O Estado de S. Paulo
A solução do caso Master não neutralizou a crise da Corte. Alimentou outra guerra
A intenção de Edson Fachin era retirar o
Supremo Tribunal Federal (STF) do centro do escândalo do Banco Master. De forma
pouco usual, convocou uma reunião a portas fechadas. Dias Toffoli foi
convencido a deixar a relatoria do caso, mas a solução não neutralizou a crise
interna do tribunal. Ao contrário, alimentou outra guerra.
A tática de Fachin contrariou interesses do grupo de Toffoli, que tem entre os componentes Alexandre de Moraes. Quatro dias depois da reunião secreta, estourou a notícia de que Moraes havia mandado a Receita Federal rastrear a origem de supostos vazamentos de dados sigilosos de ministros do Supremo e seus parentes.
Nos bastidores, três aliados de Fachin
ficaram incomodados. Para eles, caberia ao presidente da Corte tomar decisões
desse tipo. Moraes já havia polemizado em janeiro, quando inseriu a apuração
que mira a Receita e o Coaf no inquérito das fake news, do qual já era relator,
sem consultar a Procuradoria-Geral da República (PGR).
O enredo e os personagens repetem a gênese do
inquérito das fake news, em 2019. Toffoli era presidente do STF e, sem ouvir a
PGR, abriu investigação para apurar ataques a integrantes da Corte. Preferiu
não sortear o relator e deu a tarefa a Moraes.
Na época, ministros do Supremo criticaram a
forma como o inquérito foi aberto. Quase um ano e meio depois, mudaram de ideia.
Por dez votos a um, o plenário decidiu manter a apuração aberta. O aumento dos
ataques a integrantes da Corte e a chance de punição aos culpados motivaram a
virada de chave.
A investigação sobre os órgãos de
fiscalização do governo federal também pode parar no plenário do STF, se ela
tiver a legitimidade contestada. Foi o que aconteceu com o inquérito das fake
news.
A ação julgada em 2020 foi proposta pela Rede
Sustentabilidade. No voto, Fachin observou que o inquérito era atípico, mas
ponderou que a excepcionalidade era aceitável diante da omissão da Polícia
Federal e da PGR para investigar crimes contra ministros do Supremo.
Duas diferenças em relação ao inquérito das
fake news podem comprometer o caso da Receita e do Coaf. Primeiro, quem abriu a
investigação atual foi o próprio relator, não o presidente do tribunal.
Segundo, o STF estava sendo atacado como um todo em 2019. Até agora, os
vazamentos detectados se referem à esposa de Moraes e a uma enteada de Gilmar
Mendes – que, por sua vez, é aliado do relator.
No voto de seis anos atrás, Fachin deixou uma
recomendação útil ao STF de hoje, que se habituou a tomar decisões pouco usuais
para justificar os fins: “É preciso precatar-se para que a dose do remédio não
o torne um veneno”.

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