O Globo
São 11 integrantes que, em tese, podem errar
por último. Não há mais ninguém, ou nenhuma outra instituição, acima deles
A democracia é o pior dos regimes com exceção de todos os demais, já reconhecia o grande estadista e primeiro-ministro inglês Winston Churchill, especialista em ler a alma humana. Se não fosse assim, como seria possível que a mesma instituição reconhecida como fundamental pela defesa da democracia brasileira seja vista, pouco depois, como responsável por seu desfiguramento?
São 11 integrantes que, em tese, podem errar
por último. Não há mais ninguém, ou nenhuma outra instituição, acima deles.
Como são humanos, a sensação de ser inatingível afeta suas decisões e os faz
brincar de Deus. Quanto às coisas materiais, que alguns integrantes desse
plenário consideram ser seu direito obter, é comum aos poderosos a sensação de
merecerem ter regalias que o comum dos mortais não tem.
Um raciocínio normalizado entre os poderosos
é acreditar serem tão bons gestores, ou líderes, que, se estivessem na
iniciativa privada, ganhariam fortunas que lhes são proibidas por uma
legislação arcaica e ilegítima. Assim aquietam suas consciências, justificam
para si mesmos os favores que aceitam. Por que um banqueiro pode ter um jatinho
para ir ver um jogo de seu time no exterior, e eu, de quem ele depende, não
posso nem mesmo pegar carona? Por que ser empresário e julgador ao mesmo tempo
é proibido por lei, se tenho um faro empreendedor vitorioso? Por que tenho de
declarar publicamente meus ganhos em palestras e congressos, colocando em risco
meus familiares?
São perguntas banais, que não deveriam
afligir homens tão ilustres, às voltas com questões nacionais fundamentais. Por
que os escritórios de advocacia de meus filhos e de minha mulher não podem
atuar em questões relevantes que serão julgadas pelos 11 ilustres que se
dedicam a salvar a pátria diariamente? Meus parentes estão condenados a mudar
de profissão, não poderão usufruir o legado que deixei ao ser convocado para o
alto serviço da pátria?
Há quem anteveja questões morais que uma
escolha dessas impõe e prefira continuar fazendo seu trabalho independente. Foi
o caso do grande Sobral Pinto, que recusou um convite do presidente da época,
explicando que, se votasse contra o governo, seria chamado de ingrato e se
votasse a favor seria acusado de bajulador. Muito melhor que estar às voltas
com problemas de consciência, tentando eternamente se desculpar por uma decisão
que tenha tomado por fraqueza de caráter, ou simplesmente incompetência.
O fato de ser o presidente quem escolhe o
felizardo dá à escolha um caráter político. No tempo em que os bichos falavam,
a escolha era pelos grandes mestres, reconhecidos nacionalmente. Não precisava
de explicações. O poder do Supremo ganhou uma dimensão tão essencial na
política que a escolha passou a ser de outra natureza. Fulano vai “matar no
peito”? Beltrano será fiel? (Fiel a quem, à Constituição ou a quem o colocou
lá?) Como toda escolha política, essa também vai na conta de pedidos, de
influências de várias maneiras: políticas, econômicas, religiosas.
Houve tempo em que um presidente de esquerda
escolheu um jurista católico de direita para o cargo. Hoje, não mais. Houve
tempo em que, em solidariedade a ministros cassados pela ditadura, dois colegas
seus se aposentaram. Hoje, o corporativismo funciona para evitar que um colega
de plenário seja considerado impedido de julgar o caso de um banco com que sua
empresa familiar fez negócios vultosos. Fato que foi escondido por Sua
Excelência ao assumir a relatoria do caso e só se descobriu devido a
reportagens da imprensa livre, hoje atacada para também proteger interesses
familiares.

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