Folha de S. Paulo
O apoio público às supremas cortes não é
baseado em princípios abstratos; em grande medida, é apoio instrumental
Cidadãos tendem a apoiar a corte quando acreditam que suas decisões os favorecem politicamente
A opinião pública importa para as supremas cortes porque sua autoridade depende de um estoque de legitimidade difusa que sustente a disposição dos atores políticos e da sociedade em acatar suas decisões. O verdadeiro armagedon institucional ocorre no day after em que atores relevantes passam a considerar a "opção nuclear" do não cumprimento das decisões judiciais.
Cortes superiores são, portanto, atores
estratégicos, atentos às reações do ambiente político. Como mostram Brandon Bartels e Christopher Johnston, o apoio público
às supremas cortes não é baseado em princípios abstratos. Trata-se, em grande
medida, de apoio instrumental: cidadãos tendem a apoiar a corte quando
acreditam que suas decisões os favorecem politicamente.
Assim o apoio de setores —decerto
minoritários— a juízes que são objeto de denúncias estarrecedoras em relação ao
escândalo do Banco Master causa perplexidade mas pode ser explicado, mas não
legitimado. Obviamente não me refiro a "opinião pública comprada",
mas a grupos hiperpartidários. No entanto, mesmo no âmbito do governo e de
grupos de seus apoiadores observa-se certa instabilidade em seus
posicionamentos. E isto se explica por vários fatores, como veremos.
Pesquisa em 34 países mostrou que a avaliação
das supremas cortes é tipicamente condicional ao apoio ao ocupante do Executivo. Nos EUA, o apoio à Suprema Corte
cresceu após a eleição de Trump entre republicanos e decresceu entre democratas
antes mesmo da confirmação dos três juízes que nomeou. O padrão é claro: o apoio aos
tribunais depende do alinhamento com quem ocupa a presidência.
No Brasil o apoio ao Supremo teve uma chave
positiva da democratização até o Mensalão (2005-2012), quando muda radicalmente
de sinal entre os então apoiadores do governo, que passam a enxovalhar o STF. Os ataques
intensificam-se no impeachment. O sinal muda novamente no governo Bolsonaro
quando estes setores viram oposição e passaram a apoiar a corte. E ele foi
revertido sem mudanças significativas na sua composição. O leitmotif: o STF
abandonou o combate à corrupção e escolheu outra batalha - a contenção do
Executivo iliberal, o que gerou um alinhamento entre STF e o atual governo.
Dentre as hostes bolsonaristas, o STF passou a ser demonizado. E mais: o
processo torna-se individualizado: alguns de seus membros passam de demônios a
anjos. E agora vice-versa.
Há fatores adicionais que complicam o padrão
esperado: o atual escândalo envolve o próprio STF e não - como tipicamente
acontece - o próprio governo e sua base. Fora isso há o fato de que se trata de
um escândalo de corrupção e não de uma decisão muito controversa (como o
aborto). O tema corrupção tornou-se tóxico e foi interditado na opinião pública
de esquerda e no governo devido ao mensalão e à Lava Jato. No contexto da atual
polarização política nas democracias, o apoio da opinião pública ao devido
processo legal nos casos de corrupção nos tribunais superiores é intensamente
partidarizado, como mostrou Garoupa e co-autores. Mais uma vez, há um padrão geral aqui,
mas não pode ser legitimado

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