O Globo
O futuro palestino se anuncia pior que o
passado; e, do presente, poucos querem se lembrar
Passado, presente, futuro — a história de Gaza e da Palestina anda revolta em três tempos, simultaneamente. São tempos interligados, que têm em comum o apagamento da pegada histórica, física e cultural de todo um povo. Na mesma semana em que o venerando Museu Britânico removeu o termo “Palestina” de parte de seu acervo permanente sobre o Oriente Médio, a menção à situação em Gaza despencou para 1,5% do noticiário nas mídias dos Estados Unidos, e Donald Trump estreou em Washington seu Comitê de Paz para tornar o enclave mais desfrutável (e rentável) no futuro.
Começando pelo passado. A coleção permanente
do museu londrino dedicada à história, arte e cultura das civilizações é uma
das maiores do mundo — conta com mais de 8 milhões de peças que documentam os
passos da Humanidade, dos primórdios até hoje. Os textos, painéis informativos
e mapas alterados na semana passada encontram-se na ala destinada à História do
Oriente Médio, que inclui os territórios do antigo Levante e do Egito antes da
Era Cristã. Nessa seção, a costa leste do Mediterrâneo era identificada como
“Palestina”, e os povos que lá viviam como “de ascendência palestina”. Em seu
lugar, agora são referidos como “Canaã” e “de ascendência cananeia”.
Canaã costuma ser empregado por historiadores
para a região que englobava o que é hoje Palestina, Israel, Síria e Jordânia. O
termo foi criado em referência aos primeiros habitantes de Jericó, que hoje
integra a Cisjordânia ocupada por Israel. No Velho Testamento, Canaã também é
referida como a terra prometida por Deus ao povo judeu. Ou seja, encrenca
milenar.
A troca na nomenclatura foi comemorada pelo
grupo de advogados UK Lawyers for Israel (UKLFI), que exercera pressão forte
para a mudança argumentado, entre outros motivos, que o nome “Palestina”
poderia minimizar a existência dos antigos reinos israelitas. A reação
contrária veio de pronto, com abaixo-assinado pela reversão da medida, firmado
por milhares de integrantes do próprio museu.
— É ridículo o Museu Britânico remover a
palavra “Palestina” quando ela tem antiguidade maior que a palavra “Britânico”
— escreveu o historiador de arte escocês William Dalrymple, que situa a
primeira referência ao termo a um monumento egípcio de 1186 a.C.
Dificilmente se verá reversão, pois o próprio
museu considera que o termo deixou de ser “historicamente neutro”. Ou seja,
tornou-se tóxico. A Palestina não está a salvo nem no seu passado milenar.
No presente, 4 mil anos depois, o apagamento
se agrava desde outubro de 2025, quando Trump anunciou um cessar-fogo que já
matou mais de 600 civis palestinos.
— A guerra em Gaza acabou — decretou o
presidente.
A imprensa dos Estados Unidos parece ter
acreditado, pois, segundo dados do instituto Fairness & Accuracy In
Reporting (Fair), o noticiário sobre o lento morrer no enclave encolheu
brutalmente. Chegou a ocupar 4,5% do espaço; hoje mal alcança 1,3%. O fato de o
governo Benjamin Netanyahu proibir acesso ao que resta de Gaza a toda e
qualquer mídia estrangeira independente apenas acentua o esquecimento e o
silêncio mundial. Em paralelo, o Comitê de Proteção a Jornalistas documentou a
detenção por Israel de 94 repórteres palestinos (32 em Gaza, 60 na Cisjordânia
ocupada e dois em Israel) e expôs as condições prisionais degradantes a que são
submetidos. Eram deles as únicas vozes ainda ativas no infernal cotidiano da
vida palestina presente.
— É fácil manifestar cinismo ou desesperança
sobre o estado das artes do jornalismo — escreveu a crítica de mídia Margaret
Sullivan — quando nos sentimos frustrados, atolados em desinformação e em
dúvida sobre o sentido da profissão. Mas é por meio do jornalismo que o viver
de um povo é contado, que o poder é desafiado, a História é registrada, mudanças
são empurradas.
O general Dwight Eisenhower disse mais ou
menos a mesma coisa em abril de 1945, apenas em tom de urgência necessária à
ocasião — as tropas sob seu comando haviam libertado o campo de concentração
nazista de Ohrdruf, pouco antes:
— Registrem tudo agora. Filmem tudo. Chamem
as testemunhas. Pois, em algum ponto do fio da História, algum canalha se
erguerá e dirá que isso jamais aconteceu.
No tempo futuro, será inevitável a
obliteração das raízes de Gaza caso a “reconstrução” do enclave siga a distopia
planejada por Trump. O que até outubro de 2023 era a Cidade Velha, lar da
Grande Mesquita de Omari, foi redesenhado para se tornar um “complexo
industrial”; 180 torres turísticas à beira-mar devem cortar o acesso à orla
para a população local; as outrora férteis terras agrícolas e dois imensos
campos de refugiados serão ocupados por centros de dados, sem ligação com as
comunidades originais; as 400 mil novas moradias prometidas na semana passada —
designadas como “comunidades seguras alternativas” — serão fortemente vigiadas,
com os moradores submetidos a monitoramento biométrico e verificação por parte
de Israel — escreveu Muhammad Shehada, pesquisador do European Council on
Foreign Relations.
Nessa toada, o futuro palestino se anuncia
pior que o passado; e, do presente, poucos querem se lembrar.

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