa. Pode parecer inteligente — mas sem a
graça de um Machado de Assis, de um Veríssimo. Até delira — mas não como Hilda
Hilst. Até consegue escrever sobre qualquer assunto — e uma crônica por dia —,
mas não como Antônio Maria.
Há colunista se contentando em ter a ideia e
delegar à IA o trabalho sujo da escrita. Mas, assim como se diz que no dia
seguinte à invenção do cinto de castidade patenteou-se o abridor de lata, já
existem IAs X9 que detectam a fraude. E — acredite! — IAs que “humanizam”
textos escritos em gepetês. Dão-lhes um toque de imperfeição, de
arbitrariedade. Se permitem uma repetição — e orações começadas por pronome
oblíquo. Adicionam uma digressão — para quem escreve, qualquer palavra pode ser
uma madeleine. Desamarram uma ponta, se arriscam a desagradar ao leitor — ou a
não tirar 1.000 na redação do Enem.
Em suma — não julgue um texto pelos traços
mais óbvios. A IA me garantiu que esta coluna é 100% humana — e olha que contei
30 travessões.

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