sábado, 28 de fevereiro de 2026

Vem aí o Ministério da Prosódia, por Eduardo Affonso

O Globo

Talvez o MP escafuasse Guimarães Rosa, por comprometer a norma culta com palavras que não existem

O ano de 2026 começou com tudo. O Rio teve o melhor janeiro de sua história, com número recorde de turistas. Juiz de Fora, em contraste, bateu o recorde de chuvas para o mês de fevereiro.

Agora, leitor, me diga, com toda sinceridade: como você pronunciou mentalmente a palavra “recorde” ao ler o parágrafo acima? Ainda bem que não leu em voz alta, nem havia ninguém do Ministério Público Federal por perto, ou o saldo de sua conta bancária poderia superar o recorde negativo anterior. Ops, errou de novo: não é “récorde” (proparoxítona), mas “recorde” (paroxítona, sem acento).

Que eu me recorde, nunca ouvi ninguém falar assim, com a tônica na penúltima sílaba — a não ser conjugando o verbo recordar. Mas é o que exige o MPF em Minas Gerais. Ele considera a pronúncia (certamente usada por você, por mim e pela torcida dos times da Série A) uma violação ao patrimônio cultural imaterial da língua portuguesa.

Os dicionários Houaiss e Michaelis registram não só as duas formas de falar, mas também as duas grafias. Isso é o de menos. O MP tomou para si a missão de zelar pela prosódia — e a TV Globo levou uma multa de R$ 10 milhões para aprender que vale o escrito no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o VOLP, não o que está na boca do povo.

Imagino os procuradores do MP de bloquinho e lápis na mão, procurando crimes e contravenções nas novelas, noticiários, mesas-redondas, programas de entrevista (nos reality shows, não, porque aí era covardia):

— O repórter disse “tava”. O verbo “tavar” não tá no VOLP, tá?

— Tá não. Bora multar.

— O locutor falou que o jogo começa “a uma da tarde”. A crase não é obrigatória?

— É, mas acho que só por escrito. De qualquer forma, vamos dar uma advertência e fazer um termo de ajustamento de conduta para que a preposição seja espichada oralmente quando vier seguida de artigo. Precisa ter a mesma duração de quando se diz “Saara” ou “caatinga”.

Se uma silabada custa R$ 10 milhões, será preciso elaborar uma tabela de valores para as demais barbaridades cometidas contra o vernáculo. Como o erro de ortoépia de dizer “subzídio” ou “subzistência” — que poderia custar uns R$ 15 milhões, pelo menos. Afinal, ninguém fala “subzolo” ou “subzíndico”. “Nóbel”, em vez de “Nobél”, além da multa, teria pena de reclusão: jamais nos darão o prêmio enquanto não soubermos sequer pronunciar o seu nome.

Haverá infrações de menor potencial ofensivo: misturar os tratamentos da segunda e da terceira pessoas do singular (posso te garantir que você se surpreenderá com quanto será possível arrecadar se isso for taxado).

Não sei como o MP tratará os neologismos (talvez escafuasse Guimarães Rosa, por comprometer a norma culta com palavras que não existem) e as variantes (pobre do radialista mato-grossense que mencionar a “póça” d’água).

Melhor nem pensar no prejuízo da gravadora de Adoniran Barbosa, caso lançasse hoje a “Saudosa maloca”, o “Tiro ao Álvaro”, violando o direito difuso da sociedade a ter acesso a uma arte educativa.

O MP já tinha virado Ministério do Preconceito ao criminalizar (sim, racismo é crime) as expressões “fazer nas coxas”, “denegrir” e “criado-mudo”. Agora é Ministério da Prosódia. Para Ministério da Proibição, com a pretensão de monopólio sobre a legitimidade da língua, é um pulo.

 

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