quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Trabalhadores do Brasil, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em prefácio a livro de discursos, presidente revê opinião sobre legado do antecessor

Em 1979, Leonel Brizola baixou em São Bernardo do Campo para visitar o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos. Queria atraí-lo para o projeto de refundação da legenda histórica do PTB.

Recém-chegado do exílio, o ex-governador discorria sobre as tradições do trabalhismo quando Lula o interrompeu com uma frase seca: “Getúlio ferrou o trabalhador”. A conversa acabou em constrangimento: o anfitrião nem se levantou da cadeira para se despedir.

Estrela do novo sindicalismo, Lula associava o nome de Vargas aos pelegos que dominavam a velha estrutura sindical corporativista e subordinada à ditadura. Chamava o ex-presidente de “pai dos pobres e mãe dos ricos” — uma heresia aos ouvidos de Brizola, que dizia representar o “fio da história” de lutas sociais rompido pelo golpe militar.

Quase meio século depois daquele encontro, o fundador do PT afirma que estava errado sobre o líder da Revolução de 1930. “Nasci na política criticando Getúlio. Eu reconhecia as conquistas da classe trabalhadora na Era Vargas, mas criticava a CLT por acreditar que havia nela um DNA fascista: a ‘Carta del Lavoro’, de Mussolini, o que não era verdade”, escreve.

A autocrítica está no prefácio de “Trabalhadores do Brasil! Discursos à nação”, que chega em breve às livrarias. Organizada por Lira Neto, a obra reúne 49 pronunciamentos históricos de Getúlio Vargas. Passa por temas como o programa da Aliança Liberal, a entrada do Brasil na Segunda Guerra e a volta ao poder pelas urnas, em 1950.

No texto que introduz o livro, Lula diz que só compreendeu o “real significado de Getúlio para o Brasil” ao ler os três volumes da biografia publicada por Lira Neto. “Getúlio trouxe para o centro da arena política questões que permanecem atuais: o Estado como indutor do desenvolvimento, a defesa da soberania nacional e o combate à desigualdade e aos privilégios”, afirma.

Citando a carta-testamento, o atual presidente escreve que essas bandeiras despertaram o ódio das elites. “São temas que até hoje, 80 anos depois, ainda enfrentam a oposição das forças e dos interesses contra o povo”, prossegue.

Livre da sombra de Brizola, Lula parece reivindicar um posto que já viu com desdém: o de herdeiro do getulismo.

 

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