quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

As urnas e os desconfiados, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Resultados de pesquisa sobre as urnas eletrônicas não trazem alento aos democratas brasileiros

Cidadãos desconfiados das instituições democráticas não são propriamente novidade no Brasil

Pelo menos 4 em cada 10 brasileiros acham que as urnas eletrônicas não são confiáveis; maioria apertada de 53% pensa o contrário. Esses valores médios escondem diferenças enormes, que espelham as inclinações políticas dos entrevistados. Enquanto 75% dos que apoiaram Lula no segundo turno de 2022 não veem problema na maquininha de votar, só 26% dos eleitores de Bolsonaro acham que ela produz resultados criveis. Os dados são de um recente levantamento da Genial/Quaest.

Só as esquerdas, que a pesquisa separa em lulistas e não-lulistas, formam maioria —bem acima da média— em apoio à votação eletrônica. É irrisória a parcela da direita bolsonarista (18%) que compartilha essa opinião positiva, o mesmo acontecendo com apenas 30% dos direitistas que não seguem fielmente o ex-capitão. Já os entrevistados que se dizem independentes dos dois campos políticos dividem-se quase na mesma proporção que a média dos entrevistados: 55% confiam nas urnas e 41%, não.

Cidadãos desconfiados das instituições democráticas não são propriamente novidade no Brasil, nem em outras paragens onde prevalece o governo representativo. É o que se vê na edição de 2025 do "Government at Glance" (Panorama do Governo), publicada pela OCDE. O estudo dedica um capítulo inteiro à confiança nas instituições públicas nos 38 países que formam a organização. Para os autores do relatório, a desconfiança é um indicador do hiato entre as expectativas dos cidadãos e o que as instituições efetivamente oferecem nas sociedades democráticas. De fato, parece ser também consequência inevitável do próprio sistema representativo que, nas democracias contemporâneas, distancia inexoravelmente representantes e representados.

A interpretação do fenômeno divide os cientistas políticos. Alguns concebem a descrença nas instituições como sintoma de mal-estar, se não de crise, das democracias representativas. Outros, como o historiador francês Pierre Rosanvallon, a encaram como indício da existência de uma cidadania mais atenta ao que fazem os governos e mais apta a sustentar mecanismos de controle dos governantes. Essa é a tese que defende em "La contre-démocratie. La politique à l’âge de la défiance" (A contra-democracia: a política na era da desconfiança).

De toda forma, os resultados da pesquisa sobre as urnas eletrônicas não trazem alento aos democratas brasileiros. Afinal, as eleições livres e limpas são o coração do sistema, e o respeito aos resultados garante a sua continuidade. A dúvida sobre a integridade do processo eleitoral sempre pode ser explorada por lideranças e movimentos de feição autoritária. Foi o que fez Jair Bolsonaro, e é o que provavelmente fará quem reivindica sua herança política.

Na sexta-feira passada, o Brasil perdeu José Alvaro Moisés, cientista político e professor da Universidade de São Paulo. Ele foi, ao mesmo tempo, acadêmico respeitado e intelectual na primeira linha da defesa da democracia. A desconfiança cidadã era um dos seus temas mais caros. A seu juízo, a baixa confiança institucional gerava "ambivalência democrática", ou seja, apoio à democracia em abstrato, mas tolerância a soluções autoritárias em situações de crise. Ele se foi; sua obra permanece atualíssima.

 

 

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