domingo, 15 de fevereiro de 2026

Veias abertas da Venezuela, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Reportagem de 1971 mostra que petróleo e pobreza convivem há décadas no país

“Este país é um dos mais ricos do mundo. Também é um dos mais pobres e mais violentos.” Assim começa a reportagem “A civilização do ouro negro”, de Eduardo Galeano. Publicada em 1971, descrevia uma Venezuela que já passava por agruras muito antes do chavismo.

O texto retrata um país que produzia 3 milhões de barris de petróleo ao dia, mas negava serviços básicos à população. “A metade dos venezuelanos tem menos de 18 anos de idade. E mais da metade das crianças e dos adolescentes não recebe nenhum tipo de educação”, anotou o jornalista e escritor uruguaio.

“Desde que o primeiro poço rebentou aos borbotões, o orçamento nacional foi multiplicado por 100, mas a maioria da população continua tão pobre como na época em que o país dependia do cacau e do café”, resumiu.

Galeano narrou as mudanças na geografia do país, aceleradas pelo êxodo rural. Na capital, os petrodólares faziam subir arranha-céus e viadutos, enquanto favelas se multiplicavam pelas encostas. “As vastas zonas pobres de Caracas são chamadas bairros. As zonas ricas, urbanizações. As altitudes dos pobres são cerros, as dos ricos, colinas”, observou.

O repórter se espantou com a ostentação da elite caraquenha, que desfilava em carrões importados, vestia-se com grifes de luxo e tentava imitar o modo de vida americano. “O rum nacional é estupendo, mas não dá status, bebe-se uísque da Escócia, com água da Escócia que a Venezuela importa, acredite ou não, em saquinhos plásticos que chegam pelo oceano”, escreveu.

Sem política industrial ou agrícola, o país abria mão de investir a renda do petróleo em seu próprio desenvolvimento. “Nas vastas terras virgens deste país desabitado poderia caber, inteira, a população da Alemanha ou a da Inglaterra. No entanto, a Venezuela importa alface e milho dos Estados Unidos e feijão do México”, constatou Galeano.

Dos 135 mil jovens que chegavam ao mercado de trabalho por ano, só 50 mil conseguiam emprego. Sem estudo e sem renda, a garotada virava mão de obra fácil para o crime. “Caracas, ela toda, é uma cidade violenta. A cidade se transforma em uma estrutura da repressão: é preciso pôr a salvo a minoria integrada, frente a uma maioria crescente de excluídos com o impulso cego de assaltar”, anotou o futuro autor de “Veias abertas da América Latina”.

A anos-luz da era das bets, o povão juntava trocados para apostar em cavalos. Aos domingos, o rádio transmitia os páreos do Hipódromo de La Rinconada, território de bacanas. “Aposta-se desesperadamente, para ‘sair de baixo’. Todos apostam, mas os que ‘saem de baixo’ são contados nos dedos da mão”, escreveu Galeano. A canção da moda, “que os caraquenhos cantarolavam o tempo todo”, clamava ao Senhor. Era “Jesus Cristo”, na versão de Roberto Carlos para o espanhol.

O texto sobre a Venezuela faz parte de “Nós dizemos não: crônicas 1963-1988”, que chega às livrarias brasileiras em março. A coletânea também inclui uma reportagem sobre a religiosidade popular no Rio, escrita em 1969, e entrevistas com mitos latino-americanos como Perón, Guevara e Pelé. Aos 23 anos, o Rei já havia vencido duas Copas, mas ainda recusava a majestade: “Não sou mascarado. O melhor jogador do mundo ainda não nasceu”.

 

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