Folha de S. Paulo
Resultados de pesquisa sobre as urnas eletrônicas
não trazem alento aos democratas brasileiros
Cidadãos desconfiados das instituições
democráticas não são propriamente novidade no Brasil
Pelo menos 4 em cada 10 brasileiros acham que as urnas eletrônicas não são confiáveis; maioria apertada de 53% pensa o contrário. Esses valores médios escondem diferenças enormes, que espelham as inclinações políticas dos entrevistados. Enquanto 75% dos que apoiaram Lula no segundo turno de 2022 não veem problema na maquininha de votar, só 26% dos eleitores de Bolsonaro acham que ela produz resultados criveis. Os dados são de um recente levantamento da Genial/Quaest.
Só as esquerdas, que a pesquisa separa em
lulistas e não-lulistas, formam maioria —bem acima da média— em apoio à votação
eletrônica. É irrisória a parcela da direita
bolsonarista (18%) que compartilha essa opinião positiva, o mesmo
acontecendo com apenas 30% dos direitistas que não seguem fielmente o
ex-capitão. Já os entrevistados que se dizem independentes dos dois campos
políticos dividem-se quase na mesma proporção que a média dos entrevistados:
55% confiam nas urnas e 41%, não.
Cidadãos desconfiados das instituições
democráticas não são propriamente novidade no Brasil, nem em outras paragens
onde prevalece o governo representativo. É o que se vê na edição de 2025 do
"Government at Glance" (Panorama do Governo), publicada pela OCDE. O
estudo dedica um capítulo inteiro à confiança nas instituições públicas nos 38
países que formam a organização. Para os autores do relatório, a desconfiança é
um indicador do hiato entre as expectativas dos cidadãos e o que as
instituições efetivamente oferecem nas sociedades democráticas. De fato, parece
ser também consequência inevitável do próprio sistema representativo que, nas
democracias contemporâneas, distancia inexoravelmente representantes e
representados.
A interpretação do fenômeno divide os
cientistas políticos. Alguns concebem a descrença nas instituições como sintoma
de mal-estar, se não de crise, das democracias representativas. Outros, como o
historiador francês Pierre Rosanvallon, a encaram como indício da existência de
uma cidadania mais atenta ao que fazem os governos e mais apta a sustentar
mecanismos de controle dos governantes. Essa é a tese que defende em "La
contre-démocratie. La politique à l’âge de la défiance" (A
contra-democracia: a política na era da desconfiança).
De toda forma, os resultados da pesquisa
sobre as urnas eletrônicas não trazem alento aos democratas brasileiros.
Afinal, as eleições livres
e limpas são o coração do sistema, e o respeito aos resultados garante a sua
continuidade. A dúvida sobre a integridade do processo eleitoral sempre pode
ser explorada por lideranças e movimentos de feição autoritária. Foi o que
fez Jair
Bolsonaro, e é o que provavelmente fará quem reivindica sua herança
política.
Na sexta-feira passada, o Brasil perdeu José
Alvaro Moisés, cientista político e professor da Universidade de São Paulo. Ele
foi, ao mesmo tempo, acadêmico respeitado e intelectual na primeira linha da
defesa da democracia. A desconfiança cidadã era um dos seus temas mais caros. A
seu juízo, a baixa confiança institucional gerava "ambivalência
democrática", ou seja, apoio à democracia em abstrato, mas tolerância a soluções
autoritárias em situações de crise. Ele se foi; sua obra permanece atualíssima.

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