Valor Econômico
Empresas e consumidores do Brasil enfrentam há décadas os juros reais mais altos do mundo, e há um silêncio constrangedor entre empresários do setor produtivo atingidos pelos custos desses juros
Incerteza é a palavra do momento. A maior de
todas advém da atuação insana do presidente da mais poderosa nação do mundo. A
guerra que esse senhor iniciou ao bombardear o Irã em parceria com outro
senhor, além de mortífera e devastadora, se mostrou pobre em planejamento.
Provocou a expansão do conflito para todo o Oriente Médio e a maior interrupção
de oferta da história do mercado mundial de petróleo.
Com o seu erro estratégico, os dois senhores dessa guerra estão matando civis, inclusive muitas crianças, sem medo de serem punidos por seus crimes. Além disso, fizeram disparar os preços do petróleo e ameaçam o mundo com uma nova onda inflacionária, talvez semelhante à que se sucedeu ao grande choque dos anos 1970, quando a alta da commodity atingiu 400% em decorrência da guerra do Yom Kippur. Naquela década, o preço do barril saiu de US$ 3 para US$ 12.
Com o impacto inflacionário global, os dois
senhores tentaram encerrar o conflito e pediram ajuda aos aliados da Otan e até
à China. Os países da Otan se movem lentamente para entrar no conflito e a
China quer distância dele. Ontem, o senhor número 1 anunciou uma trégua de
cinco dias nos ataques militares contra usinas de energia e infraestrutura
energética iranianas. Um alívio, mas as promessas dele mudam como o vento.
Esse senhor cria mais incertezas ao manter
duas ameaças: uma sobre punições tarifárias a países que considera rebeldes e
outra sobre invasões militares para derrubar governos e anexar territórios.
Ninguém poderá impedi-lo nessas ações, a não ser o bom-senso do próprio povo
americano, que até agora não parece muito interessando em marchar pela paz.
Incerteza é a palavra do momento também no
ambiente interno brasileiro. O preço do diesel disparou e já há problemas no
abastecimento das colheitadeiras.
O Banco Central mencionou o termo em sua
mensagem da semana passada ao fazer uma minúscula redução da taxa de juros
interna, de 15% ao ano para 14,75% e anunciar um ciclo de “calibração” da
política monetária.
Empresas e consumidores enfrentam há décadas
os juros reais mais altos do mundo, só menores que os da Turquia. E há um
silêncio constrangedor entre empresários do setor produtivo atingidos pelos
custos desses juros. Hipnotizados pelo discurso do risco fiscal, aceitam a taxa
como normal, a despeito das evidências de que ela é exagerada e embora estejam
sofrendo com endividamentos. Curiosamente, a pequena redução da Selic, na
semana passada, foi feita num momento em que praticamente todos os bancos
centrais mantiveram inalteradas suas taxas básicas.
Mesmo nesse contexto problemático, a economia
brasileira apresenta bons números. A inflação está contida, o PIB desacelera,
mas ainda cresce, a renda está em alta e o desemprego é o menor desde que
começou a ser medido. Vai demorar até um ministro da Fazenda exibir números
melhores que os conseguidos pelo sociólogo-economista que deixou o ministério
na semana passada, após três anos e três meses no cargo.
Em ano eleitoral, porém, o ambiente interno
tumultuado exala incertezas. Violência e insegurança são as maiores
preocupações, seguidas de corrupção e problemas sociais. Inflação e desemprego,
por exemplo, sumiram do mapa.
Feminicídios tomam conta do noticiário
policial e parecem crescer, mesmo com o esforço da sociedade e da imprensa para
denunciar esses crimes. No Congresso, há confronto entre parlamentares
progressistas e conservadores. Estes tentam, por exemplo, impedir mulher trans
de presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara, como se
identidade de gênero fosse credencial para comandar comissões.
Incerteza advém também dos movimentos do
banqueiro preso, acusado de fraudes bilionárias e corrupção - ele se prepara
para delação premiada que pode envolver revelações sobre atuação imprópria,
para dizer o mínimo, de poderosos da política. Incerteza decorre ainda de
possível corrupção a ser apurada pela CPMI do INSS, sobre dinheiro surrupiado
de aposentados e pensionistas.
Enquanto isso, sob resistência do Congresso,
um ministro do Supremo Tribunal Federal tenta acabar com um vergonhoso prêmio
concedido a juízes que cometem fraudes disciplinares graves. Há décadas, esses
infratores são punidos com aposentadoria compulsória e rendimentos vitalícios.
O próprio Supremo está sob pressão em razão de comportamentos duvidosos de
alguns ministros.
Essas incertezas e aflições são um ambiente propício para o surgimento de oportunistas que se apresentam como salvadores da pátria ou varredores de bandalheiras. Eles prometem o paraíso, muitas vezes munidos com machados, motosserras ou fuzis. O Brasil e outros países, vizinhos ou não, já viram várias vezes o nascimento desses espertalhões. Nunca deu certo.

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