Folha de S. Paulo
Até que o Congresso resolva fazer valer a
Constituição, ficam valendo os penduricalhos ditos aceitáveis
O problema é que os parlamentares têm zero
disposição de mexer nas regalias da casta à qual pertencem
Daquilo que deu para entender do juridiquês
castiço falado por ministros do Supremo Tribunal
Federal na decisão
sobre os penduricalhos salarias no serviço público, temos que as regalias
continuam.
Amenizadas, mas estão lá na permissão a que sejam pagos adicionais até 70% do teto estabelecido por lei, divididos em dois blocos de 35%. Afora a linguagem, as contas também soam complicadas. Mas, para a compreensão de quem paga a conta, a coisa é clara: ficam legalizados pagamentos acima do teto constitucional de R$ 46,3 mil, que agora passa dos R$ 78 mil.
No afã de se recuperar dos danos de
reputação, o STF se dispôs a dar um jeito na farra. Em duas decisões liminares
os ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes deram
a impressão de que a ideia seria acabar com os tais badulaques. Ilusão desfeita
no plenário, cioso —como deve ser— na observância da "segurança
jurídica".
Verbas extras asseguradas por institutos
legais criados ao longo de anos em que o assunto esteve distante do escrutínio
público ficam, portanto, garantidas. A menos, assentou o tribunal, que o Congresso venha
a instituir novo regramento para fazer valer o dito no texto original da Constituição de
1988.
Transferida a questão para o foro adequado do
Legislativo, vão-se os absurdos mais escandalosos, mas ficam os puxadinhos
tidos como palatáveis. E pelo que se depreende da disposição do Parlamento em
mexer na casta da qual faz parte, a chance é zero de se ter uma solução moral e
legalmente aceitável.
O argumento dos legisladores é que esse não é
assunto para ano eleitoral. Mera manobra protelatória. Na verdade, no fervilhar
da campanha seria o momento ideal, pois é quando os dependentes de votos são
levados a ouvir a voz das ruas.
Alguma dúvida sobre o que pensa a maioria
sobre sustentar privilégios de uma minoria? Pois é, por isso, para que fique
tudo como está, decidem deixar passar a temporada de demandas até que se inicie
o período de cobranças sobre o governo prestes a começar. Ou recomeçar.

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