O Globo
Em prefácio a livro de discursos, presidente
revê opinião sobre legado do antecessor
Em 1979, Leonel Brizola baixou em São
Bernardo do Campo para visitar o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos.
Queria atraí-lo para o projeto de refundação da legenda histórica do PTB.
Recém-chegado do exílio, o ex-governador
discorria sobre as tradições do trabalhismo quando Lula o interrompeu com uma
frase seca: “Getúlio ferrou o trabalhador”. A conversa acabou em
constrangimento: o anfitrião nem se levantou da cadeira para se despedir.
Estrela do novo sindicalismo, Lula associava o nome de Vargas aos pelegos que dominavam a velha estrutura sindical corporativista e subordinada à ditadura. Chamava o ex-presidente de “pai dos pobres e mãe dos ricos” — uma heresia aos ouvidos de Brizola, que dizia representar o “fio da história” de lutas sociais rompido pelo golpe militar.
Quase meio século depois daquele encontro, o
fundador do PT afirma que estava errado sobre o líder da Revolução de 1930.
“Nasci na política criticando Getúlio. Eu reconhecia as conquistas da classe
trabalhadora na Era Vargas, mas criticava a CLT por acreditar que havia nela um
DNA fascista: a ‘Carta del Lavoro’, de Mussolini, o que não era verdade”,
escreve.
A autocrítica está no prefácio de
“Trabalhadores do Brasil! Discursos à nação”, que chega em breve às livrarias.
Organizada por Lira Neto, a obra reúne 49 pronunciamentos históricos de Getúlio
Vargas. Passa por temas como o programa da Aliança Liberal, a entrada do Brasil
na Segunda Guerra e a volta ao poder pelas urnas, em 1950.
No texto que introduz o livro, Lula diz que
só compreendeu o “real significado de Getúlio para o Brasil” ao ler os três
volumes da biografia publicada por Lira Neto. “Getúlio trouxe para o centro da
arena política questões que permanecem atuais: o Estado como indutor do
desenvolvimento, a defesa da soberania nacional e o combate à desigualdade e
aos privilégios”, afirma.
Citando a carta-testamento, o atual
presidente escreve que essas bandeiras despertaram o ódio das elites. “São
temas que até hoje, 80 anos depois, ainda enfrentam a oposição das forças e dos
interesses contra o povo”, prossegue.
Livre da sombra de Brizola, Lula parece
reivindicar um posto que já viu com desdém: o de herdeiro do getulismo.

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