sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Terceira via: tem alguma? Por José de Souza Martins

Valor Econômico

Quem quer que esteja limitando-se a pesquisas eleitorais precoces quer difundir o pressuposto de que só existe uma direita e de que só existe uma esquerda

Há mais de um ano que pesquisas de opinião eleitoral sobre preferências nas eleições de 2026 tentam nos convencer de que tudo já está quase decidido. Mal escondem o possível intuito de despistar os eleitores, fazendo-os supor que a lógica do pleito é uma só. O país não teria outra alternativa senão a da polarização de esquerda e direita.

Foi Brizola quem viu no PT e no ideário petista uma variante da social-democracia. Portanto, um partido social, de centro-esquerda, e não um partido de esquerda como os partidos clássicos dessa orientação.

Um partido sob o risco eventual de perder eleitorado para partidos de direita, de classe média. Menos por mudar de lado, mas porque a realidade social sofreu na simbolicamente petista região do ABC imensas mudanças. Ela deixou de ser região majoritariamente operária, passou pela reestruturação produtiva e pelo início da desindustrialização.

Caracterizou-se, também, por uma mudança demográfica significativa. A grande maioria dos trabalhadores das fábricas deixou de ser de residentes do ABC para ser de moradores dos municípios vizinhos, inclusive da capital paulista. E os eleitores regionais, residentes no ABC, são trabalhadores em outros municípios. Situação de classe social e orientação eleitoral desconectaram-se.

Quem quer que esteja limitando-se a pesquisas eleitorais precoces, sabendo-o ou não, quer difundir o pressuposto de que só existe uma direita e de que só existe uma esquerda. Essa prisão ideológica pressupõe, com tais dados, o bloqueio da reflexão política. Os partidos, não só os da polarização, não parecem interessados no desbloqueio.

Não querem que o eleitor se pergunte: qual direita? Qual esquerda? No processo político, sobretudo no processo eleitoral, nem tudo é visível e menos ainda já chegou de fato à consciência de quem vai votar. No início de 1989, petistas já cantavam o “Lula-lá” com ânimo exaltado. Até hostilizavam quem ousasse ter dúvidas quanto a se Lula seria o eleito. Apenas os melhor informados intuíam que o estranho Fernando Collor, que não era candidato, poderia sê-lo. E acabou sendo candidato e eleito.

É significativo que no ABC, onde o PT nasceu e foi hegemônico por longo tempo, nas eleições dos últimos anos, o eleitorado começou a dele se afastar para a direita. As novas gerações, de filhos dos manifestantes de esquerda do Estádio de Vila Euclides, ganharam um perfil diverso do dos pais. Tornaram-se direitistas no comportamento, com episódios de racismo e de misoginia. O PT, que tem dado demonstrações de considerar-se patrono da ascensão social do operariado, criou a categoria social dos que com ele já não se identificam, a classe média.

E a direita, no caso de Fernando Henrique e de José Serra, e do PSDB, que não são nem eram de direita, são originários de movimentos políticos mais autenticamente de esquerda. Diferentemente do que ocorre com o PT, cujos eleitores se identificam com Lula e não necessariamente com o partido, o PSDB não conta com uma lealdade política de seus eleitores que reconstitua os fatores de sua restauração, continuidade e representatividade. O PSDB foi em boa parte fruto da pluralidade social e ideológica do povo brasileiro, que os oportunistas do partido destruíram.

O núcleo decisivo do outro lado da polarização tem demonstrado vitalidade causada por algo que é bem diferente do que acontece com o PT. Sabendo ou não sabendo, a família Bolsonaro atua como uma dinastia, embora falsa. Usa o nome de família, como se fosse marca de massa de tomate, uma anomalia política. O pai pode estar na cadeia, mas o nome não está. Enquanto houver um varão que procrie alguém com esse sobrenome, ainda que em declínio, a visibilidade da marca estará assegurada.

Os Bolsonaros têm inimigos naturais. Os que se aproveitam da deterioração política do nome, os factoides ansiosos por personificá-los e usurpar-lhes o prestígio difuso e enganoso. Mas, em seu caso, o eleitor da direita não parece vulnerável à deterioração da identidade e da consistência do grupo. Até porque não são um partido. São uma aglomeração não unificada por ideologia ou doutrina, mas por ambição de poder.

Os fatores da disputa não são os mesmos nos seus diferentes grupos. Quando se observa o comportamento de deputados bolsonaristas na Câmara dos Deputados, é fácil notar que eles se reproduzem nos gestos, no modo de falar e de desqualificar os opositores. Tenho a impressão de que Olavo de Carvalho foi o inventor do método pedagógico para reproduzir os atores desse perfil.

Algo muito parecido com o que também acontece com as seitas religiosas fundamentalistas que aderiram ao bolsonarismo.

A direita industrializou a produção de adeptos.

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