Folha de S. Paulo
Corte se concentra em casos que possam lhe
render pontos junto ao público
Manobra pode aliviar pressão, mas não resolve
problemas, que são reais
Acuado pelo escândalo do banco Master, o STF tenta limpar a própria barra, avançando em agendas que lhe rendam pontos junto ao público. O calendário lhe sorriu. A condenação dos mandantes do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes já estava precificada, mas calhou de o julgamento acontecer agora, num momento em que o tribunal precisa desesperadamente de fatos positivos. E sempre pegam bem manchetes mostrando que os ministros estão fazendo o que se espera deles.
O STF, por intermédio de Flávio Dino e Gilmar Mendes,
dois dos juízes mais políticos da corte, também acelerou decisões sobre casos
que já tramitavam e podem ter algum apelo popular. Penso especificamente na
questão dos penduricalhos
salariais de servidores públicos e dos desvios em emendas
parlamentares. São pautas de evidente interesse público. Se
evoluirmos nessas matérias, esse terá sido um efeito colateral positivo do
escândalo que tanto dano causou ao tribunal.
Aplaudo eventuais avanços, mas receio que as
coisas não sejam tão simples. Em primeiro lugar, convém não subestimar a força
dos interesses contrariados. Opor-se a penduricalhos e disciplinar emendas
significa comprar briga com a base da magistratura, os ministérios públicos e o
Legislativo. Não é gente hipossuficiente e sem bala na agulha. O governo, que
poderia ser um aliado natural nessas duas agendas, tende a fugir de confusões
em ano eleitoral.
Mais importante, a mudança de foco até pode
aliviar um pouco da pressão, mas não resolve o problema. A crise não é
inventada. Ministros trilharam caminhos que os desqualificam como agentes
decisores e a corte, aí como órgão colegiado, não tem usado seus poderes com
sabedoria.
Não penso que possa haver resgate da
credibilidade sem uma boa reforma, que exigiria cortar na carne e rever muitos
de seus usos e costumes. Infelizmente, não há nenhum sinal de que isso possa
ocorrer. Pelo contrário, o STF não cessa de emitir sinais de que, quando a
coisa aperta, é o corporativismo e não a institucionalidade que triunfa.
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