sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

'Todas as famílias felizes se parecem', por Andrea Jubé

Valor Econômico

Controvérsia sobre os valores da família brasileira despertada pela escola de samba que homenageou o presidente Lula é politicamente relevante e eleitoralmente potente

A controvérsia sobre os valores da família brasileira despertada pela escola de samba que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e que em uma das alas criticou os “Neoconservadores em conserva”, é politicamente relevante e eleitoralmente potente. Contudo, desperta uma sensação de déjà vu, que nos transporta ao século 19.

Quem não se recorda da antológica frase de abertura de “Anna Kariênina”? “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Quando Tolstói escreveu o romance - um clássico da literatura universal - entre 1873 e 1877, lançou o debate sobre modelos de convívio familiar e a noção de progresso, associada a valores econômicos e sociais. Puniu a heroína infiel com o famoso desfecho trágico. Perto dos 45 anos, era um autor consagrado por “Guerra e paz”, casado e tinha quatro filhos: era a personificação do homem de família feliz.

Quase 150 anos depois, a oposição pode se refestelar com a polêmica levantada pela escola que na intenção de afagar o presidente da Republica, se não o prejudicou eleitoralmente, causou danos à sua imagem que os petistas terão de rebolar para contornar. As cúpulas do governo e do PT ainda avaliam internamente a dimensão do estrago gerado pelo desfile da Acadêmicos de Niterói.

O rebaixamento da escola é um constrangimento residual, a futura batalha jurídica sobre eventual campanha antecipada incomoda, porém, a real preocupação volta-se à ala que retratou famílias dentro de latas de ervilha, algumas com referências religiosas. A percepção é de um inevitável desgaste com o eleitor conservador, em especial, o evangélico - que representa quase 30% da população.

Uma fonte governista salientou que não é racional tentar reduzir a relação de Lula com as famílias brasileiras à alegoria de uma escola de samba, e ressalvou que o “samba é criativo e crítico” por definição.

O problema foi a falta de senso de oportunidade em uma conjuntura politicamente desfavorável, em que a polarização que divide a sociedade entre bolsonarismo e lulismo desde 2018 parece cristalizada, indicando uma eleição acirrada como a de 2022. Sempre bom lembrar: naquele pleito, Lula obteve 50,9% dos votos válidos, vencendo Jair Bolsonaro (PL) por uma margem apertada de 2,1 milhões de votos (1,8% do total).

Foi um banquete para a oposição. Em alusão ao desfile da escola que homenageou Lula, em publicação em seus perfis nas redes sociais, o pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (RJ) dirige-se a quem “não é de esquerda nem de direita”, mas que não ficou feliz “com o dinheiro dos impostos sendo utilizado para campanha antecipada”, ou com sua fé e o pastor de sua igreja sendo “alvos de chacota”, colocados dentro de “latas de conserva”. A provocação havia alcançado mais de 26,2 milhões de visualizações até essa quinta-feira.

Uma liderança do PT costuma afirmar que a esquerda detém a arma de comunicação mais poderosa que é o presidente da República: “Lula tem um canhão na boca”, observa, em alusão ao potencial de alcance das falas presidenciais. Contudo, como a acusação de suposta campanha antecipada intimidou o governo e o PT, os ataques da oposição, a pecha de que a esquerda seria contrária aos valores familiares, ficaram sem resposta até agora.

Na direita, o “canhão na boca” continua com o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que em postagem em seus perfis, acusou Lula e o PT de odiarem “famílias estruturadas” e pais que amam seus filhos. Segundo ele, um jovem distante dos pais é facilmente “tragado pela esquerda”. “Eu sou ou feliz na minha família em conserva, nunca foi tão fácil escolher um lado”, arremata no vídeo que já obteve mais de 32 milhões de visualizações.

“O vídeo não explodiu como o do Pix”, destacou uma fonte governista, comparando com o post de Nikolas do ano passado, em que ele sugeriu, falsamente, que o governo taxaria a ferramenta, o que causou queda abrupta da aprovação de Lula. O “vídeo do Pix” já conseguiu mais de 347 milhões de visualizações. Petistas alegam que houve impulsionamento e favorecimento do algoritmo. Ainda assim, a distância nas redes entre a oposição e a esquerda continua sendo abissal.

A mesma fonte governista reconheceu, entretanto, que nessa conjuntura, é urgente responder à acusação de que Lula, o PT e a esquerda de forma geral seriam contrários aos valores das famílias brasileiras, quaisquer que sejam seus formatos, do conservador ao progressista.

Segundo a última pesquisa Genial/Quaest, divulgada no começo do mês, a desaprovação de Lula entre os evangélicos “despiorou”, isto é, caiu de 64% em janeiro para 61% em fevereiro, acima da margem de erro, de 2 pontos percentuais. Evangélicos representam hoje 26,9% da população, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Vale destacar, contudo, que católicos reforçam o eleitorado conservador - maior fatia dos brasileiros.

Para um dirigente petista, a oposição cumpre seu papel. “Eles estão sem referencial, pois Bolsonaro está preso”, enquanto Lula compareceu às principais praças de Carnaval, Recife, Salvador e Rio de Janeiro, pontuou. “O que restava a eles? Produzir confusão, tentar sangrar o governo”. Este petista acha que a onda de ataques será pontual. “Todos conhecem as qualidades e defeitos de Lula”, desafiou.

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