Valor Econômico
Maior temor é o de que o impeachment de
ministros seja “normalizado” como o de presidentes
O procurador- geral da República manifestou-se pela prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro. Paulo Gonet disse não haver meios, no sistema prisional, de monitorar sua saúde. Por mais bem fundamentada que esteja, a manifestação de Gonet não trata apenas da sobrevivência do ex-presidente, mas também daquela do Supremo Tribunal Federal. Como a Corte ainda não é capaz de delimitar o estrago para sua imagem com o Master, há um consenso de que é preciso evitar novas frentes de desgaste como a custódia prisional de um ex-presidente da República debilitado.
A Corte entrou no modo autoproteção para
evitar o impeachment de seus ministros. A avaliação é de que, uma vez aberta a
porteira do primeiro ministro cassado, outros seguiriam. O STF caiu na boca do
povo como o garantidor da democracia depois do 8/1, mas o país parece estar
prestes a concluir que a Corte hoje está a afrontá-la pelo exercício desmedido
de suas prerrogativas.
A preocupação já cruzou a Praça dos Três
Poderes. O raciocínio é de um ministro do Executivo: no dia seguinte ao
impeachment de um togado, o país pode descobrir que a quitanda vai abrir, o
ônibus vai passar, o Pix vai continuar funcionando e as crianças terão aula
normalmente. Ou seja, o país não vai acabar porque um ministro do STF foi
cassado. Vai seguir em frente como o fez, com inúmeras e longevas avarias,
depois que dois presidentes da República, com aval dos togados, foram apeados
dos cargos para os quais foram eleitos pela maioria dos brasileiros.
O STF opera na lógica da política mas quer
evitar ser por ela tragado. Desde o ano passado, o ministro Gilmar Mendes
antecipou-se com a liminar que restringiu a propositura de impeachment ao PGR e
elevou o quórum para o mesmo aplicado a presidente. Cedeu no primeiro quesito
para manter o segundo.
O decano voltou agora à baila para, num
julgamento em que já estava vencido, acompanhar o relator depois de ancorar seu
desgosto com o lavajatismo do qual já foi um portentoso arauto. Como esperado,
mandou recados. Disse à magistratura que a Corte não poderia se dobrar à
pressão da política (para soltar Daniel Vorcaro). E, à política, recomendou não
se dobrar à magistratura (lavajatista).
Apostou para continuar como o fiel da balança
na Corte, assim como o Centrão o é na política. Num STF conflagrado pelos
antagonismos entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes, o decano
entra para o deixa disso, muito embora a emoção demonstrada pela defesa pública
do segundo e a mordacidade de seu voto contra a condução do primeiro levante
dúvidas sobre sua equidistância.
A operação contra o impeachment já foi capaz
até de dissipar algumas tensões com o presidente da Corte, Edson Fachin, que
passou a abrigar uma pauta mais agressiva de regramento das benesses da magistratura
no Conselho Nacional de Justiça, antiga demanda do decano e do ministro Flávio
Dino.
Esta operação só poderia ser considerada bem
sucedida se for capaz de convencer Dias Toffoli a se aposentar, cenário
descartado pelo ministro em questão. Se a submissão do STF à Lei Orgânica da
Magistratura fosse um ponto pacificado na Corte, a solução poderia ser a mesma
usada para o afastamento, pelo plenário, do ministro Marco Buzzi, do Superior
Tribunal de Justiça, denunciado por assédio sexual de uma jovem de 18 anos.
Pesa contra esta solução de rifar Toffoli
para manter Moraes, o risco de o primeiro sair não apenas atirando mas levando
para o cadafalso seus parceiros na política. Esta hipótese perderia força se o
distinto público fosse informado sobre o que mais depõe contra um e outro.
Corroboram ainda para a indefinição em torno desta saída, as dúvidas que pairam
sobre a disposição do ministro André Mendonça de traçar a risca de giz na
investigação sobre Moraes.
O Executivo não assiste a tudo isso de braços
cruzados. Uma proposta de emenda à Constituição para impor mandato,
constitucionalizar o código de conduta do STF e endurecer as regras de conflito
de interesse tem sido amadurecida como a saída para o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva não ficar a reboque.
Lula teria que encabeçar esta solução por
conta e risco, visto que a Esplanada está desprovida de nome para liderar o
debate. Não se trata de aprovar uma PEC dessas num ano eleitoral mas emplacar
como a proposta do incumbente para colocar ordem no freje institucional causado
pelos togados.
A volta dos que nunca foram
A desistência do governador Ratinho Junior,
do Paraná, de disputar a Presidência é a volta dos que nunca foram. Nenhum
político alça um voo desses sem assegurar suas bases. No Paraná, já se dava
como certo que, se o governador partisse para a disputa nacional, o senador
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apoiaria o senador Sergio Moro (União) na estadual. A
entrada de Ratinho tiraria do primogênito de Bolsonaro o verniz “centrista”.
Como Ratinho quer eleger seu ex-secretário de Planejamento, Guto Silva, sua
pretensão nacional já estava condenada. O lançamento de Ronaldo Caiado para
ocupar a vaga não preocupa na mesma proporção pelo perfil mais direitista do
governador de Goiás. Ao insistir que Geraldo Alckmin pode vir a disputar o
Senado em São Paulo, Lula voltou a acalentar a expectativa de que o presidente
do PSD, Gilberto Kassab, ocupe a vice. Parece improvável. O melhor cenário para
o PSD é crescer no Legislativo e, para isso, uma chapa presidencial não tem
serventia.

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