domingo, 22 de fevereiro de 2026

Quando o impoderável entra em cena, por Gaudêncio Torquato

Folha de S. Paulo

História política brasileira está repleta desses momentos; análise eleitoral deve acompanhar doses de humildade

A política não é apenas a arte do possível, mas também a ciência do imprevisível

Na política, há um fator incontrolável que não pede licença para entrar no saguão eleitoral e mudar o mapa dos votos. É o imponderável. Pode ocorrer a qualquer momento, em qualquer lugar. Acidentes ou incidentes graves, eventos de grande impacto, borrascas inesperadas se escondem na caixa das coisas imponderáveis —prontas para saltar sobre campanhas que pareciam seguir, firmes, o roteiro previamente traçado pelos marqueteiros.

Conto uma historinha.

Eleições de 1986. Comício de encerramento do candidato ao governo do Piauí Freitas Neto (antigo PFL), na praça do Marquês. Desde a manhã, carros de som cruzavam Teresina convidando o povo para o monumental show de Elba Ramalho. A promessa de música e festa atraía multidões. Às 18h, a praça já estava lotada. A massa urrava em coro: "Queremos Elba! Queremos Elba!".

Os caminhões com os equipamentos de som só chegaram em cima da hora. E então, como se convocado por alguma divindade caprichosa, começou a cair um toró. Pipocos e faíscas tomaram conta do palco improvisado. Os cabos, em curto-circuito, queimaram. Comício sem som?

Elba mostrou o contrato: "Sem som, não canto".

Sob insistente apelo do candidato, propôs cantar ao menos uma música. Arrumaram um banjo para acompanhá-la. Começando a entoar um de seus hits —"Bate, bate, bate, coração..."—, a cantora parou, de repente, e passou a vociferar: "Imbecis, ignorantes, malvados, não façam isso!". No meio da multidão, a cena constrangedora: populares abriam a boca de um jumento e despejavam nela uma garrafa de cachaça.

O comício terminou sob apupos. Três dias depois, o candidato perderia a eleição por uma diferença de 1,66% dos votos. Carlos Mateus, então dirigente do Instituto de Pesquisas Gallup, garantia que Freitas Neto ganharia o pleito por um índice em torno de 3% a mais. O episódio correu de boca em boca, transformando-se em anedota política —e, mais do que isso, em símbolo de um fenômeno que escapa às planilhas e aos modelos estatísticos.

Às vezes, em minhas palestras, perguntam-me: "Professor, não pode haver um imponderável na política?". Respondo: "Pode, sim. Por exemplo, um jumento embriagado no Piauí".

O imponderável é a variável que subverte tendências, desorganiza estratégias e desmonta narrativas. Está presente no tropeço de um candidato, no lapso de linguagem, na chuva que alaga o palanque, na falha técnica que impede a transmissão de um debate, no vídeo que viraliza na última semana de campanha, no escândalo que emerge às vésperas da votação. Jair Bolsonaro (PL) foi eleito presidente da República, em 2018, por um voto puxado pela facada. É o instante em que a realidade invade o script.

Campanhas são construídas com base em diagnósticos: pesquisas de intenção de voto, análise de clusters sociais, modelagens de comportamento eleitoral, leitura de humores difusos. O marketing político busca reduzir incertezas, antecipar cenários, simular reações. Mas há sempre um ponto cego, uma zona de indeterminação onde a lógica cede espaço ao acaso.

O imponderável não respeita cronogramas. Não consulta consultores. Não aguarda a próxima rodada de tracking. Ele irrompe.

Pode ser um evento climático, uma tragédia local, um incidente em comício, uma declaração atravessada, um gesto interpretado como desdém. Pode ser, ainda, a emergência súbita de um tema que reorganiza o debate público —segurança, inflação, corrupção, saúde— deslocando o eixo da disputa e, com ele, preferências eleitorais que pareciam consolidadas.

A história política brasileira está repleta desses momentos. De campanhas que naufragaram na calmaria aparente e de candidaturas que ganharam fôlego em meio à tempestade. O voto, afinal, é também uma reação emocional ao inesperado. O eleitor não decide apenas com base em programas e promessas; decide, muitas vezes, a partir de impressões formadas no calor de acontecimentos que ninguém previu.

Por isso, toda análise eleitoral deve ser acompanhada de uma dose de humildade. Entre a intenção de voto medida hoje e o resultado apurado amanhã, há um território instável, povoado por imprevistos. É ali que o imponderável arma suas emboscadas.

No fim das contas, a política não é apenas a arte do possível. É, também, a ciência do imprevisível.

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