O Globo
Talvez o MP escafuasse Guimarães Rosa, por
comprometer a norma culta com palavras que não existem
O ano de 2026 começou com tudo. O Rio teve o
melhor janeiro de sua história, com número recorde de turistas. Juiz de Fora,
em contraste, bateu o recorde de chuvas para o mês de fevereiro.
Agora, leitor, me diga, com toda sinceridade: como você pronunciou mentalmente a palavra “recorde” ao ler o parágrafo acima? Ainda bem que não leu em voz alta, nem havia ninguém do Ministério Público Federal por perto, ou o saldo de sua conta bancária poderia superar o recorde negativo anterior. Ops, errou de novo: não é “récorde” (proparoxítona), mas “recorde” (paroxítona, sem acento).
Que eu me recorde, nunca ouvi ninguém falar
assim, com a tônica na penúltima sílaba — a não ser conjugando o verbo
recordar. Mas é o que exige o MPF em Minas Gerais. Ele considera a pronúncia
(certamente usada por você, por mim e pela torcida dos times da Série A) uma
violação ao patrimônio cultural imaterial da língua portuguesa.
Os dicionários Houaiss e Michaelis registram
não só as duas formas de falar, mas também as duas grafias. Isso é o de menos.
O MP tomou para si a missão de zelar pela prosódia — e a TV Globo levou uma
multa de R$ 10 milhões para aprender que vale o escrito no Vocabulário
Ortográfico da Língua Portuguesa, o VOLP, não o que está na boca do povo.
Imagino os procuradores do MP de bloquinho e
lápis na mão, procurando crimes e contravenções nas novelas, noticiários,
mesas-redondas, programas de entrevista (nos reality shows, não, porque aí era
covardia):
— O repórter disse “tava”. O verbo “tavar”
não tá no VOLP, tá?
— Tá não. Bora multar.
— O locutor falou que o jogo começa “a uma da
tarde”. A crase não é obrigatória?
— É, mas acho que só por escrito. De qualquer
forma, vamos dar uma advertência e fazer um termo de ajustamento de conduta
para que a preposição seja espichada oralmente quando vier seguida de artigo.
Precisa ter a mesma duração de quando se diz “Saara” ou “caatinga”.
Se uma silabada custa R$ 10 milhões, será
preciso elaborar uma tabela de valores para as demais barbaridades cometidas
contra o vernáculo. Como o erro de ortoépia de dizer “subzídio” ou
“subzistência” — que poderia custar uns R$ 15 milhões, pelo menos. Afinal,
ninguém fala “subzolo” ou “subzíndico”. “Nóbel”, em vez de “Nobél”, além da
multa, teria pena de reclusão: jamais nos darão o prêmio enquanto não soubermos
sequer pronunciar o seu nome.
Haverá infrações de menor potencial ofensivo:
misturar os tratamentos da segunda e da terceira pessoas do singular (posso te
garantir que você se surpreenderá com quanto será possível arrecadar se isso
for taxado).
Não sei como o MP tratará os neologismos
(talvez escafuasse Guimarães Rosa, por comprometer a norma culta com palavras
que não existem) e as variantes (pobre do radialista mato-grossense que
mencionar a “póça” d’água).
Melhor nem pensar no prejuízo da gravadora de
Adoniran Barbosa, caso lançasse hoje a “Saudosa maloca”, o “Tiro ao Álvaro”,
violando o direito difuso da sociedade a ter acesso a uma arte educativa.
O MP já tinha virado Ministério do
Preconceito ao criminalizar (sim, racismo é crime) as expressões “fazer nas
coxas”, “denegrir” e “criado-mudo”. Agora é Ministério da Prosódia. Para
Ministério da Proibição, com a pretensão de monopólio sobre a legitimidade da
língua, é um pulo.

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