Valor Econômico
Regras do jogo precisam estar sempre muito claras e firmes
Uma das políticas públicas mais bem-avaliadas na Bahia é o Hospital do Subúrbio, construído e operado no modelo Parceria Público-Privada (PPP). Foi inaugurado em 2010, quando o governador era Jaques Wagner (PT). Embora Rui Costa, que à época era secretário de Wagner, seja ministro da Casa Civil desde 2023 e tenha sob sua responsabilidade o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), só recentemente as PPPs de hospitais ganharam impulso no governo federal. A mudança veio quando Alexandre Padilha assumiu o comando da pasta de Saúde, em março de 2025.
São dois hospitais federais a serem
construídos por meio de PPPs, informou o ministro na semana passada, quando
esteve na embaixada da Índia para o lançamento da Associação Brasileira da
Indústria Farmacêutica Indiana (Abrifi).
Um, informou, é um complexo inteligente do
Grupo Hospitalar Conceição (GHC) com investimentos estimados em R$ 1,3 bilhão.
Outro é o novo Instituto Nacional do Câncer (Inca), uma PPP de aproximadamente
R$ 1,6 bilhão.
Acompanhando o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva na viagem à Índia, Padilha quer tratar do uso de inteligência artificial
em hospitais no Brasil, o que deve envolver essas duas PPPs. O foco, porém, é
um hospital 100% inteligente a ser construído com financiamento do banco do
Brics em São Paulo e a constituição de uma rede de 14 UTIs inteligentes em 13
Estados.
Das duas PPPs, a do Inca é a que está mais
adiantada. O projeto envolve reunir num único local o que hoje está espalhado
em 18 endereços, informou à coluna Manoel Renato, secretário adjunto de
Infraestrutura Social do PPI. Os investimentos e equipamentos necessários ainda
estão sendo definidos, de forma que a cifra pode ultrapassar o valor informado
pelo ministro e se aproximar dos R$ 2 bilhões. Serão 450 leitos.
A expectativa é que o projeto vá a consulta
pública no início do segundo semestre. Depois, precisará ser submetido ao
Tribunal de Contas da União (TCU). Assim, o leilão é esperado entre o fim deste
ano e o início de 2027.
O complexo do GHC está ainda em fase de
contratação de consultorias para elaboração do projeto. Terá um hospital da mulher,
um hospital da criança, um centro obstétrico e o hospital Cristo Redentor.
Serão oferecidos 750 leitos. Só deverá ir a leilão no fim de 2027 ou início de
2028.
Os dois hospitais são do tipo “bata cinza”.
Isso quer dizer que o sócio privado vai prestar os serviços-meio, como
manutenção, limpeza, hotelaria. Os profissionais de saúde serão do SUS.
Essa separação é importante para evitar
resistências políticas ao projeto, comentou Frederico Ribeiro, sócio da Radar
PPP. No governo de Jair Bolsonaro, uma consulta pública sobre o uso de PPPs em
unidades básicas de saúde virou uma onda de desinformação. A iniciativa foi
tachada de tentativa de privatização do SUS.
Essa delicadeza política pode ajudar a
explicar por que só agora o governo federal avançou com PPPs em saúde, comentou
Ribeiro. Outro motivo é que o atendimento na ponta para saúde é atribuição mais
a cargo de Estados e municípios.
É por essa razão que os entes subnacionais
têm um número maior de PPPs em saúde. Aos poucos, a confusão sobre “privatização
do SUS” e as PPPs tem sido superada, avaliou o especialista.
Há uma terceira PPP na área de saúde em
estruturação no governo federal. É a construção do Complexo Industrial de
Imunobiológicos e Biotecnologia de Manguinhos (RJ). "É uma fábrica que
vai, no mínimo, duplicar a capacidade de produção de vacinas no país. na
infraestrutura da Fiocruz”, contou Manoel Renato. Os investimentos são
estimados em US$ 1 bilhão.
“Aqui tem um desafio gigantesco, que é atrair
um parceiro privado capaz de produzir esse tipo de produto, que tem uma
sofisticação muito grande, normas de qualidade muito rigorosas, e que tope vir
para um país como o nosso, de características não centrais, e desenvolver um
projeto dessa envergadura”, comentou o secretário.
Para elaborar o projeto, foi contratada a
Corporação Financeira Internacional (IFC, na sigla em inglês), braço de
estruturação do Banco Mundial. “Com toda a expertise internacional que ela tem,
está nos ajudando a não só construir um projeto que seja adequado para atender
às necessidades do país, mas também que seja viável do ponto de vista de
atração de capitais e atração de interesse internacional”, disse Manoel Renato.
O Brasil vive um “boom” de novas PPPs na área
social, principalmente de escolas e creches. Na etapa anterior, diversas
prefeituras celebraram PPPs para iluminação pública e manejo de resíduos
sólidos. É uma fórmula que, aos poucos, vem disputando espaço com o modelo
tradicional de obras públicas.
O desafio que isso coloca é a capacidade dos
servidores em elaborar e administrar os contratos de PPPs, comentou Ribeiro. “É
um endividamento de longo prazo, são projetos em que alguns riscos ficam em mão
do poder público e a materialização desses riscos pode elevar drasticamente os
gastos que os governos terão com as obrigações contratualizadas.”
Parcerias com o setor privado permitem
acelerar investimentos no atual quadro de restrição fiscal, mas as regras do
jogo precisam estar sempre muito claras e firmes.

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