O Globo
Reportagem de 1971 mostra que petróleo e pobreza convivem há décadas no país
“Este país é um dos mais ricos do mundo.
Também é um dos mais pobres e mais violentos.” Assim começa a reportagem “A
civilização do ouro negro”, de Eduardo Galeano. Publicada em 1971, descrevia
uma Venezuela que já passava por agruras muito antes do chavismo.
O texto retrata um país que produzia 3
milhões de barris de petróleo ao dia, mas negava serviços básicos à população.
“A metade dos venezuelanos tem menos de 18 anos de idade. E mais da metade das
crianças e dos adolescentes não recebe nenhum tipo de educação”, anotou o
jornalista e escritor uruguaio.
“Desde que o primeiro poço rebentou aos borbotões, o orçamento nacional foi multiplicado por 100, mas a maioria da população continua tão pobre como na época em que o país dependia do cacau e do café”, resumiu.
Galeano narrou as mudanças na geografia do
país, aceleradas pelo êxodo rural. Na capital, os petrodólares faziam subir
arranha-céus e viadutos, enquanto favelas se multiplicavam pelas encostas. “As
vastas zonas pobres de Caracas são chamadas bairros. As zonas ricas,
urbanizações. As altitudes dos pobres são cerros, as dos ricos, colinas”,
observou.
O repórter se espantou com a ostentação da
elite caraquenha, que desfilava em carrões importados, vestia-se com grifes de
luxo e tentava imitar o modo de vida americano. “O rum nacional é estupendo,
mas não dá status, bebe-se uísque da Escócia, com água da Escócia que a
Venezuela importa, acredite ou não, em saquinhos plásticos que chegam pelo
oceano”, escreveu.
Sem política industrial ou agrícola, o país
abria mão de investir a renda do petróleo em seu próprio desenvolvimento. “Nas
vastas terras virgens deste país desabitado poderia caber, inteira, a população
da Alemanha ou a da Inglaterra. No entanto, a Venezuela importa alface e milho
dos Estados Unidos e feijão do México”, constatou Galeano.
Dos 135 mil jovens que chegavam ao mercado de
trabalho por ano, só 50 mil conseguiam emprego. Sem estudo e sem renda, a
garotada virava mão de obra fácil para o crime. “Caracas, ela toda, é uma
cidade violenta. A cidade se transforma em uma estrutura da repressão: é
preciso pôr a salvo a minoria integrada, frente a uma maioria crescente de
excluídos com o impulso cego de assaltar”, anotou o futuro autor de “Veias
abertas da América Latina”.
A anos-luz da era das bets, o povão juntava trocados para
apostar em cavalos. Aos domingos, o rádio transmitia os páreos do Hipódromo de
La Rinconada, território de bacanas. “Aposta-se desesperadamente, para ‘sair de
baixo’. Todos apostam, mas os que ‘saem de baixo’ são contados nos dedos da
mão”, escreveu Galeano. A canção da moda, “que os caraquenhos cantarolavam o
tempo todo”, clamava ao Senhor. Era “Jesus Cristo”, na versão de Roberto Carlos
para o espanhol.
O texto sobre a Venezuela faz parte de “Nós
dizemos não: crônicas 1963-1988”, que chega às livrarias brasileiras em março.
A coletânea também inclui uma reportagem sobre a religiosidade popular no Rio,
escrita em 1969, e entrevistas com mitos latino-americanos como Perón, Guevara
e Pelé. Aos 23 anos, o Rei já havia vencido duas Copas, mas ainda recusava a
majestade: “Não sou mascarado. O melhor jogador do mundo ainda não nasceu”.

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