Folha de S. Paulo
Quando morre um bom livreiro, são os livros
os que perdem mais
Luiz Carlos encontrou para mim os livros mais
impossíveis dos modernos de 1920
O melhor amigo de um leitor é um bom livreiro. Aquele que não só conhece o livro que você procura, mas, na falta deste, sabe indicar alternativas do mesmo autor ou de outro. Não que tenha lido esses livros, mas o convívio com tantos deles faz com que, pelos títulos, capas ou editoras, se torne um profissional à altura do produto com que trabalha. Entre esses profissionais, há um que admiro mais: o livreiro de sebo.
O livreiro comum conhece os livros que estão
saindo. O de sebo conhece livros de todas as épocas, que costuma receber aos
milhares de uma vez, do filho ou viúva de um colecionador. Aceita todos, não
escolhe, e, no dia seguinte, já recebe outro lote igual. Catalogá-los, dar-lhes
preço e botá-los nos escaninhos deveria ser o trabalho de uma equipe. Quase
sempre ele o faz sozinho.
Tenho amigos entre esses livreiros por toda
parte. Mas, nos últimos dez anos, um foi especial: Luiz Carlos Araújo, do sebo
Mar de Histórias, em Copacabana. Para escrever meu livro "Metrópole à
Beira-Mar", sobre o Rio moderno dos anos 1920, decidi que
precisava ler a obra completa dos autores daquele tempo que, em minha opinião,
já eram modernos —ou seja, escreviam de forma clara, adulta, objetiva, sem as
firulas parnasianas ou os maneirismos modernistas. O problema é que, exceto por
João do Rio e Manuel Bandeira, todos eram autores perdidos: Theo-Filho. Ronald
de Carvalho, Carmen Dolores, Chrisanthème, Orestes Barbosa, Adelino Magalhães,
Elysio de Carvalho, Agrippino Grieco. Pois, nos quatro anos que o trabalho me
tomou, até 2019, Luiz Carlos encontrou-os um a um. Fez o mesmo com o material
dos anos 1940 sobre a Segunda Guerra no Rio, que resultou em meu livro "Trincheira
Tropical", de 2025.
Nesta segunda-feira (23), um enfarte levou
Luiz Carlos, aos 66 anos. Não fomos apenas nós, seus clientes e amigos, que o
perdemos. Quando morre um livreiro, são os livros os que mais perdem.
Na sexta, eu lhe escrevera desculpando-me por
estar alugando-o a respeito de mais um livro impossível. Ele respondeu:
"Deixa comigo, Ruy. Estamos juntos. Estamos vivos".

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