Folha de S. Paulo
Máquina neofascista intensifica coordenação
psíquica dos indivíduos, liberando-os para seguir os próprios instintos por
mais persecutórios e violentos que sejam
Não tem a ver com realidade econômica nem
política, mas com o temor ressentido de que a identidade pessoal esteja
ameaçada
Num aprazível condomínio da região serrana do Rio vive o que me apontaram como "o último bolsonarista". Uma hipérbole, senão mero exagero; basta conferir as pesquisas eleitorais. Mas ele representa todo conjunto onde ninguém mais admite publicamente conexão com Bolsonaro, embora guarde ativo o fetiche do nome. Como um palavrão silencioso. "Último" também metaforiza aqui o inglês "ultimate", que designa atitude extrema, de ir até o fim.
O exemplo em pauta emergiu do silêncio de um
adepto notório, pela violação de seu tabu condominial: o filho de 6 anos do
zelador, residente no local, molhou os pés na piscina comum. Ele exige agora
proibição formal, para constrangimento da maioria, pois o acesso é franqueado
pela convenção. Mantidas as proporções, é fato análogo ao do ex-ministro da
Fazenda bolsonarista, ultrajado por
viagem de empregada doméstica à Disney. Hoje é guru do filho 01,
viajante tão frequente que parece fazer campanha nos EUA pela presidência do
Brasil.
O nome Bolsonaro, grife posta no mercado
partidário, virou lubrificante para que a máquina neofascista persista nos
corpos biopolíticos dos adeptos. Essa "máquina" não é um objeto
técnico, mas um dispositivo sociopolítico que conecta fragmentos ideológicos da
ultradireita contemporânea. Ela avança nos fenômenos de atração e repulsa
sociais, cujos tópicos de insatisfação incidem sobre as mudanças nos costumes e
a ascensão de minorias ao plano visível da sociabilidade.
Séculos antes, no "Hamlet", Shakespeare concebia
genialmente uma "destilação leprosa" na consciência. E ao falar do
fascismo como "mutação antropológica", o cinepoeta Pasolini enxergou
verdadeira transformação "genética". O que hoje faz a máquina
neofascista é intensificar a coordenação psíquica dos indivíduos, liberando-os
para seguir os próprios instintos por mais persecutórios e violentos que sejam.
Todas as variações de uma região do mundo para outra podem se encaixar numa
lista de repulsas em que figuram o pobre, o preto, o gênero divergente.
Daí uma incongruência na atitude do citado
"último": a família visada tem pele clara, escolaridade superior e
fino trato. Uma explicação provável é a inerência do sujeito a uma fantasia
pessoal, uma identidade guardada no fundo de si mesmo, ao modo de uma igualdade
de estirpe que o impediria, por secreta hierarquia, de reconhecer um zelador
como socius. É a shakespeareana "destilação leprosa" que, entre nós,
conduz à rejeição antipetista. Não tem a ver com realidade econômica
(desemprego baixo, inflação controlada) nem política (estabilização
democrática), mas com o temor ressentido de que a identidade pessoal esteja
ameaçada.
O "último bolsonarista" não é uma
ficção e vale como paradigma do homúnculo moral, cuja benignidade é apenas
tempo de espera de carta branca para humilhar o zelador, a doméstica, o
vulnerável. Enquanto isso, nas prospecções eleitorais, contam-se em 32% os eleitores
independentes, ditos "pêndulos", dos quais pouco se sabe sobre o
potencial de autonomia frente à máquina neofascista, sempre ativa. Para
desgosto dos "últimos", entretanto, as pesquisas indicam que o
retorno da marca Bolsonaro inspira aversão popular maior do que a dirigida ao
petismo.

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